A ausência de Samantha Jones

Um dos ingredientes da fórmula atemporal e eficiente de Sex and the City foi a de trazer quatro mulheres muito amigas como metáfora do que é ser única, complicada e, claro, ser mulher. Charlotte era a romântica inveterada, sonhando com príncipes e casamento. Miranda era a racional, prática e focada na carreira. Carrie era fashionista, observadora, questionadora e uma mescla das duas. E então, tínhamos Samantha Jones, a mulher mais velha, madura, sexual até o último fio de cabelo, com um ego inflado, mas o coração doce, e uma cabeça definitivamente aberta. Quando Samantha entrava em cena sabíamos que íamos rir, chorar e nos chocar. Ela nunca deixou de surpreender.

Samantha Jones, sem surpresa, rapidamente passou a ser uma personagem com grande espaço e favorita do público, mesmo que – em tempos ainda castos – nunca liderasse a lista do “você é mais qual das quatro?” que todos as fãs já responderam. Isso porque Samantha, segura de si, amava sexo e gostava de se desafiar. Transar com estranhos, mulheres, jovens, velhos… uma das suas frases mais famosas é que não era nem hétero, nem bi, nem pan. “Sou try sexual (soa como tri, mas é o inglês para “tentativa””, disse em um episódio. “Tento de tudo um pouco”, explicou. E isso, antes da virada do milênio. Samantha sim, era a mulher moderna.

Se ainda estamos na parte dos elogios à Samantha, também vale ressaltar que foi ela, no episódio piloto, que muda a coluna de Carrie. Samantha ressalta que o fim dos anos 90 viu as mulheres pela primeira vez (em Nova York pelo menos) chegando a uma equidade com os homens, onde eram independentes financeiramente, abertas sexualmente e donas de si. Como diz, “podemos ter sexo como os homens”, uma frase sexista, porém realista. Porque a sociedade ainda se incomoda com a liberdade sexual feminina e Samantha é seu maior símbolo. Sexo para era é melhor quando casual e como sexo é bom, ela está sempre em busca de novos parceiros. Mas nada de casamento ou monogamia!

Se não bastasse tudo isso, Samantha também foi uma personagem que era defensora da sororidade. Miranda tem o título, mas Samantha era a melhor amiga de todas. Nunca julgando, sempre sendo sincera e frequentemente perdoando. Porque se amava e se entendia tanto que Samantha fraquejou em raros momentos, que falaremos mais tarde. Essa qualidade de amizade que nós mulheres defendemos e vimos nas telas com essas quatro, aparentemente, não existia nos bastidores. E assim chegaremos no reboot, And Just Like That, sem Samantha Jones.

Os dramas dos bastidores invadindo a ficção

A atriz Kim Cattrall foi a escolhida para interpretar Samantha, em um elenco que tinha Sarah Jessica Parker como a absoluta e indiscutível estrela, Kristin Davis vindo do sucesso como vilã sádica de Melrose Place para um papel 180o oposto e Cynthia Nixon, mais atuante no teatro. Kim, que tem carisma, logo se destacou e, segundo descreve, passou a ter problemas por causa de ciúmes de Sarah Jessica. As relações das quatro fora das câmeras era parecida com a da ficção, com exceção à Kim. Ela foi se isolando e quanto mais ganhava elogios e destaque de público, maior a dor de cabeça.

Não demorou para que a imprensa captasse que havia problemas, negados por todas na época. Kim ganhou a fama de difícil, especialmente porque teria passado a querer equiparação salarial e maior espaço em cena, esbarrando com a questão de que essa franquia era de Sarah Jessica Parker, não era a sororidade das personagens. Com as redes sociais e o tempo, foi ficando difícil esconder a crise no elenco, mas a atriz participou dos dois filmes, porque a essa altura, a máxima de “não existe Sex and the City sem Samantha Jones” já era um mantra entre os fãs. E a sinceridade da personagem passou a ser adotada pela atriz.

Em 2004, em uma entrevista, Kim admitiu publicamente que uma das razões para a série acabar foram suas demandas por equidade salarial. “Depois de seis anos eu achei que era hora de participar dos lucros de Sex and the City, mas não pareceram gostar da idéia então achei que era hora de seguir em frente”, disse. Com essa perspectiva, não é tão inocente que Samantha tenha sido “punida” com câncer e quase morta na série na sua etapa final, né?

Embora tenha voltado à franquia para os filmes, Kim e Sarah Jessica já não se falavam mais fora as câmeras e o clima foi pesando. As duas, no entanto, tentaram mudar a narrativa por volta de 2010, refutando as fofocas e ressaltando que havia um sexismo na imprensa, que não abordava clima de bastidores de séries estreladas por homens, se concentrando em desfazer a figura feminina forte. Sarah Jessica, como sempre, usava suas redes sociais para manter as aparências de uma relação afetuosa.

