Enquanto Game of Thrones mantém, com certa tranquilidade, a coroa do pior final de série de todos os tempos, Stranger Things encerra seus nove anos de trajetória em um lugar mais ambíguo, longe do desastre absoluto, mas também distante da grandeza que parecia ao alcance. Não agradar a todos era inevitável. A campanha massiva de despedida, o tom de fim de era e a promessa de um encerramento “definitivo” criaram uma expectativa impossível de satisfazer por unanimidade. Ainda assim, começo 2026 surpresa com minha própria rabugentice: há mais problemas do que acertos nesse final. Poderia — e talvez devesse — ter sido muito melhor.


O maior mérito da série, e isso permanece até o último episódio, é a forma como o resgate dos anos 1980 nunca foi mero ornamento. A ausência de celular, GPS e internet não serve apenas à nostalgia, mas sustenta organicamente o mistério. Os riscos que a Geração X viveu sem saber que eram riscos ganham aqui uma leitura quase arqueológica: tudo é mais lento, mais perigoso, mais irreversível. A música, as roupas, a ingenuidade e até os silêncios compõem uma nostalgia com propósito, algo raro em um mercado que frequentemente confunde referência com repetição vazia. Nesse aspecto, Stranger Things sempre foi exemplar, e continua sendo.
O elenco jovem também permanece como um trunfo. A decisão de cercar atores iniciantes com veteranos sólidos deu peso emocional à fantasia e ajudou a tornar crível um universo que, no papel, poderia facilmente descambar para o artificial. Nem todos amadureceram como intérpretes da mesma forma, mas o conjunto funciona. Dustin sustenta o eixo intelectual da narrativa do início ao fim, Lucas cresce em presença e ação, Will ganha camadas simbólicas e até poderes que dialogam com sua sensibilidade sempre deslocada. O problema é que esse crescimento não foi distribuído de forma justa.
Mike, em especial, termina a série quase como um apêndice narrativo. Para um personagem que foi um dos grandes articuladores do grupo, um dos primeiros a acreditar em Eleven e um dos motores emocionais da história, sua apagada participação no episódio final soa como um erro estrutural. Faltou risco real, liderança e conflito. Até sua despedida romântica carece de impacto: a cena parece mais um “até logo” entre amigos do que o fechamento de uma história de amor que deveria carregar o peso de tudo o que foi vivido. A falta de química ali não é apenas um problema de atuação, mas de escolha dramática.


A decisão de manter Henry/Vecna como um vilão irredimível, convicto do mal que escolheu, foi um acerto. Em uma era obcecada por redenções e justificativas psicológicas, resistir à tentação de suavizar suas escolhas deu à série um antagonista com força simbólica real. Ainda que a mitologia acima dele — algo maior comandando tudo — seja confusa e pouco elegante, Vecna se sustenta como vilão em letra maiúscula. Funciona. O que não funciona é o entorno.
O episódio sofre com uma incapacidade gritante de síntese. A obsessão contemporânea por finais inchados atinge aqui seu ápice: duas horas que poderiam ser meia hora de história efetiva. O uso excessivo de slow motion transforma cenas simples em passagens arrastadas, lembrando que esse recurso, como minha irmã costuma dizer desde O Senhor dos Anéis, envelhece mal e rapidamente data a obra. Stranger Things consegue a proeza de esticar o tempo a ponto de o espectador olhar para o relógio e se perguntar “o que mais?”. Essa é uma pergunta que nenhuma obra quer provocar.
A trilha sonora, historicamente um dos pontos altos da série, também tropeça. Houve inúmeras oportunidades para recorrer ao tema original e reforçar o vínculo emocional com a própria identidade da obra, mas escolhas como o uso de Purple Rain, embora a música seja incontestavelmente genial, soam deslocadas. Em vez de amplificar a emoção, distraem. É como se a série, tão consciente de sua iconografia, tivesse duvidado dela no momento final.
Há ainda o problema do falso risco. O termo “plot armor”, popularizado por críticos e fãs em redes como TikTok e Reddit, nunca foi tão adequado. Se a série não pretende sacrificar personagens centrais, talvez não devesse construir suspense como se fosse fazê-lo. Em nenhum momento senti medo real por ninguém. O suposto sacrifício de Eleven, que se revela uma encenação — ela sobrevive, foge dos militares e rompe simbolicamente com todos que ama — é doce, coerente com sua trajetória de dor e isolamento, mas absolutamente previsível. Stranger Things nunca matou um protagonista, e o final não seria o momento de quebrar esse padrão sem ter preparado o terreno para isso.
Essa previsibilidade também esvazia personagens secundários que pareciam promissores. O caso da Dra. Kay é emblemático. A celebração em torno da entrada de Linda Hamilton na série cria uma expectativa que jamais se concretiza. Sua presença não eleva o risco, não aprofunda o conflito e termina quase constrangedora. Com o mundo literalmente se desfazendo, a obsessão militar em capturar Eleven e Kali soa burocrática e sem propósito dramático. Quando o exército entra em cena, fica claro que são apenas “camisas vermelhas”, ali para morrer no lugar dos protagonistas. Não há tensão, apenas ruído.

Por fim, é impossível ignorar a atuação de Millie Bobby Brown. Não é uma opinião popular, mas necessária: ela foi extraordinária ao surgir, mas, com o tempo, tornou-se uma atriz de uma única nota emocional. Isso limita Eleven justamente quando a personagem mais precisaria de complexidade interna. O resultado é uma protagonista que carrega o peso simbólico do sacrifício, mas não o conflito dramático à altura dele.
A cena final, no entanto, funciona. Reconhecer que os jogos no porão, os dados e as campanhas de D&D precisam ser guardados na estante para dar lugar à vida adulta é um gesto simples, bonito e genuinamente poético. Ali, Stranger Things encontra sua verdade: crescer é aceitar que certas coisas não desaparecem, apenas mudam de lugar. É um encerramento que emociona, sobretudo quem cresceu junto com a série.
Talvez o maior problema do final de Stranger Things não seja o que ele faz, mas o que evita fazer. Faltou coragem para perder, para cortar, para ferir. Em uma história que sempre falou sobre medo, trauma e amadurecimento, o adeus pareceu excessivamente protegido. Bonito, sim. Afetuoso, sem dúvida. Mas aquém da potência que essa série, por tantos anos, nos ensinou a esperar.
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