Odette e Odile: a duplicidade feminina no ballet

O balé O Lago dos Cisnes é inspirado em uma lenda alemã sobre uma jovem princesa, Odette e suas acompanhantes estão sob o feitiço de um feiticeiro malvado, Von Rothbart, que as transformou em cisnes durante o dia. À noite, eles recuperam suas formas humanas e só podem ser resgatadas se um jovem jurar amor eterno e fidelidade à princesa. Quando o príncipe Siegfried jura seu amor por Odette, o feitiço pode ser quebrado, mas Siegfried é enganado e declara seu amor pela filha de Von Rothbart, Odile, disfarçada por magia como Odette, e tudo parece perdido. Mas o feitiço é finalmente quebrado quando Siegfried e Odette se afogam em um lago de lágrimas, unindo-os na morte por toda a eternidade.

O balé proporcionaria a possibilidade de um “duelo” artístico de duas grandes bailarinas, mas a tradição que surgiu após a fracassada estreia de 1877, rendeu à uma única a chance de interpretar na mesma noite personalidades opostas, contribuindo com um elemento psicológico tão desafiador como os passos de Marius Petipa e Lev Ivanov. Desde 1895, interpretar Odette-Odile é o rito de passagem para bailarinas que querem ser estrelas. Como o The New York Times perfeitamente colocou em um artigo de 2018, Odette é virtuosa e injustiçada e sua inimiga é justamente a filha do bruxo que aprisionou, Odile. “O balé é um primo distante daqueles filmes femininos de meados do século 20, em que Bette Davis ou Greer Garson interpretam duas mulheres com aparência idêntica, mas modos opostos”, diz a matéria.

Sem surpresa Hollywood levou essa história para as telas em 2010, com o filme Cisne Negro, que rendeu o Oscar a Natalie Portman. No filme, a personagem de Natalie entra em um espiral destrutivo para lidar com as personalidades opostas.

As diferenças entre as personagens rende estudos profundos sobre a complexidade da natureza feminina, vista em um ideal casto, preso em uma magia enquanto quando assume o lado sedutor, é sua versão destruidora. Um dos aspectos acertados da versão de 1895, ao dar o papel duplo para a estrela, foi a de trazer a complexidade à obra. Siegfried, que vive uma crise pessoal de estar sendo forçado a se casar, é atraído pela trágica semelhança física e distância psicológica de Odette e Odile. Odette que era presa e obediente a Von Rothbart, acaba por recuperar sua voz, mesmo que sua alternativa para a liberdade seja o suicídio.

A dualidade das personagens também passou a ser conhecido pela cor. Odette sempre foi um cisne branco, até porque nos balés românticos era importante ter pelo menos um “ato branco”, fossem fadas, fantasmas ou cisnes. Odile ia para o baile de cores fortes, mas, desde os anos 1940s, passou a ser retratada com a versão da roupa da rival em preto. E o que parte o coração da heroína é porque Siegrfried pode ter sido enganado com a semelhança do rosto, mas se envolve com Odile porque se ela parece disponível, convidativa, exatamente e extrovertida. O oposto de Odette.

A longevidade do favoritismo dos bailarinos e do público por O Lago dos Cisnes tem algumas explicações, de uma música emocionalmente profunda e inspirada, assinada por Tchaikovsky, a coreografia precisa de Petipa-Ivanov, magia e drama. “A música fala por si”, diz uma das interpretes mais respeitadas do papel no momento, a bailarina Irina Kolesnikova. “O Lago dos Cisnes está no sangue do balé russo”, opina.

O drama de achar a bailarina ideal para o desafio duplo, como é mostrado no filme Cisne Negro, parece vir da raiz. Desde sua primeira produção, há 145 anos, foi problemático. Anna Sobeschanskaya era parater dançado na estreia, em 1877, mas um escândalo pessoal a tirou dos palcos. Foi substituída por Pelageya Karpakova, que não foi brilhante. Quando finalmente dançou O Lago dos Cisnes, queria algo exclusivo e ganhou um pas de deux que apenas ela dançou. A música desse trecho ficou perdida por décadas, até ser reencontrada nos anos 1950s. Os famosos 32 fouettes foram apresentados por Pierina Legnani, mas eternizados por Matilda Kschessinskaya.

Dentre as mais famosas a dançarem Odette-Odile estão, Margot Fonteyn, Anna Pavlova, Galina Ulanova, Maya Plissetskaya e Natalia Makarova, para citar apenas poucas.

Além da perfeição de Makarova, para mim, Maya Plissetskaya, Cynthia Gregory e Alicia Alonso como Cisne Negro também são inesquecíveis.

Para mim, uma das mais marcantes foi Yelena Yevteyeva cujo filme de 1968 (no qual substituiu Makarova) é ainda um dos melhores registros (e a abertura inspirou o filme, Cisne Negro).

Aqui algumas bailarina no papel:

Natalia Osipova

Cynthia Gregory

Alicia Alonso

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