Como antecipei, em julho meu foco será muito na melhor série no ar nas últimas semanas: The Gilded Age. Na sociedade espetacular e implacável daquele período, poucos personagens carregam tanto poder — e tanto veneno — quanto Bertha Russell. Ela é uma mulher que conquistou o topo pela força da própria ambição, mas que parece incapaz de permitir que os filhos trilhem caminhos fora de seu controle.

Bertha é um perfil de mãe que mesmo hoje encontra eco em muitas relações traumáticas que é um misto de superproteção, projeção e assédio, por isso é divertido e curioso o fervor com o qual a atriz Carrie Coon a defende.
Na terceira temporada da série a tensão dela com os filhos chega ao ápice, com Gladys sendo finalmente empurrada para um casamento sem amor com o Duque de Buckingham, e Larry tentando manter, com dificuldade, um pouco de autonomia emocional diante da mãe que o vê como herdeiro e extensão de si.
Vale traçar um perfil psicológico de Gladys e Larry, suas relações com Bertha, e as possíveis consequências futuras desse jogo de aparências, culpa e controle. Também observamos como esses conflitos se espelham — ou contrastam — com a trajetória de Marian Brook e a postura surpreendentemente afetiva de sua tia Agnes van Rhijn, assim como a postura firme e autônoma de Peggy Scott.

Gladys Russell: prisioneira de luxo
O terceiro episódio da 3ª temporada, Love Is Never Easy, entrega o retrato simbólico — e literal — da jovem Gladys. Pintada por John Singer Sargent em um quadro que impressiona toda a sociedade nova-iorquina, ela é apresentada como o triunfo visual de Bertha: bonita, recatada, desejável, admirável. Mas o que esse quadro não revela é a enorme derrota emocional que a imagem esconde.

Depois de ter perdido Archie na 1ª temporada (afastado por ameaça de seus pais) e meses sonhando com um casamento por amor, especialmente com Billy Carlton, ela contava com o apoio discreto do pai, George, para seguir o próprio coração, mas Gladys se vê emocionalmente esgotada e cede à pressão familiar. Aceita casar-se com o duque de Buckingham— um homem que, embora polido e respeitável, nada representa para ela em termos afetivos.
A atriz Taissa Farmiga descreveu esse momento como o resultado de um colapso emocional: “Ela está lidando com o medo do futuro, com o peso das pressões externas e com a dor de um coração partido. Chega um ponto em que você simplesmente quer que tudo acabe.” É uma rendição silenciosa, quase entorpecida, marcada pela cena em que seu colar de pérolas se rompe e as contas se espalham pelo chão — um símbolo claro de que algo nela, ou ao redor dela, se quebrou.
Gladys é claramente despreparada para a vida adulta — mas esse despreparo é consequência direta do ambiente que Bertha criou. Ela foi mantida em isolamento, vigiada, impedida de se desenvolver emocionalmente ou socialmente. Quando a mãe afirma que a filha “ainda tem bonecas no quarto”, o que parece ser uma crítica à infantilidade de Gladys soa, na verdade, como uma confissão: Bertha nunca permitiu que ela crescesse. Fora que também é a ironia de que Bertha a esteja tratando como uma boneca ela mesma.

Gladys deseja um casamento por amor por pura ingenuidade — não por maturidade emocional, e sim por falta de enfrentamento com a realidade. Nunca sofreu verdadeiramente, nunca escolheu, nunca enfrentou o mundo como adulta. Quando o mundo finalmente chega até ela, com suas regras e acordos impiedosos, ela desaba.
Nesse contexto, Bertha tem razão quando diz que sua filha não sabe o que quer. Gladys entende que apenas se casando e saindo da casa de seus pais poderá ser quem quer ser, mesmo que não tenha ideia de que é ou como sobreviver. Age como uma menina mimada que não inspira firmeza.
Nas duas vezes que se apaixonou eram por jovens fracos como ela, no papel bons candidatos, mas sem a menor possibilidade de enfrentar George ou Bertha. Ela quase caiu no conto de se casar com Oscar, que entendia a situação, mas esbarrou em ser pouco, na visão de Bertha, e ser errado, na visão de George.
George não acha que Hector, o duque, seja certo ou errado. É um candidato caro, mas o título é poderoso. O que ele queria era que Gladys escolhesse – fosse por praticidade ou amor- mas de novo, Bertha não contribuiu para que a personagem desenvolvesse sua personalidade. E o resultado? Ela cedeu, por derrota, ao mundo que não é cor de rosa.

Larry Russell: o herdeiro hesitante
Larry parece, à primeira vista, mais livre. Ele circula entre arquitetos, conversa com Marian com intimidade e até se impõe diante de alguns desejos da mãe. Mas essa liberdade é superficial. Na prática, ele vive sob o mesmo tipo de expectativa emocional — apenas menos escancarada.
Bertha não exige um casamento imediato de Larry como faz com a filha, mas o cerca com pressões veladas. Ela o quer casado com alguém de “alcance social” elevado. Ela deseja que ele conduza os negócios do pai, que represente o clã Russell como o “filho modelo”, o “homem de visão”, o “herdeiro apropriado”. Essa carga, embora mais sutil do que a que pesa sobre Gladys, vem embalada em afeto condicionado, o que a torna ainda mais poderosa: para receber amor, Larry precisa seguir o roteiro da mãe.

