Being the Ricardos: os bastidores de I Love Lucy

Para estrangeiros e especialmente gerações mais novas, a importância de I Love Lucy, um dos maiores sucessos da televisão americana, pode não ter um grande peso, mas, para Hollywood, é até hoje referência obrigatória. Estrelado por Lucille Ball e seu marido, Desi Arnaz, o programa foi um marco da cultura mundial, hoje datado, mas ainda exemplo da veia cômica da atriz, que virou uma lenda.

Como acontece com frequência, a imagem das telas é bem diferente da realidade e Lucille, ou Lucy, criou uma persona simpática e atrapalhada que era o oposto de seu temperamento forte, decidido, desbocado e corajoso. Se Lucy era um doce, Lucille era temida.

Porém, para os fãs a ficcção era tida como realidade e está aí a força do filme Being the Ricardos, que traz Nicole Kidman como Lucille e Javier Bardem como Desi, em um filme que fala dos bastidores da produção e se concentra em apresentar a verdadeira Lucille Ball. Eu tinha tanta esperança, mas o filme desafina, embora seja ainda um conteúdo que vale a pena conferir.

Nicole Kidman é sem dúvida uma das grandes atrizes de sua geração, destemida, premiada e talentosa. Testou sua versatilidade com comédias, musicais, dramas, suspense, ação… Consegue ser Virginia Wolff e Grace Kelly, ou até a jornalista Martha Gellhorn, portanto eu fui defensora de sua escolha para fazer Lucille. Posso ter me enganado.

A família da lendária comediante enalteceu a escolha e atuação da australiana, mas é um resumo do Being the Ricardos falha. Se não é para ser uma biopic preocupada com detalhes – que incluem transformar os atores nos biografados – então não precisava ser uma biopic. Em alguns momentos tentam fazer Nicole se parecer com Lucille, mas fica bizarro e quase incômodo pois parece que desistiram da maquiagem no meio do caminho. Nicole é perfeita para revelar o lado antipático da estrela, que poucos conheciam, mas não tem veia cômica suficiente para se transformar na divertida Lucy. Quem não viu o original não pesca o brilhantismo e quem viu, bom, a comparação é cruel.

Aaron Sorkin vem fazendo sua transição de séries para filmes, conseguiu indicações ao Oscar pelo Os 7 de Chicago, mas há aqui o gap que vou discutir em breve: os filmes feitos para a TV/plataforma, são mesmo “cinema”?

A fórmula de Being the Ricardos funciona maravilhosamente como um filme de TV, mas não é “cinema”. A falha está no roteiro, que pretende ser um documentário e só fica ainda mais confuso por contar com atores diferentes como mais velhos do que os jovens que vemos na trama. Além disso, joga todas as polêmicas das vidas pessoais do casal – infidelidade, machismo, competição, inveja, liderança, sexualidade, vício em jogos – em uma única semana. A gente se pergunta como I Love Lucy realmente chegava ao ar com um ambiente tão tóxico e confuso como o que era.

Talvez, o outro desafino de Being the Ricardos esteja na figura de Javier Bardem, outro grande ator. Seu sotaque pesado poderia passar como o de cubano, mas é duro ouvi-lo se esforçar. Seu espanhol puro não consegue ter o cantado cubano, como não tinha como se fez passar como brasileiro falando português. Além disso, não se parece com Desi e mesmo nas passagens de tempo, nem ele nem Lucille envelhecem uma ruga.

Não gosto de falar mal de conteúdos, sempre gosto de levantar as qualidades porque acredito que todos tenham suas opiniões. Talvez não fosse a forçada campanha por colocar a produção no Oscar eu conseguisse relevar muita coisa. Emmys? Também com poucas chances, mas mais coerente. Não é nem filme nem atuações dignas de Oscar, mas é um filme interessante sobre os bastidores de um dos maiores sitcoms já feitos, onde a precisão dos detalhes é o segredo do sucesso. Por outro lado, as atuações de Nicole e Javier têm sido enaltecidas pelos críticos americanos. Eu raramente discordo de unanimidade, mas, nesse caso, tenho realmente a percepção contrária.

Há uma cena em que Lucille briga com os showrunners e o diretor pela falsidade de uma situação. Em um episódio dos mais famosos, Desi entrava em casa e Lucy teria que não apenas não perceber como não saber quem era. Lucille é contra a falsidade da piada, e passa o filme brigando contra ela. Ela quer que respeitem a inteligência da platéia, mas os autores acham que a platéia quer rir e se deixará levar pelo absurdo da situação. É, para mim, o grande resumo de Being the Ricardos. Lucille acabou concedendo, a cena ficou famosa. Infelizmente suspeito que não será o caso do filme…

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