Quem foi Billy, the Kid

Michael Hirst é um senhor showrunner. The Tudors e Vikings são apenas duas séries históricas de grande sucesso que saíram de sua curiosidade e imaginação. Claro que recontar História em uma série dramática demanda “adaptações” e algumas liberdades, sendo que em Vikings ele as tomou com maior frequência, mas com eficiência e precisão. Funcionou perfeitamente e com isso ganhamos personagens inesquecíveis como Ragnar Lothbrok, Lagherta, Bjorn Ironside e Ivar, the Boneless, entre outros. Vikings: Valhalla tem sua consultoria e traz algumas personagens conhecidas, como o The Seer, porém o texto sente falta das palavras bem colocadas de Hirst. A razão para sua ausência é sua dedicação à nova série, Billy, The Kid, que depois de uma pré estréia em Cannes, foi lançada nos Estados Unidos essa semana.

Billy é até hoje uma lenda na cultura americana. Nascido em Nova York como Henry McCarty há mais de 160 anos, depois ele passou a usar o nome de William H. Bonney Jr. e é considerado um dos mais notórios pistoleiros do oeste americano, sendo alegado como responsável por pelo menos 27 assassinatos antes de ter completado 21 anos. Rápido no gatilho, complexo e lendário, Billy era uma personagem irresistível para Michael Hirst, que tem a tendência de trazer empatia para seus complicados heróis. Por isso vale colocar em mente alguns fatos que devem fazer parte da série.


Sua juventude, que será o coração da primeira temporada, é menos conhecida. O que se sabe é que, como filho de imigrantes irlandeses, nasceu nas favelas de Nova York por volta de 1859 ou 1860. Seu pai, William Henry McCarty, dirigia carros de cerveja por Manhattan, mas um dia, em 1862, decidiu se mudar para o oeste (Coffeyville, Kansas), com sua esposa, Catherine McCarty, e seus dois filhos, Henry (Billy) e Joseph.

Porém, mal chegou no Kansas, o pai de Billy morreu de pneumonia e sua mãe se juntou a um homem chamado Bill Antrim. Depois de ser diagnosticada com tuberculose, Catherine e seu novo namorado viajaram com a família para o Novo México em busca de um clima mais seco e ensolarado que seria benéfico para sua saúde. Casada com Antrim a partir de 1873, a família se estabeleceu em Silver City, onde Billy passaria o resto de sua infância. Como o padrastro era alcóolatra e não gostava de trabalhar, Catherine precisou trabalhar arduamente para sustentar seus filhos, mas a saúde frágil piorou tudo. Em menos de um ano, ela morreu, marcando a vida de Billy para sempre, com apenas 14 anos na época.

Enquanto sua mãe vivia, Billy era um jovem comum, honesto e trabalhador, com 1,75 metro de altura, cabelos loiros, olhos azuis e enormes dentes da frente, parecendo mais um camponês irlandês do que um durão. Sua imaginação, no entanto, era dedicada à leitura frequente de romances de aventura, com bandidos e pistoleiros. Fez amizade com o jovem George Schaefer, apelidado de “Hat Jack”, que o levou para uma vida de golpes e problemas com a Justiça.

Em abril de 1875 Billy é preso pela primeira vez, acusado de roubar alguns queijos na companhia de seu amigo “Hat Jack”. Em setembro do mesmo ano, ele foi novamente preso por roubar roupas e um revólver numa lavanderia chinesa (Billy queria ter roupas decentes e uma arma para ter um status social melhor). Dois dias depois, ele escapou da prisão rastejando pela lareira. Uma vez fugitivo oficial, foi para o Arizona.

Fazendo bicos em fazendas, também fez nome como grande jogador de cartas. Quando se associou ao escocês John R. Mackie, passou a participar de crimes mais perigodos. Já com o nome falso de William, Billy era conhecido como “Kid Antrim”, apelido dado a ele pelos soldados do Fort Grant (que o perseguiam), por causa de sua juventude e aparência frágil. Mesmo quando pego, conseguia escapar.

Aprendeu a atirar com rifles e revolveres, e, aos 17, matou o primeiro homem durante uma discussão em um saloon no Arizona. Sua vítima foi o ferreiro do Fort Grant, um imigrante irlandês chamado Frank “Windy” Cahill, que era o típico valentão da cidade que gostava de irritar os fracos, especialmente o franzino Billy. Cansado do bullying, o pistoleiro teria xingado Cahill e a briga escalou para os dois sacando os revólveres, mas com Billy sendo mais rápido. Atirou primeiro, ferindo Cahill no estômago, que morreu no dia seguinte e forçou uma nova fuga do jovem. Como foi em autodefesa, Billy só queria escapar da vingaça de parentes do adversário.

