Mesmo 37 anos depois, Atração Fatal ignora a verdadeira Alex Forrester

Há um problema muito sério com alguns ‘clássicos’ dos anos 1980s/1990s quando o tema é mulher forte e independente: invariavelmente ou elas eram ‘domadas’ ou eram antagonistas. A cultura machista era tão dominante e livre que em filmes como Atração Fatal e Assédio Sexual, a ‘vítima’ era o macho tóxico (em ambos filmes, Michael Douglas) e elas, desequilibradas e invejosas. Enquanto Assédio Sexual (Disclosure), de 1994, teve uma reação morna, Atração Fatal, de 1987, chegou ao Oscar com seis indicaÇões, incluindo filme e atriz, com uma atuação icônica de Glenn Close. Talvez por isso tenha sido o eleito para uma refilmagem, na série da Paramount Plus com Lizzy Kaplan e Joshua Jackson como o casal de amantes e eventuais inimigos.

Tudo em Atração Fatal grita machismo, até o fato que até hoje é resumido como um conto que mostra “o que pode acontecer quando você sai da linha”, em especial momento em que conservadores usaram qualquer argumento, incluindo o pânico da crise da Aids, foi visto como um alerta “pelos bons costumes”. Inspirado em uma situação que o roteirista James Dearden observou com amigos que traíram as mulheres, segundo ele, esses homens infiéis passaram a ser “assediados” pelas ex-amantes e ele mesmo teve “uma namorada que cortou os pulsos, de forma muito teatral e não para se matar” e “um bom amigo foi perseguido por esta linda, mas louca mulher, e isso estava destruindo seu casamento,” comentou em uma entrevista há alguns anos. Alex Forrest virou então o símbolo de uma mulher com doença mental e desequilíbrio psicológico, a mulher agressiva e independente que é uma ameaça para a família tradicional, que, no fundo, quer o lugar de esposa e mãe, sem medir consequências para alcançar o objetivo. Infelizmente, nem em 2023, o papel foi revisto.

Antes de virar ‘atração fatal’, a história nasceu como Diversion e foi selecionada pela Paramount, dirigido por Sherry Lansing na época, para virar uma grande produção, com Adrian Lyne, aclamado depois de Flashdance, assumindo a direção. Michael Douglas ainda não era o astro da década em Hollywood, mas já era famoso e respeitado portanto foi escolhido para interpretar Dan Gallagher. Já Glenn Close passou por um longo processo de convencimento por não ser “bonita” ou “sexy” o suficiente, tendo que convencer o estúdio de que teria os atributos físicos necessários para se tornar uma mulher atraente, pelo menos mais do que Kirstie Alley, Melanie Griffith, Michelle Pfeiffer, Susan Sarandon, Debra Winger, Jessica Lange, Judy Davis e Barbara Hershey, todas consideradas antes dela e que recusaram o “desafio”. Glenn, uma das melhores atrizes americanas já na época com nada menos do que três indicações ao Oscar antes de Atração Fatal (pelo qual foi indicada também), precisou insistir para ser testada e provar que poderia ser Alex.”Eu só queria um personagem que exigisse mais de mim. Eu nunca tinha interpretado uma personagem que deveria ser sexy. Sabia que poderia fazer isso”, a atriz comentou sobre o papel em uma entrevista em 2017 ao New Your Times. Sim, apesar dos problemas da personagem a atuação de Glenn Close é icônica.

No filme, diferentemente da série, Dan Gallagher e Alex Forrest se envolvem no que ele pensava ser uma aventura casual de fim de semana e acaba virando um pesadelo para ele, como ainda descrevem, “o maior erro de sua vida”. A conexão sexual e intelectual dos dois é mais forte do que Alex antecipava e ela muda de idéia, passando a querer algo a mais com o casado amante. Ao perceber que não o convencerá a trocar a esposa por ela, que está grávida, Alex entra em um espiral psicótico e violento, tentando tirar sua própria vida e depois ameaçando a família de Dan, levando para uma conclusão “fatal”.

