Hino feminista no documentário de Harry e Meghan

Dos seis episódios do documentário Harry e Meghan, o quinto foi o mais “agressivo” e aberto sobre quem magoou o casal e é o antagonista da sua narrativa. Nos três primeiros, o amor e inocência eram a tonica – com imagens cirurgicamente escolhidas para pontuar as críticas que ainda não estavam nas palavras – mas, nos três finais, que trataram da saída deles da Família Real, os problemas não foram suavizados. Em todos, as músicas também foram escolhidas para realçar a mensagem sendo que, no 5º episódio, quando Meghan foi inclusive excluída das negociações, a canção escolhida para encerrar os créditos foi provavelmente a mais clara de todas: You Don’t Own Me – você não é meu dono – um hino feminista escrito em 1963, cuja letra é perfeita para o drama.

You Don’t Own Me, I’m Not One of Your Many Toys (Você não manda em mim, não sou um dos seus brinquedos)”, começa a canção. “And don’t tell me what to do, Don’t tell me what to say (Não me diga o que fazer, não me diga o que falar)”, ela segue mais à frente. “Don’t try to change me in any way
You don’t own me, Don’t tie me down ‘cause I’d never stay
(Não tente me mudar de nenhuma forma, você não manda em mim, não me amarre porque nunca vou ficar) I’m free and I love to be free
To live my life the way I want, To say and do whatever I please
(sou livre e amo ter liberdade para viver minha vida como quiser, e dizer o que quer queira falar)”, conclui.

Precisa de mais clareza?

Pois é. Um dos problemas que Meghan Markle e Príncipe Harry encontraram foi que a “tradição” é. acortina de preconceitos estruturais que hoje colocam a Família Real em maus lençóis. Usando a Princesa Diana como exemplo, como Harry faz a cada vírgula, ela lutou contra o maior princípio de Elizabeth II: nunca explicar, nunca falar e seguir em frente, que afetava a Saúde Mental da princesa. Em uma época no qual os problemas que hoje tratamos com maior respeito eram resumidos à “desequilíbrio”, a luta solitária de Diana foi por empatia. A luta de Harry e Meghan era maior e mais complexa do que isso. Além de tentarem modernizar a postura da realeza, trazendo informalidade e inclusão para a imagem da Família Real, eles passaram a agir como unidade. Em outras palavras, também trouzeram para mesa a questão da equidade, o que nos olhos dos tradicionalistas foi seu maior pecado. Aqui os preconceitos estruturais agiram como um muro, sendo o de gênero e origem ainda maior do que o de racismo. Harry, nascido príncipe, é realeza. Meghan – e Kate – casadas com a realeza, não têm a mesma voz. O fato de que Meghan, uma mulher independente e inteligente insistiu em não entender e aceitar isso virou o gatilho para uma série de perseguições, desconfianças e problemas internos. Tradição que não estava aberta para revisão.

Falar de política, que ela também queria, tem impecilhos constitucionais para eles, mas equidade está apenas em uma escolha. No post passado mencionei que Harry erra ao tentar justificar e proteger seus avós de serem a essência do impedimento e acaba sendo alvo de acusações de “faltar respeito com a Rainha”. Vamos endereçar isso aqui por um segundo: a avó dele era o símbolo da maior instituição de seu país, uma é ligada à outra. Não há, como Meghan pensou e estranhou, uma postura para fora e outra para dentro. Eles não interpretam um papel, eles são o papel. Desta forma, quando Harry alude às influências que a Rainha passivelmente “aceita”, está sendo, desculpe, machista. Ela reinou por 70 anos e todas as escolhas que fez de não questionar ou mudar a instituição foram feitas por ela como soberana. É mais uma incongruência no discurso dele, não de Meghan.

Meghan – como recém chegada – queria acertar e fazer um papel, mas como todo artista, achou que poderia trazer suas notas para o diretor e construir uma personagem. Esbarrou com a irritação de quem jamais conviveu com estranhos ao sistema e mais ainda, não considerou e/ou não aceitou as sugestões. O impasse estava formado e ela teria que, como dita a tradição, ceder. Estamos acompanhando como a reação tem sido.