No Novo México, se juntou a um dos grupos mais famosos de ladrões de gado e assassinos da área, liderados por Jesse Evans e conhecidos como “The Boys” (os meninos). Foi aqui que Billy adotou o nome de “William H. Bonney” e passou a ser chamado de Billy the Kid. O bando, liderado por Jesse Evans, roubava gado e cavalos, mas chamaram a atenção da lei, se mudaram para o condado de Lincoln, onde Billy alcançaria sua maior fama.

Em Lincoln, o grupo se uniu a “Murphy & Dolan Corporation”, uma empresa de fachada liderada pelo irlandês James Dolan, parceiro de Lawrence Murphy, que detinham o monopólio de gado da região. Na verdade, Dolan e Murphy lideravam a gangue conhecida como “A Casa” e tinham o apoio do xerife do condado e das autoridades de Santa Fé para resolver problemas legais. O bando de Jesse Evans trabalhava para intimidar os concorrentes, em especial, o jovem inglês John Tunstall, que se recusava a ceder.

Essa rivalidade de negócios ganhou uma virada sangrenta quando Tunstall precisou recrutar Kid e vários outros pistoleiros para proteger sua propriedade. John Tunstall era inovador, sofisticado e era um raro homem honesto em um país dominado pela corrupção. Sua rápida ascensão nos negócios ameaçava A Casa, e Dolan decidiu agir sujo. Conseguiu que as autoridades prendessem o sócio de Tunstall por peculato e evasão fiscal, ao mesmo tempo que o bando de Jesse Evans e Billy roubariam seus cavalos de Tunstall. O inglês foi à imprensa expôr a situação, revelando a atitude corrupta do xerife William Brady.

Paralelamente, um importante racha também ocorria dentro do bando de Evans. Billy e Jesse já não foi se entendiam, e o pistoleiro desgostava ainda mais de outro membro do bando, Bill Morton (não ajudou que Billy tenha dormido com a namorada do inimigo). Além disso, Billy ficou amigo de fazendeiros locais, como os primos Frank Coe e George Coe, com quem ele trabalhava às vezes deixando o bando de lado. Por isso, Tunstall percebeu que havia uma oportunidade e quando Billy foi preso por roubar cavalos, em vez de apresentar queixa, ele lhe ofereceu uma posição em seu rancho. Billy aceitou a generosa oferta e tornou-se parte dos guardiões do rancho Tunstall, o que para ele, aos 18 anos, era um novo começo. Não durou muito.

Cansado de perder dinheiro para Tunstall , Dolan decidiu acabar de uma vez por todas com a história e para isso ordenou o xerife a tomar posse fazenda do opositor como parte de danos civis. Ao tentar resistir, o inglês fugiu com seus nove melhores garanhões mas foi cercado e morto à queima-roupa com um tiro no peito. A gangue “forjou” a cena para dar a entender que haviam agido em legítima defesa, colocando um revólver na mão de Tunstall. Os guardiões de Tunstall, chocados com a sua morte, decidiram se vingar. Billy, em especial, ficou transtornado.

No dia seguinte ao assassinato, amigos do inglês foram ao Ministério da Paz em Lincoln para exigir justiça e conseguiram mandados de prisão contra os assassinos de Tunstall. Nesse momento, Billy, era um dos “delegados” e o grupo assumiu o nome de “Os Reguladores”, liderados por Dick Brewer. A sangrenta perseguição foi aumentando o número de vítimas no conflito. O ápice foi em julho de 1878, quando passaram 5 dias trocando tiros no que os jornais chamaram de “Guerra do Condado de Lincoln”, com A Casa ganhando o apoio do Exército dos Estados Unidos contra os Reguladores, que conseguiram escapar mesmo com menos recursos. Porém, A Casa ganhou, com o assassinato do sócio de Tunstall no tiriteio. De delegados os Reguladores viraram foras-da-lei. Famosos em todo país.

Em fevereiro de 1879, o governador Lee Wallace decou anistia para os participantes da “Guerra do Condado de Lincoln”, e Billy decidiu aceitar e voltar com seu inseparável amigo Tom O’Folliard para Lincoln, fazendo as pazes com Dolan e seu ex-amigo Jesse Evans, com um comum acordo de “não-agressão”, algo que não durou nem dias. Após uma bebedeira e confusão num bar envolvendo Dolan,  Billy e seu amigo Tom O’Folliard não tiveram escolha senão intervir e na confusão, um assassinato foi atribuído a Billy (que não foi verdade), o colocando mais uma vez como foragido.

