After Life e o luto dos céticos

Os temas sobre perda e luto têm sido frequentes nas narrativas de séries, especialmente voltadas para o público maduro. Falei um pouco sobre isso em And Just Like That e The Great, duas séries que seriam cômicas e que abordam sobre a perda definitiva via morte de uma pessoa amada. Catarina, a Grande e Carrie Bradshaw estão lidando com as fases desse dolorido momento, passando pela fase da força para seguir em frente.

After Life, que chega à 3ª e final temporada com um sempre preciso Ricky Gervais lidando exatamente com o mesmo dilema: como lidar com o luto?

Nenhuma das séries (Catarina nem poderia) endereçam a pandemia da Covid-19. As personagens estão em universos paralelos onde tudo já foi resolvido ou sequer existiu (como em After Life).

Para lembrar, nós estamos acompanhando a história do jornalista Tony, viúvo e depressivo e que não para de contemplar a próxima vez que vai tentar tirar a própria vida. As circunstâncias e pessoas ao seu redor acabam “atrasando” o projeto, ao ponto que é inclusive -aparentemente – aposentado.

Apesar do tema, há momentos de risadas para equilibrar as lágrimas. Tony é obcecado pela mulher, que faleceu por causa de um câncer, e ignora as mensagens que ela deixou implorando que reencontrasse o amor pela vida após sua partida. Tony é grosso, é indiferente e não entende nada além de sua dor. Mas aos poucos vai criando novos amigos e, na 2ª temporada, até considera a possiblidade de se apaixonar de novo.

SPOILER.



Estamos na estaca zero novamente. Nada de romance, um pouco mais de paciência sim, mas ainda contemplando o fim. Como criador de The Office, Gervais traz de novo a circunstância do absurdo do cotidiano de uma redação sem graça, sem ambição ou personalidade. Crente e avesso à qualquer religião ou explicação fora de pura lógica, ele se desafia em encontrar e repassar positividade. Aliás, esse tema tem sido frequente em suas obras, não apenas em After Life.

Através de Tony, Gervais ridiculariza qualquer tentativa de encontrar apoio psicológico em uma vida pós morte, em almas ou um lugar melhor. Ele quer acreditar, mas eu diria até que se esforça, mas prefere se ater ao vazio existencial de uma vida que quando acaba, acaba.

No Brasil, a série ganhou um subtítulo que suspeito que o irritaria – After Life – Vocês vão ter de me engolir – porque ele não apenas não reflete o tema central, como perde a ironia que o autor quis fazer com o jogo de palavras. After (Pós/Depois) Life (Vida) ou AfterLife como o “Além”. É o que ele brinca a tal ponto que não conseguimos evitar as lágrimas, seja por esperança ou ao contrário.

Infelizmente a conclusão poderia ter ficado na temporada anterior, o avanço aqui foi mais para amarrar as pontas ao redor de Tony e foi corrido e forçado. Não passou empatia. A personagem não se convenceu em seguir em frente, sem manteve fixado e obcecado de que não há vida sem sua esposa. Nos deixa com o vazio e com a clássica Both Sides Now, de Toni Mitchel. Esperava mais, mas chorei bastante. Aguardando o próximo projeto.

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