É solitário ver uma série que você considera maravilhosa se perder e perceber que talvez só você esteja vendo isso. Hacks parece correr atrás de um propósito, quase como metalinguagem do que sua protagonista vive. O narcisismo de Deborah Vance, com suas pitadas de histeria, leva a última temporada a uma espiral intensa, a situações tão bizarras quanto inverossímeis, onde raramente conseguimos sorrir, menos ainda rir.
Basicamente, depois de se autodestruir e arruinar vidas, amizades e carreiras, Deborah tenta a todo custo reverter a consequência jurídica de um contrato que a tiraria do circuito por alguns anos, tempo suficiente para ser esquecida. E acabar. De novo: ela cavou o próprio problema, mas aqui está criando novos conflitos para se sentir viva, no comando, ou seja lá o que isso ainda significa. Há uma trama potencial aí. O que vemos, no entanto, é uma sucessão de constrangimentos orquestrados por Deborah Vance.
E pode piorar.

O trunfo de Hacks sempre foi Jean Smart. Mas, por alguma razão, a série virou um ensemble no pior sentido: todos precisam estar em tudo, o tempo todo. Por que Deborah precisa ir à reunião no Madison Square Garden com a redatora, os agentes, a assistente deles e seus próprios assistentes pessoais? Andar por Nova York em bando? Enfim, fica claro que este recap parte do mau humor. E estamos apenas no segundo episódio.
Depois de anunciar que vai se apresentar no Madison Square Garden, Deborah precisa fazer o caminho inverso: pedir desculpas à diretora de programação e, pior, convencê-la de que ainda tem relevância para ocupar aquele palco. Não basta história, dinheiro ou intenção. É preciso estar no centro da conversa cultural. E Deborah, apesar de tudo, não está.
A resposta é recuar um passo e tentar reorganizar o jogo. Deborah decide acionar seus fãs para pressionar Amanda Weinberg. Os Little Debbies deixam de ser pano de fundo e passam a ocupar o centro da narrativa. Eles vão colocá-la no Madison Square Garden.
De volta a Las Vegas, em uma convenção de fãs, o que começa como celebração rapidamente se transforma em acerto de contas. O que aparece ali não é devoção, mas ressentimento. Deborah não apenas se distanciou, ela abandonou uma comunidade que, durante anos, organizou sua própria identidade em torno dela.
As reclamações são absurdas, específicas, às vezes cômicas, mas nunca irrelevantes. Falam de newsletters que deixaram de existir, de produtos esquecidos, de códigos internos que perderam continuidade. O detalhe importa porque revela o tipo de vínculo construído: não é apenas admiração, é pertencimento. E, quando esse pertencimento é interrompido, o que surge não é indiferença, mas sensação de traição.
É uma crítica de mão dupla da cultura contemporânea, que aproximou celebridade e público a ponto de transformar atenção em relação. O fã não quer apenas assistir. Quer ser considerado.
Deborah alimentou essa dinâmica por anos. Agora precisa lidar com o custo.
O ponto de virada vem de forma curiosamente silenciosa, em um dos momentos mais bonitos do episódio. Uma fã entrega um retrato feito à mão, construído com a mãe que morreu antes de poder vê-la pessoalmente. O objeto é feio, desajeitado, mas carrega algo que Deborah havia perdido de vista: tempo, dedicação, afeto.
A carcaça cínica de Deborah quebra — o narcisismo, não — quando ela entende que essa relação nunca foi unilateral. Existe uma negociação implícita ali. Eles sustentam, ela aparece. Eles projetam, ela responde. Quando um dos lados rompe esse pacto, o outro reage.
Como tudo precisa passar por ela, Deborah assume sua falha com o público. Assume vulnerabilidade e admite que precisa deles, não como estratégia, mas como reconhecimento.

O efeito é imediato. A indignação dos fãs diante da possibilidade de ela perder relevância se reorganiza em defesa. A mesma energia que antes era cobrança vira mobilização. O movimento “Deb for MSG” toma conta de tudo, do correio aos espaços físicos, numa demonstração quase absurda — e, ao mesmo tempo, totalmente plausível — de como fandoms operam como força coletiva.
O episódio poderia encerrar aí, mas escolhe ampliar a discussão através de Ava.
Se Deborah representa o peso de uma carreira construída sobre o público, Ava encarna outra coisa: a possibilidade de uma relação mais íntima, mais direta, mais perigosa. Ao longo do episódio, ela experimenta, ainda que brevemente, o lugar de ser reconhecida, admirada, seguida. E entende, quase ao mesmo tempo, o quanto isso pode ser ilusório. Porque, no fim, o que a “sua” fã queria era acesso a Deborah.
Aproveitando o aniversário de 30 anos de Ava, Deborah — ainda carregando a culpa pelas conversas duras na Tailândia — organiza uma festa em sua homenagem.
As duas têm, desde o início, uma relação simbiótica: ora maternal, ora neurótica, nunca romântica. E, nessa festa, Deborah admite que se afastou dos fãs porque encontrou em Ava uma forma de preencher um vazio antigo. Durante anos, não teve relações que não fossem mediadas por trabalho ou admiração. Ava surge como exceção. E, como toda exceção em um sistema estruturado por troca, desloca o equilíbrio.
O fato de Deborah ter conquistado a admiração de Ava ao longo do caminho tem um peso interno real para ela. Quando Ava diz que é sua “fã número um”, a frase não soa apenas como carinho. Ela reorganiza tudo o que vimos até ali.

Porque, no fundo, é disso que o episódio trata. Não de fãs, não de carreira, não de Madison Square Garden. Mas da dificuldade de sustentar relações que não sejam estruturadas por troca, projeção ou necessidade.
Hacks sempre foi uma série sobre trabalho, ego e sobrevivência. Aqui, se aproxima de algo mais delicado: o que acontece quando o afeto entra nesse sistema.
E, mais importante, o que acontece quando ele começa a substituir todo o resto.
Pena que ainda esteja derrapando.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
