Practical Magic 2: filhas, legado e o retorno das Owens

Não fiquei acompanhando passo a passo dos bastidores de Practical Magic 2, mas agora que o trailer do filme foi mostrado na Cinemacon, em breve estará público e veremos pela primeira vez como as Owen Sisters voltam quase 25 anos depois. Mas posso confessar? Mais curiosa do que reencontrar Nicole Kidman e Sandra Bullock novamente, quero ver a química das duas novas bruxas do pedaço: Joey King e Maisie Williams, interpretando a nova geração das irmãs Owen.

As duas não apenas são atrizes populares e reconhecíveis, capazes de atrair diferentes gerações de público, mas a própria presença delas já indica uma mudança de eixo que o filme parece disposto a assumir: a história deixa de ser sobre irmãs tentando sobreviver a uma maldição e passa a ser, inevitavelmente, sobre filhas que crescem dentro dela.

King vem de um período particularmente visível, consolidado entre projetos de grande alcance no streaming e escolhas mais dramáticas que reforçam sua versatilidade, enquanto Williams, marcada de forma indissociável por Game of Thrones, construiu nos últimos anos uma carreira mais seletiva, interessada em personagens que exploram limites psicológicos e identidades em transformação, como o de Catherine Dior, em The New Look.

E ainda tem um detalhe que não passa despercebido e que adiciona uma camada quase metalinguística a esse encontro: Joey King já interpretou a filha de Nicole Kidman em The Family Affair, o que cria uma espécie de continuidade simbólica que se desloca agora para outro universo, reforçando a ideia de transmissão geracional que Practical Magic 2 parece querer explorar.

Essa mudança de perspectiva altera a forma como revisitamos o universo apresentado em Practical Magic, já que a sequência não parte de um recomeço, mas de um acúmulo, com a casa à beira do penhasco reconstruída e com a sensação de que o passado não foi superado, apenas reorganizado em novas camadas que continuam a interferir na vida das personagens.

Sally Owens, novamente interpretada por Sandra Bullock, surge agora como mãe de duas filhas e ainda solteira, uma condição que carrega um peso quase inevitável para quem conhece a maldição que atravessa a família, enquanto Gillian, vivida por Nicole Kidman, permanece presente, mas deslocada para uma posição que é ao mesmo tempo familiar e nova, já que deixa de ser apenas a irmã para assumir o papel de tia, o que altera a dinâmica emocional e narrativa ao transformar o que antes era espelho em influência.

As personagens de King e Williams, nesse contexto, não vivenciam a descoberta da magia como aconteceu com Sally e Gillian, mas crescem com a consciência de que ela existe, o que torna o conflito menos sobre aceitar ou rejeitar um legado e mais sobre como lidar com algo que nunca foi uma escolha, especialmente quando esse legado carrega a ideia perturbadora de que amar pode ser fatal. Essa consciência precoce desloca o drama para um território mais silencioso e mais complexo, no qual o peso da herança não se apresenta como revelação, mas como condição de existência, criando uma tensão que não depende de grandes eventos, mas da inevitabilidade do que já se sabe.

O retorno de Sandra Bullock e Nicole Kidman funciona, portanto, menos como um gesto nostálgico e mais como um ponto de continuidade emocional, reforçado também pela presença de Dianne Wiest e Stockard Channing, que retornam como as tias Jet e Franny e mantêm intacta a estrutura familiar que sempre definiu a história das Owens, agora ampliada para três gerações que coexistem no mesmo espaço.

Ao mesmo tempo, a entrada de nomes como Lee Pace, Xolo Maridueña e Solly McLeod indica uma expansão do universo, com destaque para a forma como o personagem de Pace já é introduzido, atravessado pela maldição, sintetizada na ideia de que todos os que amam acabam morrendo, enquanto Gillian responde com o humor ácido que sempre funcionou como contraponto à tragédia.

No filme original, Sally já era mãe de duas meninas, interpretadas por Evan Rachel Wood e Alexandra Artrip, e a decisão de trazer novas atrizes para essas personagens na sequência sugere menos uma preocupação com continuidade literal e mais uma tentativa de reinterpretar essa nova geração, como se a história estivesse sendo contada novamente a partir de um outro ponto de vista, mais interessado no significado da herança do que na fidelidade a rostos específicos. Essa escolha, que poderia parecer apenas prática, acaba funcionando como um comentário implícito sobre a própria natureza das narrativas familiares, que se transformam a cada geração mesmo quando preservam seus elementos centrais.

Há ainda uma camada inevitável que ultrapassa a ficção, já que Sandra Bullock e Nicole Kidman retornam a essas personagens em um momento completamente diferente de suas trajetórias, depois de décadas de protagonismo, reconhecimento e reinvenção na indústria, o que altera a forma como Sally e Gillian são percebidas e interpretadas. Se antes eram mulheres tentando entender seus próprios limites, agora carregam o peso do tempo e da experiência, o que torna esse retorno menos sobre repetição e mais sobre ressignificação.

Nesse sentido, Practical Magic 2 parece menos interessado em recuperar o passado e mais em entender o que resulta dele, especialmente quando esse passado deixa de ser uma história pessoal e passa a ser uma herança compartilhada, transmitida de forma quase inevitável de uma geração para outra, transformando a magia em algo que não está apenas no feitiço, mas naquilo que se carrega, mesmo quando não se escolhe.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário