Um herói relutante e icônico

Para os não iniciados, o texto tem SPOILERS. De ponta a ponta.



A morte de Jon Snow chocou tanto o mundo quanto a de Robb Stark, seu irmão mais velho, anos antes. A traição dos dois, somada com a trágica morte do pai deles, Ned Stark, “comprovou” a vulnerabilidade da família que era para ser a mocinha da saga de Game of Thrones.

Com a “morte” de Jon, acabamos a 5ª temporada sem muitas esperanças. Embora Jon tenha sido ressuscitado na temporada seguinte, de alguma forma, ele não voltou mais. A temporada 5 – de fato – marcou a mudança da narrativa da série.

Jon Snow é um dos melhores heróis de todos os tempos da ficção. Íntegro, destemido, sofrido e humilde, não tem paralelo para sua trajetória. Para quem não sabe, Jon Snow é o filho bastardo da Casa Stark. Criado como um Stark, ele é muito apegado aos “irmãos”, Robb, Bran, Arya , Rickon e Sansa. Sua madrasta, Catelyn Stark, o odeia profundamente porque o marido, Ned, jamais revelou a identidade da mãe de Jon.

Por mais que muitos desconfiassem da verdade, apenas na 6ª temporada que descobrimos que Jon na verdade era filho da irmã de Ned, Lyanna Stark com o príncipe herdeiro, Rhaegar Targaryen, com quem ela era secretamente casada. Dessa forma, Jon é o herdeiro legítimo do Trono de Ferro. Para fazer de Jon ainda o mais digno à coroa ele é o único de toda a história que genuinamente não quer poder ou posição, apenas um nome de família. O nome Stark.

Naturalmente por mais que fuja de seu destino, do qual ele é completamente ignorante, Jon é sempre levado a liderar e acaba sendo escolhido como Rei do Norte. Um dos momentos mais emocionantes da série.

Coincidentemente a movimentação pelo empoderamento feminino veio crescendo paralelo à produção da HBO. Isso impactou profundamente a maneira com que a história passou a ser contada. Se nas primeiras temporadas as mulheres eram exploradas, caladas ou reduzidas à vilãs quando ousavam querer poder, havia apenas em Daenerys Targaryen a esperança de uma líder feminina digna. Era obvio que Jon e Daenerys ficariam juntos pois eles se completavam, Fogo e Gelo, o perfeito equilíbrio de forças em GOT. Nunca foi para ser.

Em um universo em que incesto não chegava a ser problema, alguns não viram como dramático o fato de Daenerys ser tia de Jon. Quando eles se apaixonam não desconfiam da ligação sanguínea. Porém, quando a descobrem, é a gota final para Dany, que já estava no espiral negativo que destruiu a trajetória heróica da personagem. Passou a ser sedenta por poder, insegura e violenta. Jon, para salvar a população de Westeros, é “obrigado” a matá-la. Perde seu amor e sua coroa, termina seus dias exilado. Para as feministas, a pior das conclusões com a mulher tratada como louca e um homem salvando o mundo. Clássico e ofensivo. Jon Snow não merecia essa missão.

Eu particularmente senti muito o destino de Jon. Seria o doce e amargo que George R.R. Martin prometeu, mas no caminho custou a ele tudo e mais um pouco. É que quando GOT entrou na sexta temporada, já sem os livros para usar como base, passou a ter uma história “original” no sentido em que teria que chegar à mesma conclusão proposta pelo autor nos livros (teoricamente), mas o caminho seria como os showrunners achassem melhor.

A essa altura, a sociedade e a cultura tinham mudado. Com cobranças crescendo, a trama foi se adaptando. As mulheres passaram a ter protagonismo, porém a mudança, parece ter contribuído para a já famosa polêmica do final de Game Of Thrones.

Jon Snow foi uma das vítimas, pois para ceder seu protagonismo, perdeu sua essência. Na 5ª temporada, estava desesperado para salvar o mundo do ataque dos Night Walkers, os mortos vivos que só cresciam em número. Jon era o único em todo universo de GOT que genuinamente queria o melhor de todos, inimigos ou amigos e paga com sua vida pela integridade.


Quando se reune à sua irmã, Sansa, Jon já é outro. No entanto, é Sansa quem está mais diferente. Até então, ela era uma menina fraca e traumatizada, uma “mulher do seu tempo”. A partir desse momento, mostra uma maturidade e iniciativa anteriormente desconhecidas. Com mais eficiência do que o próprio Jon, que já tinha vencido batalhas duríssimas. É ela quem planeja, conduz, briga e vence. Só não luta fisicamente pois seria inexplicável. Ao lado de Sansa, toda liderança e e força que Jon tinha pareciam apenas uma sombra. Tudo certo porque ele se mantém focado em vencer a luta contra os mortos. Seu destino, nos parecia, seria matar seu pior inimigo, o Night King. Sansa podia ficar com todo o resto.

Nem isso sobrou para Jon. O fim à ameaça de 3 mil anos dos Night Walkers foi encerrada por Arya, sua irmã caçula. Ele ficou do lado de fora, impedido por um dragão de chegar perto do duelo final. A essa altura, as mulheres não precisam mais de um homem, de um herói ou príncipe para resolver as coisas. Elas conseguem fazer sozinhas. Lindo e bacana para Arya, mas… e Jon?

Foi uma falta de sorte e uma pena ter apagado Jon Snow na reta final de Game of Thrones, mesmo que, no contexto atual, ele não pudesse ser Rei. A vitória feminina, representada por Sansa Stark, com maravilhoso arco de reinvenção, era o que o público queria. Mas Arya poderia matar Cersei, que também era o desejado, não precisava tirar de Jon sua única luta.

Segundo parece, quando começou a escrever a saga há mais de 20 anos, Martin imaginou reverter a percepção geral para comprovar sua teoria de que “um vilão é o herói do outro lado”. Portanto, apenas para quem não acompanhava deixou de perceber o destino de Daenerys Targaryen estava traçado desde o início para uma volta de 180 graus. Jon não queria poder, não tinha como ter uma virada. Apenas ela.

Jon Snow e Tyrion Lannister não eram os piores representantes machistas na história, mesmo com suas falhas estruturais. Porém foram os principais “punidos” para que o protagonismo feminino ganhasse espaço. Nem Arya nem Sansa ficariam menores com eles seguindo o caminho deles. Tirar a morte de um vilão inegável para colocar o assassinato de uma vilã querida do público foi cruel. Jon foi ressuscitado apenas para ser morto moralmente. Merecia mais. Daenerys também.

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