Como publicado no Blog do Amaury Jr./ Splash UOL
O cinema brasileiro em geral se destaca em comédia ou drama, mas são poucos os filmes de ação – com qualidade – que chegam aos cinemas. Menos ainda, com duas protagonistas femininas. Sendo assim, a produção da Disney, Rio de Sangue, já se destaca. Ele traz Giovanna Antonelli, Alice Wedman, Antonio Caloni e Felipe Simas em uma trama cheia de reviravoltas que transita por família, lealdade e compromisso, passando por questões de narcotráfico, meio ambiente, garimpo e cultura indígena brasileira. Tudo amarrado com a precisão do diretor Gustavo Bonafé.

Antes de qualquer cena de ação, Rio de Sangue se organiza a partir de uma ruptura. Uma mulher perde o que definia sua identidade, uma filha segue um caminho que a afasta desse passado e, entre as duas, existe um espaço que não foi resolvido, apenas adiado. O thriller começa aí, nesse intervalo emocional, e não apenas no momento em que a violência irrompe.
Rio de Sangue e parte de uma estrutura conhecida — uma missão de resgate —, mas desloca o foco para algo menos evidente: o que acontece quando essa jornada é atravessada por uma relação quebrada que precisa, ao mesmo tempo, sobreviver e se reconstruir. Ao levar essa história para fora do eixo urbano, entre Santarém e o Alto Tapajós, o longa incorpora o território não apenas como cenário, mas como tensão constante, atravessado por questões reais como o garimpo ilegal e a presença das populações indígenas.
Na conversa com Giovanna Antonelli, Alice Wegmann e Felipe Simas, essa dimensão aparece de forma direta. O que poderia ser apenas um filme de ação é descrito por eles como uma experiência de deslocamento — físico, emocional e até espiritual — em que a intensidade das cenas convive com um processo de transformação pessoal. Filmado por semanas na região Norte, o projeto surge, ao mesmo tempo, como um desafio técnico e como uma tentativa de olhar para o Brasil sem mediações fáceis.