Os posts desandaram, as trocas de farpas e a exclusão de Kim no elenco do reboot

Depois do segundo longa, havia o projeto de um terceiro filme, mas, em 2017, foi oficialmente cancelado. E aqui nasceu o problema atual. Ao serem questionados pela mudança de planos, foi dito em algum momento que a razão estava no veto de Kim Catrrall. Alguns artigos alegavam que as negociações financeiras não a agradaram e ela se recusou a voltar. De novo, “sem Samantha Jones…”

A atriz, com razão, não gostou quando levou a culpa pela decisão. A essa altura, não havia mais como tirar dela o carimbo de “difícil”, mas ela foi às redes sociais dar a sua versão. Segundo ela, nunca houve exigências de sua parte que não fosse a de “não fazer outro filme”.

Uma vez nas redes, as outras também deram sua versão. Sarah Jessica falou em uma entrevista que estava desapontada com o fim do projeto, algo que Kristin Davis compartilhou.

Kim Cattrall permaneceu irredutível. Em uma entrevista, em 2017, admitiu que a toxidade dos bastidores a influenciaram a desistir da personagem. “Parte de chegar aos 60 anos é ter um momento de avaliar quantas lágrimas ainda tenho e quero mesmo fazer isso? Acho que a série foi a melhor e teve dois filmes como bônus”, declarou, emendando “Não é sobre dinheiro ou ter mais cenas. É uma decisão empoderada de terminar um capítulo em minha vida e começar outro”. Provocada sobre sua relação com o elenco e a estrela da série, Kim foi direta. “Nunca fomos amigas”. E se queixou da forma com que divulgaram o fim do projeto do filme, “ela poderia ter sido mais legal [sem colocar a culpa em Kim]”.

E veio a gota d’água. Quando o irmão de Kim foi encontrado morto, a atriz fez um post em sua homenagem e Sarah Jessica, em uma resposta hoje apagada, teria manifestado suas condolências. Kim não aceitou.

A resposta da atriz, chamando a colega de hipócrita, acabou com qualquer dúvida da relação entre elas.

A partir daí, as duas passaram a não mais querer estender sobre o drama. Kim, em 2019, diz não ter se arrependido de ser sincera. Dois anos depois, com o anúncio da continuação da série, sem Samantha, os fãs ainda se perguntam como vai ficar. “Nós sentiremos a falta dela, Samantha não fará parte dessa história mas sempre será uma parte de nós. Temos novas histórias para contar”, resumiu.

Rumores de morte e de brigas, veremos como vão tratar a saída de Samantha

No trailer da série que estréia dia 9, não há nem menção do destino de Samantha. Ao final da série, ela tinha deixado Nova York por Los Angeles, mas no final do segundo filme, já estava querendo sair da capital do cinema. Onde estará Samantha Jones?

Bom, o medo dos fãs, ao ver que houve uma cena de funeral, é o de que tenham matado a personagem, afinal ela tinha encarado um câncer muito agressivo há alguns anos. Porém os maiores rumores relatam que a decisão da equipe foi a de trazer a verdade para a ficção. Isso mesmo, segundo consta, Carrie Bradshaw e Samantha Jones terão brigado feio e a assessora de imprensa, para nem esbarrar com o desafeto, se mudou para Londres. Durante a temporada, Carrie vai reavaliar a relação das duas, chegando ao final com um pedido de desculpas e abrindo a porta para a volta de Samantha na segunda temporada de And Just Like That. Será que vai funcionar?

Durante as gravações, Kim Cattrall pareceu dar uma cutucada nas ex-colegas, postando uma noite ao lado da figurinista Patricia Field, também fora do reboot (mas porque está trabalhando em Emily in Paris).

Para mim vai ser curioso ver que briga terá feito Samantha, que perdoou Carrie, Charlotte ou Miranda por a julgarem inúmeras vezes, nunca em nenhum episódio faltando em apoio integral a todas elas, ter algo que a faça parar de falar com elas e inclusive se mudar de país. Porque a sexualidade obsessiva da personagem realmente constrangia em alguns momentos, mas Samantha era a melhor amiga que todas sonhamos em ter. Não tinha tempo ruim para ela, não tinha uma discussão que não pudesse perdoar. Aí estará um grande desafio para And Just Like That e será uma das questões a ser endereçada e explicada logo de cara. Espera-se.

E será que Samantha volta? É a esperança de todos, mesmo antes da série recomeçar…

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