E sempre que ele sai desse roteiro — como ao se aproximar de Marian Brook — Bertha responde com frieza estratégica. Não o proíbe abertamente, mas deixa claro que desaprova, que não confia, que espera mais dele. Ela não grita nem impõe, mas a decepção silenciosa, em famílias como essa, é uma forma de violência emocional bastante eficaz.
Ela o queria com Carrie Astor, ou agora o quer com Martha Delancey, filhas ricas de famílias tradicionais. Ela foi contrária ao relacionamento do filho com a viúva Susan Blane, com medo de que ele – menos inocente que Gladys, mas igualmente influenciável – se apaixonasse. Quando Larry se recusou a romper, Bertha foi direto à Sra. Blane e a despachou grosseiramente (mas honestamente).

Agora viu que Marian, embora ligada à família tradicional não tem fortuna, é outro impecilho no que vê como casamento ideal para seu filho. Como vai lidar com isso e vencer? A ver, primeiro ela quer casar Gladys.
No fundo, Larry é um homem que não rompe com a mãe porque teme perdê-la. Sua dependência não é só material — é emocional, simbólica, relacional. E Bertha sabe disso.
Bertha Russell: a mãe que não cria filhos — molda espelhos
A grande questão, portanto, não é apenas o que Gladys e Larry fazem — e sim o que Bertha não fez. Apesar de todo seu talento para navegar a sociedade e arquitetar alianças vantajosas, ela falhou em preparar os filhos para a vida real — e mesmo para os próprios planos que arquitetou.
Psicologicamente, Bertha age como uma “mãe narcisista clássica”, no sentido clínico do termo: projeta nos filhos (especialmente Gladys) a continuação de seus sonhos e busca, por meio deles, a confirmação de seu próprio sucesso.
A validação que Bertha quer do mundo — reconhecimento, prestígio, status — depende do desempenho dos filhos, e isso gera uma dinâmica de manipulação sutil, muitas vezes mascarada de “proteção” ou “amor materno”.


Bertha não é uma vilã unidimensional, mas sim uma personagem profundamente ambiciosa, estrategista, implacável e emocionalmente manipuladora — que opera segundo uma lógica própria de poder e ascensão social, ainda que isso custe a subjetividade da filha. Seu comportamento pode ser classificado, sob certos aspectos, como perverso no plano relacional, pois ela: não reconhece nos filhos seres com desejos próprios, mas um meio para um fim — a consolidação definitiva dos Russell na elite nova-iorquina. Essa instrumentalização deles, feita sem culpa ou empatia visível, é um dos traços típicos de uma relação perversa.
Bertha não demonstra empatia genuína pelo sofrimento da filha, por exemplo. Quando Gladys chora ou hesita, ela reage com irritação, indiferença ou chantagem emocional. Isso se alinha com o funcionamento psíquico perverso, que se caracteriza por não reconhecer o outro como portador de uma vida emocional autônoma. Para Bertha, Gladys está “dando trabalho”, não sofrendo.
A relação entre Bertha e Gladys é marcada por uma dinâmica de dominação total, onde a mãe não tolera limites, nem deseja estabelecer negociações. O desejo da filha é constantemente anulado, e qualquer tentativa de resistência é enfrentada com força dobrada. Essa lógica é típica de estruturas perversas, que não convivem com a alteridade — só com a submissão.

Bertha não expressa remorso por empurrar Gladys para um casamento sem amor. Ao contrário: exibe a conquista como um troféu. A ausência de culpa ou desconforto frente ao sofrimento alheio é um dos elementos centrais da perversidade.
É importante lembrar que Bertha Russell não é retratada como uma psicopata, mas sim como uma mulher moldada por um contexto histórico em que o sucesso de uma família dependia diretamente das alianças feitas por meio do casamento das filhas. Ela é um produto e uma agente desse sistema. Sua “perversidade” é, em parte, uma resposta funcional e estratégica ao ambiente patriarcal e classista da Gilded Age — mas isso não elimina sua responsabilidade emocional.
Gladys não tem maturidade para enfrentar o duque ou negociar com o coração partido. Larry hesita diante da mãe mesmo quando reconhece o que quer. Bertha, na prática, criou dois jovens adultos que não sabem existir fora da órbita dela. Essa imaturidade não é um acidente — é uma consequência direta de uma estratégia de controle que começa na infância e perdura pela vida adulta.

