Ava Gardner: o centenário de uma lenda

“Eu nunca fui realmente uma atriz”, Ava Gardner comentou em uma entrevista à TV americana em 1985, no sua clássica (e nem sempre compreendida) franqueza. “Nenhum de nós era. Lana Turner, Judy Garland, Van Johnson ou Mickey Rooney. Éramos bonitos.”

Ava, com seus olhos verdes, cabelos pretos, cigarro e bebida nas mãos foi considerada uma das mais belas estrelas reveladas por Hollywood, tendo começado a trabalhar em filmes aos 19 anos, sem nenhum treino ou aspiração, e só parando quando morreu, aos 67 anos, de pneumonia, em seu apartamento em Londres. Na época era uma doença recorrente contra a qual lutava há vários anos, mesmo depois do derrame que sofreu em 1986.

Com uma filmografia de mais de 60 títulos, Ava jamais foi considerada versátil, mas sua beleza e magnetismo eram inegáveis, mesmo em tempos nos quais convivia com lendas como Rita Hayworth, Marilyn Monroe ou Lana Turner. A fama despertou interesse nos fãs e sua vida amorosa agitada fez história. Namorou o milionário Howard Hughes (ela é interpretada por Kate Beckinsale em O Aviador), foi casada três vezes (Mickey Rooney, Artie Shaw e Frank Sinatra) teve romances com toureiros e outros atores, foi musa de Ernest Hemingway. Uma vida fascinante e ainda mais interessante porque Ava não tinha papa na língua: com palavrões e uma sinceridade ímpar, era o sinônimo de autenticidade, algo “perigoso” em uma mulher de seu tempo.

Nascida em uma pequena cidade do sul dos Estados Unidos, Ava Lavinia Gardener cresceu em uma fazenda em Smithfield, Carolina do Norte, tendo nascido na véspera de Natal, em 24 de dezembro de 1922. A caçula de cinco filhos, teve uma infância muito pobre. Seus sonhos eram simples: casar e ter filhos, trabalhando como estenógrafa. Mas uma visita a Nova York com sua irmã, mudou tudo. Seu cunhado era fotógrafo comercial e tirou vários retratos dela. Um deles chamou a atenção de um caça-talentos que enviou uma cópia para a Metro Goldwyn Mayer. Não demorou que fosse chamada para um teste e fosse contratada.

Com um salário de $ 50 por semana, teve aulas de dicção para perder o sotaque e de atuação, enquanto trabalhava como modelo. Seu primeiro filme foi em 1942 e seguiu com papéis pequenos até 1946, quando estrelou ao lado de Burt Lancaster o clássico noir Os Assassinos. O mundo se apaixonou por Ava no papel de Kitty Collins, uma mulher sedutora e implacável, para sempre associada à sua imagem.

Filmes como A Deusa do Amor (A Touch of Venus), onde interpretou o clássico Speak LowShow Boat (onde foi dublada quando cantou Can’t Help Lovin’ That Man ), passando por As Neves de Kilimanjaro e Mogambo, foram grandes sucessos. Seu filme mais famoso foi A Condessa Descalça, mas foi Mogambo que lhe rendeu sua única indicação ao Oscar e uma amizade inabalável com Grace Kelly.

Insegura como atriz, Ava gostava da noite de Los Angeles: bebidas, festas, música faziam parte de sua rotina. Se casou com Mickey Rooney com apenas 19 anos e se separou em menos de dois anos. O casamento com Artie Shaw também foi curto (apenas um ano), com a atriz terminando a relação após um colapso nervoso. No entanto foi a grande paixão com Frank Sinatra que se tornou uma lenda em Hollywood.

Embora tivessem cruzado em festas, o relacionamento entre eles só começou em 1950, quando a carreira do cantor estava em declínio, assim como seu casamento. A química e a intensidade do amor dos dois rendiam brigas e reconciliações extremamente públicas, com os dois se casando em 1951 depois que ele conseguiu se divorciar de Nancy, sua namorada de infância. Ava e Frank ficaram 6 anos casados e foi para ela que ele escreveu a clássica I’m a Fool To Want You, eternizada na voz de Billie Holiday.

O frágil casamento chegou ao fim quando a arte se tornou realidade. Gravando E Agora Brilha o Sol (The Sun Also Rises), onde interpretou a impetuosa Lady Brett, uma sedutora de toureiros, se apaixonou de fato por um. Mesmo divorciados, ela e Sinatra ficaram amigos (com direito, segundo ela contou em sua biografia, a encontros ocasionais pelo resto de suas vidas. “Na cama nunca nos desentendemos”, ela explicou no livro). Depois dele, nunca mais voltou a se casar.

A bebida nunca a impediu de trabalhar, mas ela mesma reconheceu em sua biografia que prejudicaram sua aparência e saúde. Aos poucos foi aceitando a fazer mais trabalhos fora dos Estados Unidos, por conta das vantagens fiscais e acabou se mudando para Europa, dividindo seu tempo entre Londres e Madri. Quando precisou de dinheiro, escreveu seu livro (“Era isso ou vender minhas jóias e sou apegada à elas”, disse na época), mas aos poucos foi se isolando e evitando ser fotografada.

“Fui vítima da imagem”, disse ela em uma entrevista. “Como fui promovida como uma espécie de sereia e interpretei todas aquelas garotas sensuais, as pessoas cometeram o erro de pensar que eu era assim fora da tela. Não poderiam estar mais errados”, completou.

Uma das atrizes mais famosas em seu tempo, Ava amava cantar. No dia de seu centenário, aqui fica a nossa homenagem à ela. E a cena na temos o registro de sua voz.

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