Falamos frequentemente sobre a entrada de Abby Anderson (Kaitlyn Dever) em The Last of Us, mas ainda mais assustador que ela sempre foi seu líder e mentor: Isaac Dixon (Jeffrey Wright), cuja entrada oficial na trama aconteceu agora no episódio 4 da segunda temporada. Portanto, chegou a hora de conhecer o “General da Sobrevivência”, a figura ambígua dentro do universo do jogo e da série.
Embora seu tempo de tela seja limitado, sua presença e influência são profundamente sentidas ao longo do jogo e da história, especialmente por meio de seus impactos na narrativa de Abby e nos conflitos envolvendo os WLF (Washington Liberation Front) e os Serafitas (também conhecidos como Scars).

Identidade e posição dentro do universo
Isaac Dixon é o líder dos WLF, a principal força militar organizada da cidade de Seattle. Pouco se sabe sobre Isaac antes do surto de Cordyceps, mesmo quem o conhece do jogo, só sabia que antes de assumir a liderança da milícia no estado de Washington, ele era um veterano de guerra que sobreviveu à quarentena.
Quando era Sargento da FEDRA (Federal Disaster Response Agency), desiludido e farto da corrupção e do controle avassalador do grupo, ele liderou uma rebelião bem-sucedida, traindo sua equipe sem piedade. Ele se juntou a outros ex-militares e civis, transformando o W.L.F. em uma milícia poderosa e disciplinada. Embora a energia de Ellie (Bella Ramsey) seja dedicada a caçar e matar Abby, Isaac funciona como um vilão secundário, mas não menos importante, atrapalhando Abby em sua parte da narrativa.
Assim, tanto na série como no jogo, acompanhamos a história de Isaac quando ele deserta da FEDRA e se junta ao grupo guerrilheiro Frente de Libertação de Washington, com seus fundadores Emma e Jason Patterson, nos primeiros dias da W.L.F.
Caráter e ideologia
Isaac é, acima de tudo, um pragmático. Ele acredita na força como forma de preservar a ordem e a sobrevivência, o que o torna uma figura controversa. Para seus aliados, é um líder firme, estrategista e visionário, que trouxe segurança para os cidadãos de Seattle. Para seus inimigos — e até para alguns dentro de seu próprio grupo — é um autoritário que não hesita em tomar decisões brutais em nome de um bem maior.
Apesar de sua frieza, Isaac é complexo. Há indícios de que ele carrega um certo fardo emocional por suas escolhas. Sua liderança é marcada por um senso de propósito, mas também por um endurecimento moral que o aproxima de figuras militares históricas dispostas a sacrificar vidas pela “paz”.
Ou seja, como diria George R. R. Martin, como vilão, ele é o herói do outro lado. Ninguém em The Last Of Us é exatamente “puro” e sobrevivência apocalíptica eventualmente desafia a humanidade de todos. Claramente veremos a mesma coisa com Isaac.

Conflito com os Serafitas
Se na 1ª temporada o medo era da FEDRA, agora já entendemos que há mais conflitos lá fora. No caso aqui, Serafitas (Scars) e Lobos, que se odeiam.
Isaac lidera o WLF em uma guerra sangrenta contra os Serafitas, um grupo religioso e isolacionista que se opõe ao domínio militar do WLF em Seattle. Os Scars são liderados por uma mulher carismática conhecida apenas como “A Profeta”, que afirmava ter visões de um novo caminho para a humanidade.
A guerra entre os dois grupos é uma das tramas centrais da parte de Abby no jogo e demonstra o fracasso de qualquer tentativa de convivência ou diplomacia — Isaac acredita que só a eliminação completa dos Serafitas garantirá a segurança do WLF.
Há menções a negociações frustradas entre Isaac e os Serafitas antes da guerra total, o que sugere que, mesmo sendo militarista, ele chegou a considerar a diplomacia — mas desistiu ao entender que o fundamentalismo dos Serafitas não permitiria concessões. Isso porque a paz instável terminou rapidamente depois que um grupo de adolescentes Serafitas foi morto após provocar uma patrulha da W.L.F. Quando a guerra reacendeu, a W.L.F. finalmente prendeu a Profeta e, sob o comando de Isaac, a executou.
Sua relação com Abby
Isaac tem uma relação de confiança e autoridade com Abby Anderson, a quem trata como uma de suas principais soldados e, de certa forma, como uma protegida. Ele parece enxergar em Abby uma extensão de seus próprios valores militares e sua disposição para fazer o necessário — inclusive atos de extrema violência — para proteger o WLF e vencer os Serafitas.
Isaak vê Abby como uma de suas melhores soldados — disciplinada, eficiente e leal ao WLF. Ele a valoriza por sua força, resiliência e comprometimento com a missão do grupo. Ao longo do jogo, há indícios de que ele a considera quase como uma pupila, alguém em quem ele aposta como futura liderança da organização.
Por sua vez, Abby admira Isaac como um líder forte e determinado. Durante boa parte da narrativa, ela acredita na missão dos Lobos e cumpre suas ordens com convicção, mesmo quando essas envolvem ações violentas. Isaac, ao que tudo indica, é uma figura paterna para Abby após a morte de seu pai (o cirurgião dos Vagalumes morto por Joel).
O conflito entre os dois emerge quando Abby começa a questionar o propósito da guerra contra os Serafitas e, sobretudo, quando conhece Yara e Lev. Isaac representa a linha dura do WLF: não há espaço para empatia, apenas para a ordem e a vitória. Abby, por outro lado, começa a romper com essa lógica, especialmente após desenvolver laços com Lev.
Isaac percebe essa mudança e, mesmo ainda respeitando Abby, vê suas ações como traição. Ele tenta trazê-la de volta ao controle, oferecendo uma chance de redenção — mas não hesita em ordenar a execução de Lev e Yara, quando Abby se recusa. Assim, eles se tornam inimigos (e muda a nossa percepção sobre Abby também).

