Depois do mega sucesso da temporada de estreia, a expectativa para a segunda temporada de Beef (Treta) era gigantesca. Espertamente, ela não tenta repetir, passo a passo, o que fez da primeira um fenômeno. Quer dizer, até há a treta que dá início ao conflito e à obsessão que ela desencadeia, mas agora o eixo da série se desloca para um território mais próximo de uma colagem de referências — algo entre Black Mirror, The White Lotus e até The Beauty. E, assume, sem qualquer concessão, que seu objetivo não é agradar, e sim incomodar.
E isso fica especialmente evidente no final. Aqui, meu parecer com spoilers.

Antes de tudo: o que está em jogo em Beef 2
Perdoem minha irritação, mas é o resultado de reagir ao conteúdo. Se havia algo interessante na estreia da franquia, era justamente o exemplo cotidiano — uma briga de trânsito — que escala para uma tragédia maior e se transforma em espiral emocional. Aqui há um mistério, uma distopia e motivações que não soam realistas.
A segunda temporada abandona completamente os personagens originais e apresenta uma nova história, centrada em dois casais que ocupam lugares opostos na hierarquia social.
Ashley (Cailee Spaeny) e Austin (Charles Melton) são um jovem casal que trabalha em um country club de elite na Califórnia. É ali que eles testemunham um momento-chave: uma discussão violenta entre o chefe deles, Josh (Oscar Isaac), e a esposa, Lindsay (Carey Mulligan), um casal rico cuja relação já está em colapso.
O que poderia ser apenas um episódio privado vira ponto de partida para toda a temporada. Ashley e Austin decidem usar o que viram como moeda de troca, inicialmente como uma forma de ascensão, tentando melhorar suas posições dentro daquele universo. Mas rapidamente isso se transforma em um jogo de chantagem.

A partir daí, a narrativa entra em espiral. Josh e Lindsay, já fragilizados, passam a reagir à ameaça enquanto tentam manter as aparências. Ao mesmo tempo, o controle da situação escapa de todos os lados, porque cada personagem começa a agir movido por interesses próprios, financeiros, emocionais ou simplesmente destrutivos.
Esse jogo se complica ainda mais com a chegada da nova dona do clube, a bilionária Chairwoman Park (Youn Yuh-jung), que acrescenta uma nova camada ao conflito. Ela também vive um relacionamento instável e carrega questões paralelas, ampliando o alcance da trama.
E aqui entram os spoilers que realmente redefinem a temporada: Park não é apenas uma figura de poder distante. Ao longo dos episódios, fica claro que o casamento dela com o marido médico está atravessado por interesses financeiros, dependência e segredos que também podem ser explorados. Assim como Ashley e Austin tentam usar o que sabem sobre Josh e Lindsay, a própria Park se vê vulnerável a um jogo semelhante.
O que começa como uma chantagem localizada dentro do country club se espalha. A dinâmica de controle passa a circular entre todos: Ashley e Austin pressionam Josh e Lindsay, que reagem tentando proteger suas posições, enquanto Park opera em outro nível, manipulando situações para preservar sua imagem e seu império, ao mesmo tempo em que precisa lidar com a possibilidade de também ser exposta.

Na parte final da temporada, essa rede se expande ainda mais quando a narrativa sai dos Estados Unidos e vai até Seul, conectando os interesses empresariais de Park ao colapso pessoal dos outros personagens. O conflito deixa de ser apenas íntimo ou social e ganha uma dimensão mais ampla, envolvendo dinheiro em larga escala, reputação global e consequências que ultrapassam aquele microcosmo inicial.
É nesse ponto que a série revela o que está realmente fazendo: não se trata mais de uma briga ou de um jogo de chantagem, mas de um sistema onde todos estão, em maior ou menor grau, tentando explorar as fragilidades uns dos outros, e inevitavelmente sendo engolidos por isso.
E isso fica especialmente evidente no final.
O final explicado (com spoilers)
O último episódio não oferece catarse e isso é fundamental para entender o que Beef quer fazer aqui.
Ao longo da temporada, os personagens são empurrados para situações cada vez mais extremas, com reviravoltas que parecem deliberadamente excessivas. Segredos vêm à tona, alianças se desfazem, relações são reconstruídas apenas para serem destruídas novamente. Há uma sensação de repetição estrutural, como se todos estivessem presos a padrões que não conseguem romper.

No episódio final, em vez de resolver essas tensões, a série faz algo mais desconcertante: ela revela que não há resolução possível dentro daquele universo emocional.
Os confrontos finais — físicos ou psicológicos — não levam a uma transformação real. O que vemos é, no máximo, um reconhecimento momentâneo da própria miséria emocional.
E mesmo isso é instável.
Os personagens até parecem entender, por um instante, o que os move — ressentimento, inveja, frustração, desejo de validação —, mas essa consciência não se traduz em mudança. Não há redenção. Não há aprendizado no sentido clássico.
O final, portanto, não fecha a história. Deliberadamente, deixa o gosto amargo na boca.
E talvez seja justamente esse o ponto: o conflito em Beef não é resolvível porque ele é estrutural, não circunstancial.

A “mensagem”
Aqui Beef 2 se aproxima de The Beauty, ainda que sem a cafonice assumida da série de Ryan Murphy. Na conspiração da indústria da beleza, o motor do consumo está nos traumas não resolvidos de cada personagem. É isso que os torna vulneráveis, é isso que os move, mesmo quando não percebem.
Vale, sim, uma matéria à parte para destrinchar cada um desses traumas. Mas, ao escolher esse caminho, Beef 2 reduz o que poderia ser mais complexo. Em vez de trabalhar o desconforto como algo difuso, reconhecível, quase íntimo, opta por uma explicação mais direta, mais organizada e, por isso mesmo, menos interessante.
A ambiguidade se perde. E, com ela, a força. O desfecho não incomoda porque revela algo inevitável. Incomoda porque parece decidido de antemão.
Ainda assim: atuações e prêmios
Mesmo com essa distância emocional, é impossível ignorar o nível das atuações.
O elenco trabalha com um material difícil, muitas vezes antipático, e ainda assim entrega nuances que sustentam a série. Há um domínio de tom impressionante, especialmente na forma como transitam entre o absurdo, o trágico e o quase grotesco.
É o tipo de performance que costuma ser reconhecido.
E, olhando para o cenário atual, a pergunta é inevitável: qual série, em 2027, compete diretamente com Beef nesse campo?
Poucas.
A trilha de Finneas: emoção onde a narrativa nega
Há momentos em que a música sugere uma profundidade afetiva que os personagens não conseguem acessar. Como se a trilha estivesse sempre um passo à frente deles.
E talvez seja aí que Beef 2 encontra seu gesto mais interessante: a emoção existe, mas não está disponível para quem vive a história, apenas para quem a observa.

Entre a admiração e o distanciamento
No fim, a segunda temporada de Beef é coerente com sua proposta de ser incômoda, mas também é mais fria, mais fragmentada e menos envolvente do que a primeira.
É possível admirar o que a série faz — sua recusa em oferecer conforto, sua estrutura deliberadamente desconstruída, suas atuações — e, ao mesmo tempo, não se conectar. Ou até rejeitar, como foi o meu caso.
E talvez essa seja a contradição central: ao tentar ampliar seu escopo, Beef se aproxima de caminhos que outras séries já exploraram com mais precisão. Perde parte da sua singularidade nesse processo.
Ainda assim, continua sendo uma das séries mais interessantes do momento.
Só deixou de ser uma das mais envolventes.
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