A HBO Max me deu o melhor presente de Natal. Não apenas teremos duas jornadas de volta a Westeros, um documentário sobre o centenário de Mel Brooks e uma leva generosa de séries novas, como a plataforma antecipou o retorno da série pela qual sou obcecada: The Gilded Age. Sim, ela aparece oficialmente no line-up de 2026, o que quebra a estratégia tradicional da HBO de dar um intervalo de dois anos entre temporadas de suas franquias mais prestigiosas.
Há várias hipóteses para essa antecipação. A venda da Warner, iminente ainda que provavelmente só efetivada no fim de 2026; um buraco de programação que precisou ser preenchido com algo forte; alguma cláusula contratual específica. Especular é um jogo que me agrada. Seja qual for o motivo, agora fazem ainda mais sentido as entrevistas recentes do elenco comentando que os roteiros estavam a caminho. Não era wishful thinking: era verdade.

Claro que, por enquanto, quase nada existe em imagem. Os dois frames que aparecem no trailer vêm do baile de Newport, com Bertha Russell dançando feliz com George. Uma escolha curiosa — e até irônica — considerando que a temporada terminou justamente com a separação dos dois: Bertha em prantos em Newport, enquanto George retorna sozinho para Nova York, sem sequer saber que será avô.
O consenso entre fãs e observadores é que não haverá um grande salto temporal. Devemos avançar apenas alguns meses. Há casamentos para acontecer, bebês para nascer e muitas pontas soltas. Entre elas:
– O casamento de Peggy Scott e Dr. Kirkland, e o embate inevitável entre duas carreiras fortes e a interferência da mãe do médico, contrária à união.
– O casamento de fachada entre Oscar van Rhijn e Enid Turner-Winterton. Eles já são amigos, mas nada poderia ser mais perturbador para Agnes do que ver o filho se casar com uma ex-camareira — ainda mais depois de tudo o que isso significou na primeira temporada. A convivência entre essas duas mulheres pode ser surpreendentemente produtiva… ou explosiva. Tudo depende do quanto Agnes estará disposta a se enganar sobre a sexualidade do filho.


– O papel cada vez mais ativo de Agnes na New York Heritage Society.
– Larry e Marian: depois da crise que os separou, tentaram reatar? Conseguiram? Estão noivos? Ou aprenderam a existir apenas como amigos?
– Quem mandou matar George? A resposta parece óbvia, mas a investigação está em andamento.
– Bertha e George: reconciliação ou divórcio?
– Jack, agora rico: qual será sua nova invenção — e com quem ele vai se casar?
Paralelamente, a série entra num período historicamente riquíssimo. 1885–1886 é um ponto de virada.
A Estátua da Liberdade chega ao porto de Nova York em junho de 1885, desmontada em 214 caixotes, aguardando montagem em Bedloe’s Island. Ainda não é um ícone acabado; é uma promessa suspensa. Uma cidade inteira tenta se convencer de que liberdade e progresso são experiências compartilhadas — quando, na prática, não são. É difícil imaginar que isso não entre na temporada.
O mesmo vale para a conclusão do Hotel Chelsea (1883–1885), símbolo do impulso vertical da cidade. Nova York pulsa: trens elevados, teatros como o Wallack’s Theatre, salões culturais, ruas congestionadas por imigração contínua. Bairros como Five Points tornam-se epicentros de pobreza, tensão social e urgência humanitária.

Tudo isso acontece enquanto a cidade tenta se recuperar do fim da Depressão de 1882–1885, uma das crises econômicas mais severas do século 19 antes da Grande Depressão. O crescimento retorna, mas deixa marcas profundas. A prosperidade é seletiva. As feridas sociais permanecem abertas. E os debates sobre saúde pública, habitação e reforma urbana deixam de ser teóricos para se tornarem inevitáveis.
Há também marcos que ampliam o olhar da série para além da elite branca. Em 1885, Sarah E. Goode torna-se a primeira mulher afro-americana a registrar e receber uma patente nos Estados Unidos, graças à invenção da hideaway bed — uma cama dobrável pensada para apartamentos pequenos e superlotados. Não é um detalhe técnico: é uma resposta direta à Nova York que cresce para cima e aperta para dentro, empurrando populações negras e imigrantes para margens cada vez mais estreitas.
A movimentação pelo sufrágio feminino também tende a ganhar mais espaço, até porque contou com o envolvimento e o apoio de Alva Vanderbilt, inspiração direta para Bertha Russell. O movimento já é antigo nesse momento, organizado e politizado — não nascente, mas insistente.

Por fim, dois sinais claros de um mundo que começa a mudar de ritmo. Em 1885, Karl Benz constrói o Patent-Motorwagen, o primeiro automóvel movido a combustão interna. Ainda é uma curiosidade instável e inacessível, mas sua lógica é revolucionária: deslocamento individual, autonomia, velocidade sem tração animal. O automóvel nasce como promessa — assim como a Estátua da Liberdade ainda desmontada no porto.
No mesmo ano, John Kemp Starley apresenta a safety bicycle, a primeira bicicleta moderna. Barata, prática e transformadora, ela se dissemina rapidamente, redefinindo mobilidade urbana, lazer e costumes sociais — especialmente para mulheres, que passam a circular com mais autonomia. Uma inovação democrática num período profundamente desigual.
Agora, é esperar por mais notícias.
Mas convenhamos: a melhor já veio.
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