A dor de Pamela Anderson: Pam e Tommy

Amigos da atriz Pamela Anderson estão se colocando contra a série Pam e Tommy, por reviver a dolorosa história que marcou para sempre a vida da estrela. Não estão errados. A série não refaz as cenas da fita (apenas induz algumas) mas a imaginação vai longe, assim como cresce a audiência e os click baits. É o paradoxo de lidar com a dor alheia e a necessidade de um exemplo para explicar ao mundo tóxico masculino como é e era ser uma mulher em meio a tudo isso. Essa narrativa é a parte mais interessante da série.

Tommy Lee e Pamela Anderson eram grandes estrelas, apaixonados e inconsequentes quando filmaram sua lua-de-mel. O furto da fita os colocou sob os holofotes insensíveis do consumo: os fãs de pornografia, os executivos querendo lucro, os apresentadores e jornalistas querendo audiência e atenção. O casal não teve a menor chance de escolha.

O primeiro ataque é de que “se não queriam que vazasse que não tivessem filmado”, algo que mais de 25 anos depois seguimos ouvindo sobre nudes e outras situações comprometedoras com estrelas. Basicamente a destruição da imagem de Pamela (não de Tommy) foi em cima desse argumento.

A série não chegou ainda, mas hoje, em consequência da “fita”, há quem ataque Paris Hilton e Kim Kardashian por terem “usufruído de fama semelhante” para construir impérios de mídia. O fato é que hoje poucos lembram da fita de Kim ou sequer mencionam Paris, mas ninguém esqueceu de Pamela Anderson. Em determinado momento da série a atriz diz que se sente violada e sim, foi um estupro. Não precisa ser físico para que cause dor, imponha vergonha e traumatize a vítima.

O roteiro da série pretende nos dar uma nova visão sobre o caso, ressaltando a solidão de Pamela Anderson no meio de tudo, sem esquecer o lado de Tommy Lee. Mas isso cria uma armadilha. Estamos acompanhando o que aconteceu. Pamela sempre pressionou pelas atitudes “certas como buscar a fita com urgência, recuperá-la antes de ser copiada, não provocar briga com as revistas que conseguiram as imagens… mas nunca é ouvida por nenhum dos homens, que querem brigar (mas assistem ao conteúdo sem a menor culpa ou constrangimento). Afinal, ela é mulher e “não sabe das coisas do mundo masculino”. Nem mesmo ter avisado ao marido que a dor dos dois seria diferente, com ela sendo a única marcada foi levado à sério por ele.

Tommy, por sua vez, envolto à sua decadência e narcisismo, até tem empatia e se importa com a mulher, mas não entende o que está acontecendo. De certa forma, tentar redimir a figura do músico que mais tarde se separa de Pam, não antes de agredi-la fisicamente (enquanto estava com o filho no colo), é questionável se queremos dar luz à luta individual de Pamela, que é o que parece ser a intenção. A simpatia que o ator Sebastian Stan imprime em Tommy Lee faz sentido quando os autores estão se propondo a revisitar a história “em defesa do casal”, mas, no fundo, é o que Pamela Anderson se queixa hoje mais uma vez sem ser ouvida. Com Pam e Tommy estão reacendendo a chama e mexendo na ferida do trauma e é ela a julgada.

Me sinto culpada de toda semana assistir e falar da série, que está ótima com uma excelente Lily James no papel da atriz. Porém o episódio 5, com Pamela completamente isolada e tratada por Tommy como “histérica e exigente”, ressalta o paradoxo da história. É importante que os homens entendam essa dor e que Pamela Anderson não poderia ter sido (e ainda ser) condenada por sua intimidade. A mensagem de Pam e Tommy tem relevância. O nosso dilema é entender e rever o drama de Pam, mas ter respeito e consciência da dor que ainda causa.

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