Em termos psicológicos, Bertha Russell representa a figura materna que ama seus filhos como partes de si mesma — não como indivíduos. Ela os quer bem-sucedidos, desde que sigam seus critérios. Quer vê-los felizes, desde que obedeçam. O amor é dado com uma condição: não a contradigam.
Agnes van Rhijn: o contraponto possível
Apesar de viverem em extremos opostos da elite novaiorquina, Agnes van Rhijn e Bertha Russell compartilham uma certa praticidade ao lidar com o casamento e os destinos das jovens à sua volta — mas diferem profundamente em sensibilidade e ambição. Agnes, embora rígida e tradicional, não é movida pelo desejo de ascensão social, e sim por valores estáticos de classe e honra.
“Não desejo que ela se case por dinheiro. Apenas que se case em busca de segurança, amparo e, se Deus quiser, afeto.”
Agnes falando de Marian, Temporada 1 de The Gilded Age
Quando Marian desiste de se casar com Dashiell Montgomery, é com Agnes que ela encontra acolhimento: a tia, geralmente austera, demonstra afeto e compreensão reais, reconhecendo a dor da sobrinha sem impor culpa ou julgamento. É uma conversa carregada de empatia, muito distante da frieza com que Bertha manipula a decisão de Gladys.

Ambas as jovens — Marian e Gladys — desejam casar por amor, mas partem de lugares muito distintos: Marian, mesmo marcada pelo fracasso do casamento dos pais, acredita que o amor vale o risco; Gladys, protegida de qualquer tragédia real, idealiza o romance como se ele garantisse felicidade automática.
A diferença essencial é que Agnes trata Marian como uma mulher capaz de aprender e decidir, enquanto Bertha ainda enxerga a filha como uma peça em seu tabuleiro.
Peggy Scott: a mulher que ousa dizer não
Se Gladys Russell é o retrato da obediência resignada e Larry vive preso à ilusão de autonomia, Peggy Scott representa o caminho mais difícil — e talvez mais íntegro — da recusa. Filha de um homem poderoso dentro da comunidade negra e criada com esmero para ser uma dama respeitável do Harlem, Peggy também carrega o peso das expectativas familiares. Seu pai, Arthur Scott, espera que ela obedeça, que siga um caminho “seguro”, que abandone a escrita e o ativismo em nome de um bom casamento e da estabilidade.
No entanto, diferente de Gladys, Peggy já enfrentou perdas devastadoras, foi traída pelos pais, viveu longe de casa e fez escolhas que a machucaram — mas que foram suas.

É isso que a torna diferente: a dor fez dela uma mulher consciente, e não submissa. Ela rejeita o casamento por conveniência, escolhe sua vocação contra o desejo da família e segue buscando um lugar onde possa existir com liberdade. Enquanto Gladys aceita o duque com lágrimas nos olhos, Peggy enfrentaria o altar como quem entra num cárcere — e por isso não entra.
Ela é o espelho invertido de Gladys: igualmente bem criada, igualmente cercada por expectativas, mas com coragem suficiente para dizer “não” quando tudo e todos exigem um “sim”.
A história de Peggy mostra que não basta ter recursos ou educação — é preciso ter espaço interno para a autonomia. Bertha sufoca, o Sr. Scott protege demais, mas Peggy, sozinha, encontrou ar para respirar. E talvez seja por isso que, entre tantas mulheres moldadas para obedecer, ela seja a única que já sabe exatamente quem é.
E agora? Ainda há chance de fuga?
Gladys, neste ponto da narrativa, parece ter sido derrotada. Seu noivado com o Duque de Buckingham não representa uma vitória pessoal, mas uma capitulação. A cena em que ela aceita o pedido de casamento sem emoção, e a simbólica quebra do colar de pérolas, apontam para o vazio emocional de quem se entregou à pressão simplesmente porque não aguentava mais lutar. A pergunta agora é: vai haver casamento mesmo? Ou ela ainda encontrará forças para fugir antes do altar? (Spoiler, sim, ela se casa com ele).
Mais interessante, no entanto, é a encruzilhada de Larry.
Ele ainda não fez sua escolha final. Está apaixonado por Marian Brook, uma mulher que a mãe considera socialmente inaceitável, mas que representa o único afeto genuíno no seu horizonte emocional atual. Se seguir esse caminho, terá que, pela primeira vez, enfrentar Bertha de forma frontal — e provavelmente sofrer as consequências emocionais e materiais disso.

A pergunta central é: Larry será capaz de romper com o mito da mãe perfeita? Será que conseguirá perceber que o amor que Bertha oferece está condicionado à obediência e, portanto, é limitado? Ou continuará refém de uma relação que o sufoca lentamente enquanto finge protegê-lo?
Tudo indica que o destino dos irmãos Russell está se bifurcando. Gladys já foi levada ao sacrifício. Mas Larry ainda tem escolha. Ele pode ser o herdeiro que, finalmente, quebra o espelho. Que deixa de repetir a história da mãe e começa a escrever a sua.
Se The Gilded Age nos ensinou algo até aqui, é que mesmo os mais bem vestidos podem estar presos. E às vezes, o maior ato de liberdade é desobedecer em silêncio — ou amar quem a sociedade, e a própria mãe, dizem que não se deve amar.
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