O caso mais difícil de Only Murders in the Building (sem spoilers)

Sou fã de Only Murders in the Building desde o primeiro episódio, e sigo fiel mesmo quando a série começa a dar sinais de desgaste. Aliás, devo admitir, lembro de ter manifestado a preocupação com o desgaste na segunda temporada, mas ela me surpreendeu com ousadias de narrativa completamente inéditas na TV, me colocando de joelhos para pedir desculpas por qualquer questionamento criativo. Dito isso, concordo com a crítica do The Guardian que avalia justamente que o auge criativo parece ter ficado para trás — a terceira temporada tendo sido o ponto mais alto, ainda com momentos brilhantes na quarta —, mas discordo quando dizem que Meryl Streep não funciona em comédia. Para mim, o timing dela é impecável, e em meio às incertezas do rumo narrativo, é uma das presenças mais luminosas. Falarei mais sobre isso nos recaps, para evitar spoilers nessa primeira crítica.

A magia da série estava toda na estreia, quando a febre dos podcasts de true crime era um fenômeno cultural. A série soube capturar esse espírito com inteligência e humor: três personagens que jamais seriam amigos se unem pelo improvável e transformam suas vidas em uma investigação conjunta. Desde então, cada temporada trouxe, além do “crime principal”, episódios experimentais que se destacaram. A segunda pode ter parecido mais fria, mas nos deu capítulos inesquecíveis, como o contado sob a ótica da deficiência auditiva. A terceira foi uma explosão criativa: musical, teatro, drama e storytelling no auge. Já a quarta explorou a metalinguagem do cinema, equilibrando o luto de Charles, o amadurecimento de Mabel e os delírios sempre teatrais de Oliver.

Chegamos à quinta temporada com uma trama que sugere, desde o início, uma despedida. O arco se ancora na solidão de Charles, que vê os amigos seguirem em frente enquanto sua vida lhe parece vazia e solitária; em uma Mabel mais segura e integrada do que nunca; e em Oliver, que continua tão confuso quanto sua relação com Loretta. O ponto de partida é promissor: a morte de Lester, o porteiro, abre caminho para uma investigação que começa evocando a máfia nova-iorquina, com citações diretas a O Poderoso Chefão. Só que logo se desvia para um jogo letal de bilionários, intrigas passionais e cenas de ciúmes — tudo embalado pelo “overacting” que a série sempre soube usar a seu favor, mas que agora parece mais repetição do que invenção.

O que torna essa temporada diferente é o volume de novos personagens e a volta de alguns antigos. Entre herdeiros excêntricos, viúvas glamorosas, suspeitos improváveis e coadjuvantes que regressam para reacender memórias, o enredo se espalha em múltiplas direções. Isso exige mais atenção do espectador: a especulação sobre o assassino continua divertida, mas nunca foi tão trabalhosa. Pela primeira vez em cinco temporadas, dá a sensação de que o “quem matou” é quase um detalhe, não o motor da narrativa. Cheguei ao nono episódio com algumas pistas, mas o mistério central parece menos relevante do que o subtexto de despedida que paira sobre tudo.

O problema não está em repetir fórmulas — até porque esse sempre foi um dos charmes da série —, mas em não ousar mais. A cada ano tivemos episódios que quebravam a estrutura, reinventavam a linguagem, brincavam com a narrativa. Desta vez, não houve nada assim. O coração da série ainda bate, mas mais devagar.

Mesmo assim, Only Murders in the Building continua irresistível. Ainda é charmosa, ainda é divertida, ainda nos prende pelo carisma do trio Martin, Short e Gomez. Mas ao girar em torno de despedidas e reciclar os mesmos elementos sem o mesmo frescor, a série parece se aproximar de um fim — e, para quem a ama tanto, dói pensar que o adeus pode vir de forma menos ousada do que merecia.


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