A importância de revisar a despedida dos The Beatles

Para muitas gerações, a separação dos The Beatles foi quase traumática.  Uma febre mundial, a banda inglesa estava ainda no auge quando os quatro amigos de infância se separaram. Nunca mais voltaram tocar juntos (separadamente em duplas, sim). Havia a esperança de uma grande reunião, mas o assassinato de John Lennon, em 1980, acabou com o sonho dos fãs. Ficou para sempre uma dúvida do que poderia ter sido.

Muitos dedos foram apontados para justificar o fim da banda. Quase todos apontavam para Yoko Ono, esposa de John, especialmente pela relação simbiótica que estabeleceram, como uma unidade. Houve também críticas à Paul McCartney, workaholic e perfeccionista, sempre pressionando os amigos por mais e melhor. Houve quem dissesse que foi um conflito de egos, com George Harrison querendo mais espaço. Talvez o único poupado de alguma especulação tenha sido Ringo Starr, mas isso porque o foco estava no rompimento da dupla Lennon-McCartney, autores de muitos de clássicos imortais do rock e da música pop.

As alfinetadas mútuas entre os músicos na década que se seguiu à separação contribuíram para as lendas de brigas nos bastidores, animosidade e preconceitos. Há um rico material de entrevistas, fotos e filmes que os Beatles alimentavam. Até hoje, nenhum que “explicasse” ou “esclarecesse” as questões mais obvias. Os amigos de adolescência, que começaram a tocar juntos com 15 anos, viveram uma pressão de público e vendas mundial jamais vista desde Elvis Presley, chegaram perto dos 30 anos cansados. De si mesmos, do que estavam fazendo, da máquina de negócios que a união deles passou a significar. Já tinham tentado drogas, meditação, arte, filme, documentários… aonde mais poderiam inovar? Pois, mais de 50 anos depois de sua separação, testemunhamos como a mágica nos bastidores acontecia, como a separação aconteceu e mais do que tudo, como os quatro se gostavam.

Peter Jackson, responsável pela trilogia O Senhor dos Anéis, assina o importante documentário The Beatles: Get Back, que registrou a gravação do que viria a ser o último álbum do grupo, Let It Be. Quase um reality (na época, cinema verité), observamos como a dinâmica criativa funcionava. Não havia animosidade entre Paul McCartney e Yoko Ono ou Paul e John Lennon. Havia risos, troca de olhares e muita cumplicidade. Um ambiente familiar onde se respeitavam, se completavam e se divertiam. E onde já estavam se preparando para começar outra fase em suas vidas pessoais. John embarcando no segundo casamento, Paul e Ringo formando famílias, George já se relacionando com Patty Boyd.

São seis horas tiravas de mais de 60 disponíveis, mas com uma narrativa que desmente muitas das “verdades” que foram ditas por meio século. É de tirar o fôlego quando ouvimos as primeiras notas de um clássico nascendo. E, acima de tudo, é a doce e amarga (bittersweet) conclusão de que não havia como ficarem juntos. A vida estava acontecendo com eles, a separação era inerente, como eles mesmos falam com naturalidade entre eles. Sim, há também a sensação de que poderiam ter seguido em frente (afinal, os Rolling Stones estão tocando até hoje!), mas dificilmente a história teria uma conclusão diferente. É triste, é emocionante. E é obrigatório para entender a genialidade e testemunhar os trabalhos de quatro jovens que mudaram a cultura mundial. Na Disney Plus.

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