O pistoleiro escreveu uma carta ao governador mantendo sua inocência e prometendo testemunhar contra os verdadeiros assassinos em troca de um perdão oficial. Com a proposta aceita, Billy e Tom se entregaram e revelaram os detalhes de crimes cometidos nos últimos tempos pelos homens Dolan, além do novo bando de ladrões chamado “The Rustlers”, dirigido por John Selman. Tom conseguiu o perdão, mas Billy foi traído pelo governador, que o manteve preso. Ou tentar, porque mais uma vez Billy escapou e foi para Fort Summer, onde reencontrou seus velhos amigos Charlie Bowdre e Doc Scurlock. Conhecido por ser descontraído, Billy era implacável e rápido no gatilho quando provocado. O que aconteceu pelo menos nove vezes em um período de quatro anos, entre 1877 e 1881, quando o fora-da-lei foi acusado de ser responsável pela morte de nove homens. Quatro deles, teria matado sozinho. O mais lendário desses assassinatos teria acontecido em janeiro de 1880, em um salão do Novo México, quando um bêbado chamado Joe Grant estava aterrorizando os clientes do bar e ameaçando matar alguém antes que a noite terminasse. Sentindo problemas, Kid aproximou-se casualmente de Grant e comentou: “Esse é um belo revólver de seis tiros que você tem”. Ele então tirou a arma de Grant do coldre, girou seu cilindro para que seu próximo tiro fosse uma câmara vazia e a devolveu. Provou ser uma jogada sábia. Mais tarde naquela noite, Grant apontou a mesma pistola para Kid e tentou atirar nas costas dele. Quando não disparou, o Kid sacou sua própria arma e matou Grant. Mais um caso de legítima defesa.

Enquanto isso, em Lincoln, um amigo de longa data de Billy, Pat Garrett, é escolhido como novo xerife do condado. Sua primeira missão era capturar o pistoleiro e Garrett sabia onde encontrá-lo. Ao cercar o rancho onde estava Billy e seus amigos, os homens de Garrett atiraram no homem que avançava à frente do grupo, achando que era o foragido, mas acertaram Tom O’Folliard. A morte de seu melhor amigo foi um duro golpe e desde então não seria o mesmo.

A perseguição continuou, com Garrett um passo à frente dos planos de Billy, que foi preso e julgado em Santa Fé por vários crimes, antes de ser trasnferido para Lincoln onde teria mais acusações. Uma vez lá, que surpresa, fugiu novamente. Só que mais uma vez Garrett o “leu” melhor, sabendo onde encontrar Billy the Kid. Ele estava na casa de sua namorada, Paulita Maxwell e, no dia 14 de julho de 1881, Garrett entrou na casa da garota de Billy à noite, quando o pistoleiro tinha saído. Garrett decidiu esperar por ele dentro do quarto. Quando Billy entrou na casa, estava escuro e ao entrar no quarto e ao ver um homem nas sombras perguntou em espanhol: “Quem é? “Garrett respondeu com dois tiros de revólver, um dos quais atingiu-o no coração e o matou na hora. Billy the Kid estava desarmado e não teve oportunidade de se defender. Tinha apenas 20 anos.

Assim nasceu a lenda, que ganhou fôlego com o livro do próprio Pat Garrett, “A verdadeira vida de Billy the Kid“. Garrett, assim como Robert Ford, que matou Jesse James, passou a ser odiado pelo público, especialmente pela maneira covarde com a qual conseguiu eliminar o amigo. Foi morto por um homem chamado Jesse Wayne, em 1908, com alguns historiadores creditando a vingança ao era o amigo-rival Billy, Jesse Evans.

Embora sua fama tenha sido de assaltante de bancos e trens, como Jesse James, Cole Younger ou Butch Cassidy, Billy the Kid – segundo historiadores – não ganhou sua vida como bandido. Sua vida violenta era consequência da corrupção vigente da época. Há muitos que acreditam que a “morte” de Billy tenha sido forjada por Garrett, que o teria libertado em nome da amizade dos dois. Esta teoria ganhou força pelo testemunho de Jesse Evans, desaparecido desde 1882, que reapareceu em 1948 afirmando que os bandidos envolvidos na Guerra de Lincoln, Jim McDaniels e Billy the Kid, se esconderam. Billy teria vivido com o nome de Ollie P. Roberts morado no Texas. Os historiadores não acreditavam nessa história e nem a investigavam seriamente, deixando a sombra da dúvida até hoje.

A ver a escolha de Michael Hirst para essa fascinante história! Com muito menos informação disponível ele nos deu uma maravilhosa saga Viking com Ragnar e seus filhos, como será com esse grau de informação? Tom Blyth tem tudo para brilhar como Billy.

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