Como Alex mesmo diz no filme para Dan, “você pensou que poderia simplesmente entrar na minha vida e transformá-la de cabeça para baixo, sem pensar em ninguém além de você. E mais ainda “Não serei ignorada”. Na história, Dan é seduzido por Alex, convencido que nada será cobrado dele e se vê ‘vítima’ de uma mulher desequilibrada. No roteiro original, Glenn Close explicou em outra entrevista, “não havia muitos detalhes no roteiro sobre o que levou a personagem a reagir ao caso da maneira que ela fez”, por isso precisou de ajuda profissional de psiquiatras para entender as motivações de Alex. A pesquisa a levou construir uma história na qual Alex teria sido vítima de incesto ainda criança por seu pai, criando uma mulher complexa e abusada repetidamente desde então.

Porém o que foi mais polêmico foi a conclusão da história. No roteiro original, Alex tira sua própria vida, tentando incriminar o ex-amante, mas segundo alegam, o público rejeitou o final quando foi feito um teste antes do lançamento. Precisavam ver a “louca ser punida” mais claramente e, de preferência, “pela esposa fiel”. Beth, vivida por Anne Archer, tinha o apoio da sociedade “assustada” com a ameaça da amante. As atrizes foram contrárias à refazer a cena final, e sempre expressaram suas opiniões sobre a mudança, como Glenn antecipou, Alex viraria apenas “uma psicopata assassina”. Mas acabou cedendo e um segundo teste provou que esse era o final esperado, portanto ainda nas palavras de Glenn Close, “tiveram sua catarse derramando meu sangue.”

Sem dúvida Alex Forrest é um papel complexo e que foi injustiçado, algo que a refilmagem da série – até o momento – não alterou. Lizzy Kaplan tem se esforçado sob a sombra de uma atuação tão brilhante como a o filme, e, lamentavelmente, nem ela ou Joshua Jackson estão conseguindo trazer uma melhoria para algo que foi tão bem sucedido.

A série Atração Fatal faz algumas alterações: começamos com um Dan saindo da prisão, onde foi condenado após o assassinato da amante, Alex Forrest (alterada de editora para advogada). Porém ele alega inocência e tenta recuperar sua fraturada relação com a filha, Ellen enquanto busca “o verdadeiro culpado”. A proposta afasta então o final infame do filme. Infelizmente as revelações do que seria a conclusão final podem ser spoiler.

Outra alteração na série, abraçada pela atriz Lizzy Kaplan, é a de mostrar um pouco o passado de Alex, para distanciar da simplificação que ela chama de “cara legal, mulher horrível, deve morrer” para contextualizar melhor a relação dos dois. Dito isso, não vi nenhuma ‘recuperação’ no retrato de Alex: ela ainda é uma mulher perturbada e obcecada. Ainda é injustiçada.

Em 2023, a série Atração Fatal conserta algumas falhas, como deixar Beth tão passiva ou como uma dona-de-casa sem ambição, Dan não é mostrado tão inocente, mas Alex ainda é problemática. Na verdade, pior. O que no filme é um encontro de negócios casual, na série é um plano de uma desequilibrada mulher já interessada no homem casado, criando oportunidades de encontros aparentemente ocasionais que fazem parte de uma estratégia de conquista. Mesmo o colocando como parte ativa – não é simplesmente ‘seduzido’ – e trazer Alex como uma advogada que trabalha nos Serviços para Vítimas, com empatia e empenho com seus clientes, mantê-la com problemas psicológicos é sim colocar a mulher como elemento de culpa.

Os episódios finais ainda não foram exibidos, portanto ainda há um espaço para se distanciar do original. Atração Fatal de 2023 tenta nos enganar com a prisão e condenação de Dan, tirando dele a família que não valorizou quando embarcou no caso extra-conjugal, porém, ao minimamente sugerir sua ‘inocência’ do assassinato de Alex, nos levando à uma investigação sobre o que realmente aconteceu, repete o principal pecado do original. É Alex sendo objeto de catarse de novo. A essa altura, a figura que transformou o “coelho fervido” como uma ação de “mulheres enciumadas” está fritando a mulher de novo. Mesmo com seus problemas, estamos ignorando Alex novamente.

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