Mas voltemos à canção, que se encaixa perfeitamente com tudo isso. Lançada em 1963, junto com o livro feminista assinado por Betty FriedanThe Feminine Mystique, You Don’t Own Me tinha uma proposta ousada de tirar a mulher da passividade de uma relação amorosa machista. Não é à toa que é considerada uma das muitas obras artísticas que ajudaram a iniciar o Movimento de Libertação das Mulheres, mesmo que as mudanças só tenham começado mesmo a acontecer 10 anos depois. Por exemplo, I Am Woman, de Helen Reddy, só foi lançado em 1971.

You Don’t Own Me é uma das primeiras canções nas quais uma mulher exige sua independência. Para grande surpresa, foi escrita por dois homens, John Madara e David White, que juram que acertaram na mosca sem querer. A idéia era ter uma mulher repreendendo o marido, nem imaginavam que fosse uma perfeita declaração feminista. Sim, é uma ode à liberdade.

A gravação original era para uma cantora chamada Maureen Gray, mas Quincy Jones descobriu o material antes e pediu para usá-la com Lesley Gore, com quem estava trabalhando na época. Lesley, coma penas 17 anos, ficou conhecida como a rainha da angústia adolescente e uma “resposta americana” para Dusty Springfield, cujo sucesso I Only Wanna Be With You era tocado em todas as rádios, A “declaração de independência” de You Don’t Own Me foi mais do que a resposta, foi uma advertência do que estava por vir.

Foi sucesso imediato, com apenas o I Want to Hold Your Hand dos The Beatles ficando à frente. Lembrando a febre Beatle, percebe-se o impacto da canção na voz de Leslie, mas aos poucos o sucesso passou. Aos 21 anos ela sumiu das paradas, passando a trabalhar como compositora. Em 1980, colaborou com seu irmão mais novo, Michael Gore, na trilha sonora do filme Fame, recebendo uma indicação ao Oscar pela lindíssima Out Here on My Own, um dos sucessos de Irene Cara. Leslie faleceu de câncer, em 2015. E seu sucesso, foi regravado por artistas como Joan Jett, Grace Jones, The Blow Monkeys, Bette Midler, Dusty Springfield, Ann Wilson e até o rapper G-Eazy.

You Don’t Own Me está também na trilha sonora de muitos filmes, de Dirty Dancing a Hairspray. O uso mais famoso talvez tenha sido o encerramento de O Clube das Desquitadas (The First Wives Club), com a cena famosa de Bette Midler, Goldie Hawn e Diane Keaton celebrando suas vinganças contra seus ex-maridos cantando You Don’t Own Me pelas ruas de Nova York. Como Anne Wilson avaliou em uma entrevista em 2018: “Esta música é sobre a recusa de ser objetificada e possuída. Por qualquer um,” disse na época. Lembrando que o filme de 1996 dizia não fique brava, pegue tudo (don’t get mad, get everything) o uso da canção no documentário Harry e Meghan ganha ainda maior dimensão. Afinal, a luta dos dois está longe de acabar.

You don’t own me
I’m not just one of your many toys
You don’t own me
Don’t say I can’t go with other boys
And don’t tell me what to do
Don’t tell me what to say
And please, when I go out with you
Don’t put me on display ‘cause
You don’t own me
Don’t try to change me in any way
You don’t own me
Don’t tie me down ‘cause I’d never stay
I don’t tell you what to say
I don’t tell you what to do
So just let me be myself
That’s all I ask of you

I’m young and I love to be young
I’m free and I love to be free
To live my life the way I want
To say and do whatever I please
And don’t tell me what to do
Oh, don’t tell me what to say
And please, when I go out with you
Don’t put me on display
I don’t tell you what to say
Oh, don’t tell you what to do
So just let me be myself
That’s all I ask of youI’m young and I love to be young
I’m free and I love to be free

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s