Para o filme Titanic o Iceberg é uma porta

Lembro bem da primeira vez que vi Titanic em um cinema, há 25 anos. Minha irmã (e metade do cinema) aos prantos quando Jack Dawson (Leonardo DiCaprio) morreu de hipotermia depois de ter salvo – múltiplas vezes – sua amada, Rose DeWitt Bukater (Kate Winslet). Porém, no meio de tudo, ela me perguntou indignada: “Por que ela [Rose] não o [Jack] deixou subir na porta com ela?” “A porta” a que minha irmã se referia era uma jangada improvisada na qual Jack colocou Rose, mas não conseguiu subir, ficando na água fria e assim morrendo.

É, o navio bateu em im iceberg antes de afundar, mas, a decisão artística de como Jack morreria se revelou o pior obstáculo para o diretor James Cameron. A pergunta se repete há 25 anos, com respostas divertidas ou indignadas dele e dos atores, sem chegar à conclusão que ele queria. Com teses, memes e intermináveis questionamentos, “a porta” é sem surpresa uma das cenas mais lembradas de um filme que ainda é fenômeno.

“Fizemos um estudo científico para colocar tudo isso de lado de uma vez por todas”, disse James Cameron quando mais uma vez teve que responder a questão na pré-estreia de Avatar – O Caminho das Águas. “Fizemos uma análise forense completa com um especialista em hipotermia que reproduziu a jangada do filme e faremos um pequeno especial sobre ela que será lançado em fevereiro‘, prometeu.

A irritação do diretor com o tema é uma das lendas – alimentadas com entrevistas – que não deixaram de colidir com o desejo dele que as pessoas aceitem que Jack tinha que morrer. Afinal, hipotermia foi o que matou a maior parte dos passageiros, graças à demora do resgate naquela trágica noite há 110 anos. Em 2019, o diretor deixou claro que achava o questionamento “estúpido”. “O roteiro diz que Jack morre, ele tinha que morrer”, explicou.

“Eu realmente nunca vi isso como um debate, é apenas estúpido”, disse na época. “Não há discussão. Mas se você realmente quiser desenterrar todos os argumentos idiotas associados a isso, vamos voltar: Romeu poderia ter sido esperto e não ter tomado o veneno? Sim. Ele poderia ter decidido não trazer sua adaga para o caso de Juliet se esfaquear com ela? Sim, absolutamente. Isso meio que perde o ponto,” tentou argumentar. Afinal, a história era dele para contar como queria.

Mas não houve Paz. Tanto que vai endereçar a questão no especial que será lançado nos cinemas junto com o filme em 14 de fevereiro de 2023, como já anunciado. Segundo ele disse, dois dublês com a “mesma massa corporal de Kate e Leo” foram conectados a sensores antes de serem colocados em água gelada. Que trabalhão! “Testamos para ver se eles poderiam ter sobrevivido a uma variedade de métodos e a resposta foi, não havia como os dois terem sobrevivido. Apenas um poderia sobreviver,” mantém Cameron.

Pode ser divertido saber que tantos esforços sejam feitos para provar que ele estava certo, mas é indiferente. A decisão era criativa. “[Jack] precisava morrer. É como Romeu e Julieta. É um filme sobre amor, sacrifício e mortalidade. O amor se mede pelo sacrifício… Talvez depois de 25 anos, eu não tenha que lidar mais com isso,” ele desabafou. Não ajudou que ao longo dos anos os fãs simplesmente questionaram a razão dele não subir na porta que foi usada como bote, com os criadores de MythBusters até conduzindo um experimento em 2012 que comprovava que os dois caberiam na porta.

Embora Leonardo DiCaprio nunca tenha entrado na polêmica, a atriz Kate Winslet já brincou publicamente que concorda que havia espaço, Rose teria sido egoísta mesmo.

Será que vão deixar passar dessa vez?

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