Ao longo do papo a seguir, o trio fala sobre escolhas de carreira, sobre o peso de personagens que não pedem empatia imediata e sobre o impacto de atuar em um ambiente onde a ficção, em alguns momentos, parece se aproximar demais da realidade
MISCELANA- Como esse projeto chegou para vocês e o que motivou a escolha?
Giovanna Antonelli: Eu recebi o roteiro do Gustavo Bonafé, nunca tinha trabalhado com ele antes. A gente conversou e ele me disse: “Giovanna, eu tenho um personagem, você pode ler?”. Eu li e me apaixonei, porque adoro thrillers de ação. Quando vi, pensei: “Como vão filmar isso em cinco semanas?”. É um filme muito rico em ação. E ele ainda falou que queria que me vissem de um jeito que nunca tinham visto na minha carreira. Aquilo me provocou. Foi a oportunidade de sair de uma caixinha, de fazer minha estreia no gênero com duas mulheres protagonizando esse tipo de história, com esse pano de fundo de amor entre mãe e filha.
Alice Wegmann: O convite chegou pelo meu empresário, como uma consulta de disponibilidade. Quando ele falou que era dirigido pelo Gustavo Bonafé e que seria filmado no Pará, eu já quis fazer antes mesmo de ler. Meu trabalho já tinha me levado a quase todas as regiões do Brasil, só faltava o Norte. E foi aí que Rio de Sangue entrou na minha vida. Filmamos dois meses entre Santarém e Alter do Chão, e foi transformador. Eu estava buscando personagens com propósito, que me colocassem em lugares novos. E essa personagem trouxe isso tudo — além de ser médica, algo que eu nunca tinha interpretado.
Felipe Simas: Eu recebi o convite para fazer um teste online, que é uma das piores coisas que existem para um ator. A gente depende do olhar, da respiração do outro. Ali, eu pensei: “Não vou fazer esse filme nunca”. E passei. Fiquei muito feliz, porque o Baleado é um vilão sedutor — não no sentido sexual, mas pessoal. Ele vai para a loucura, mas tem esse traço. São poucos personagens que permitem entrar nesse lugar. Eu fui muito feliz fazendo.
MISCELANA- O antagonista sempre traz uma complexidade. Qual era o propósito do Baleado?
Felipe Simas: Eu acho que todo ser humano carece de aprovação. E, na falta dela, vai buscar nas referências ao redor. Ele precisava da aprovação do tio, queria provar que era o herdeiro daquele território, mesmo olhando para o primo e vendo que ele não tinha essa conexão com o garimpo. Existem um amor e um ódio ali. E, na ausência do tio — sem dar spoiler — parece que ele é tomado por esse mesmo espírito de domínio. O brilho muda. Já não tem mais quem o limite.
MISCELANA- Giovanna, é impossível não notar esse equilíbrio entre feminilidade e dureza na Patrícia. Como você construiu isso?
Giovanna Antonelli: O que mais me atraiu nela é que ela é apresentada com erro. É uma anti-heroína. Ela não faz esforço para agradar o público. E isso é raro, porque muitos personagens são construídos para conquistar o espectador. Aqui não. Ela está em sobrevivência. É uma mulher que ruiu e precisa se reinventar. A relação com a filha também não é rasa — são duas pessoas muito diferentes, que não tentam se agradar. Precisaram de um evento extremo para se reconectarem. Eu gosto dessa imperfeição, porque torna tudo mais humano e mais identificável.
MISCELANA- As cenas de ação impressionam. Como foram feitas?
Giovanna Antonelli: É importante dizer que as armas eram descarregadas. Tudo foi inserido na pós-produção. Então você precisa interpretar sem o som real, reagindo a comandos. Exige muita concentração e coordenação.
Alice Wegmann: Muitas vezes a gente recebia instruções pelo rádio.
Felipe Simas: Direita! (risos)
Giovanna Antonelli: É difícil, mas é uma delícia. A gente se diverte muito.
MISCELANA- Sair do ambiente urbano e filmar em meio à natureza muda tudo. Como foi essa experiência?
Alice Wegmann: Para mim, tinha algo de pedir licença. Licença para entrar no rio, na mata, no igarapé. É um espaço muito maior do que a gente, com uma força espiritual muito presente. Foi especial porque, mesmo nas cenas mais tensas, no corte a gente brincava, ria. A Giovanna sempre traz leveza. E qualquer respiro era um presente — olhar para aquela floresta, para os animais. Foi um período transformador.
Giovanna Antonelli: Nada disso seria possível sem a paixão pelo que fazemos. Estar ali é um privilégio. O que poderia ser visto como dificuldade, para a gente era um presente. Fazer cinema também é uma ferramenta social. E quando você está apaixonado pelo que faz, tudo ganha outro sentido. A gente até brincava: “Vamos fazer Rio de Sangue 2”.

MISCELANA- E o convívio com os povos indígenas?
Alice Wegmann: Foi muito especial. Fomos muito bem recebidos, com muito cuidado de ambos os lados. Filmamos com os Munduruku, e há um respeito muito grande ali. O filme traz essa denúncia da exploração da Amazônia, do garimpo ilegal, do extermínio das populações indígenas. A presença deles é fundamental, e o filme também dá protagonismo a isso — a narração é feita pelo Fidelis, por exemplo.
Giovanna Antonelli: Eu sempre tive paixão por conhecer culturas. Desde O Clone, isso me atravessa. Estar ali foi uma conexão espiritual. Eu tenho uma relação forte com a natureza — planto árvores há mais de 20 anos, tenho meliponário. Esse filme entrou e saiu da minha vida várias vezes, e em determinado momento eu entendi que era porque eu precisava estar ali. Eu acredito muito nisso: estar onde preciso estar.
Felipe Simas: Para mim, houve um momento muito forte. Durante uma cena na aldeia, os indígenas estavam assistindo, e o meu personagem falava coisas muito duras, opressoras. Aquilo me pesou. Foi o único momento em que saí do set carregado, porque a ficção estava sendo ouvida por quem vive aquela realidade.
MISCELANA- O que vocês levam dessa experiência?
Felipe Simas: Uma conexão maior com a natureza, com a simplicidade de existir. Volto com mais consciência da nossa fragilidade e da nossa ligação com a Terra.
Giovanna Antonelli: Conexão — com o todo e com as pessoas.
Alice Wegmann: Brasilidade. É um filme que fala do nosso Brasil.
MISCELANA- E uma continuação?
Giovanna Antonelli: Claro. Para onde? Quando?
Alice Wegmann: Já pode marcar.
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