Barry: vilão ou vilão-mocinho?

Barry é uma série merecidamente premiada sobre uma personagem tão trágica como Tony Soprano. Criada e estrelada por Bill Hader, nos apresentando o sociopata Barry Berkman de forma trágica e – ainda assim – cômica, Barry tem a frase perfeita para nos lembrar a jornada desse anti-herói: “você não consegue enterrar seu passado“.

Barry Berkman é um vilão, não podemos esquecer desse fato. Mercenário e exímio assassino profissional, ele é naturalmente complexo e porque Bill Hader brilhantemente nos mostra em seus olhares atônitos o quanto a vida desse ex-soldado é trágica, nos simpatizamos com ele. No entanto, Barry é um assumido psicopata que tenta sobreviver tortuosamente em uma moral estranha, que o mantém em um universo de crimes, mesmo querendo deixá-lo.

Assim como Cassie em The Flight Attendant, Barry parece atrair as pessoas que o mantém na sociopatia. Nenhuma das pessoas em seu círculo mais próximo é íntegra ou centrada. Nenhuma. E absolutamente todas, sem exceção, o usam como um robô para seus fins, só se voltando contra ele quando interessa. Diante dessa crueldade entre cruéis, chegamos a questionar se Barry é o mocinho da história, mas como defender suas ações?

Dessa forma, ele se destaca no clube dos “vilões-mocinhos”, os anti-heróis que fazem do conteúdo não-cinematográfico (é estranho dizer TV quando o meio agora é outro) tão fascinante. O destino de Barry, porque a série é uma comédia dramática, pode salvá-lo em uma grande reviravolta, mas por hora se encaminha em uma direção trágica. Ele merece pagar pelo que faz, mas não sozinho.

O maior antagonista de Barry, desde o início, é o vilão sem nenhuma dúvida, Monroe Fuches (Stephen Root) que está em uma vendetta pessoal com seu ex-parceiro, tão cruel quanto desnecessária. Para Fuches, a tentativa de Barry de mudar como pessoa é ofensiva em todos os sentidos, do financeiro ao expor sua própria sociopatia e maldade, que tinha um canal perfeito ao manipular o jovem que o tinha como figura paterna. Por isso está encaminhando todas as vítimas do passado de Barry, assim como fazia com o ex-marine, para usá-las no que acham ser vingança e correto, mas estão apenas fazendo o trabalho que ele mesmo é incompetente para realizar. Fuches é odiável e Stephen Root está maravilhoso no papel.

Sally Reed (Sarah Goldberg) sofre de um narcissismo tão elevado que apenas em Hollywood consegue sobreviver. Sua relação com Barry poderia levá-lo para um lugar melhor, com uma relação de amor e confiança, mas ela é tão ferrada quanto ele. Ou mais. Também dependente de relações abusivas, ela “entende” o namorado, mas sua obsessão pelo sucesso é tão maior que convenientemente o manteve por perto, inclusive guardando seus segredos e não se importando, desde que ele servisse para ela. Agora que chegou onde queria, confrontada por sua hiprocrisia, vemos mais uma ver rompendo com Barry. No entanto, é o endereço dela que as vítimas do assassino têm como o dele, portanto ao terminar a relação, Sally caminha para um possível final trágico.

Assim restam duas outras pessoas detestáveis, mas que nós achamos simpáticas, com uma verdadeira relação com Barry, Gene Cousineau (Henry Wrinkler) e o hilário NoHo Hank (Anthony Carrigan). São esses dois que “entendem” Barry, sendo que Cousineau inadvertidamente o “tirou do crime” – dessa forma desencadeando as consequências do passado de Barry – e NoHo tortuosamente tem uma amizade sincera com ele, alternando ressentimento e amor. Minha suspeita é que a virada e salvação de Barry esteja em uma combinação das relações com esses dois.

Henry Wrinkler, que também venceu o Emmy com sua atuação brilhante como Cousineau, é um homem mal-caráter e insuportável, cujo passado de maus tratos o isolou em um papel menor na indústria, ensinando a novatos. Sem querer, ele identifica em Barry o elemento mais comum da sociedade hoje em dia: ignorar a verdade que nos dizem para projetar uma persona que “vende” e é admirada. A série só tem narciso, portanto quando na primeira temporada o professor não ouviu a confissão de Barry, acabou criando um novo monstro. Barry é tido como grande ator e quer mudar de vida. No entanto, precisando “apagar suas pegadas”, mata o amor da vida do mentor, ameaça sua família e o mantém refém. Claro que foi Fuches que piorou tudo ao contar a verdade para Cousineau, mas Barry realmente gosta e é grato a ele. O vemos agora com uma nova carreira “graças” ao assassino e resta a adivinhar se será uma pessoa do bem, se voltando contra Barry pelos meios corretos (o entregando para a polícia) ou se vai apreciar a nova chance na carreira e ignorar a verdade. A rendenção de Barry ainda vai passar por Cousineau.

E NoHo Hank? Nosso criminoso favorito, inconsequente e hilário, mas com um “bom coração”, dentro que é possível em um universo criminoso, claro. Sua instável amizade com Barry está em uma nova etapa e essa parece ter um potencial interessante. NoHo usa Barry assim como Fuches, mas agora que encontrou o amor verdadeiro com Cristobal Sifuentes (Michael Irby), o checheno ficou genuinamente grato a Barry por o ter salvado da máfia boliviana. Apenas NoHo pode efetivamente ajudar a Barry na armadilha criada por Fuches e tem a motivação para isso.

Com tantas crueldades e confusões, será difícil para Barry sobreviver, mas a terceira temporada promete. Está incrível e Barry já é um dos mais clássicos anti-heróis da ficção. Temos pena dele e torcemos por ele. Um verdadeiro Tony Soprano atualizado. Demais.

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