SPOILER: seu destino na história
Antes de morrer violentamente durante a missão de liderada por Abby para resgatar Yara e Lev, Isaac deixará um rastro de sangue e medo no caminho. E é justamente isso que muda a trajetória de Abby, a tornando mais pessoal e redentora.
A cena mais marcante de Isaac Dixon em The Last of Us Part II ocorre durante o ataque final à ilha dos Serafitas, quando Abby e Yara são capturadas pelos WLF. Cercado por seus soldados, Isaac vem pessoalmente executar as prisioneiras, demonstrando controle absoluto da situação.
Por ter uma ligação emocional com ela, Isaac ainda tenta convencer Abby a entregar Lev, afirmando que ainda confia nela — mesmo após sua deserção. Mas Abby se recusa. Impassível, Isaac decide executar os irmãos ali mesmo, mas, antes que ele dispare sua arma, Yara atira em Isaac, matando-o, antes de ser metralhada pelos soldados.
Essa cena é marcante porque mostra o limite da obediência de Abby e o colapso da autoridade que Isaac representa, determinando o ponto de não retorno para Abby, que rompe de vez com os WLF e escolhe um caminho pessoal, longe da guerra entre facções. Visualmente e emocionalmente, a cena resume o que Isaac representa: o império do medo, quebrado por um gesto de desobediência movido por amor e lealdade.
Mesmo morto, Isaak continua presente na memória do WLF e nos destroços de Seattle, representando a figura do líder que escolheu o caminho da força até o fim. Sua queda simboliza também a desintegração do WLF como potência unificada, dando lugar a uma nova forma de caos.
Vale explicar que no jogo, as trajetórias de Abby e Ellie são paralelas (até o confronto entre elas) e Ellie sempre ataca os WLF de forma furtiva e descentralizada, matando figuras como Nora, Jordan e Mel, mas não chega a interagir com a alta hierarquia do grupo. Isaac é morto antes que ela chegue perto dele.

Simbologia
Isaac é uma personificação do militarismo pós-apocalíptico. Ele representa o que acontece quando a sobrevivência vira dogma, e a força substitui a empatia. Em contraste com personagens como Ellie (movida por vingança) e Abby (em busca de redenção), Isaac não está emocionalmente engajado em dilemas morais — ele age como uma força estabilizadora, mas inflexível.
Ele é também um contraponto à religião dos Serafitas: enquanto esses se entregam ao fanatismo espiritual, Isaak se apega à ordem militar como fé. Ambos os extremos colapsam, mostrando que nenhum dos dois caminhos é sustentável. O fato de um ator do calibre de Jeffrey Wright, que já foi indicado ao Oscar e estava liderando o elenco de Westworld, dá à personagem uma presença imponente mesmo com pouco tempo de tela.
Assim, Isaac Dixon é uma peça fundamental na construção do universo moralmente ambíguo de The Last of Us. Sua rigidez, liderança e escolhas ecoam muito além de sua morte, afetando profundamente o arco de Abby e o colapso da estrutura organizada em Seattle. Embora nunca seja protagonista, ele representa uma das forças mais realistas e inquietantes do jogo: a crença de que, no fim do mundo, só a ordem imposta pelo medo pode garantir a sobrevivência.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
