Beef 2: por que a trilha de Finneas O’Connell é o melhor da nova temporada

Mais uma vez aviso: sei que estarei sozinha por considerar que a segunda temporada de Beef se fragmenta na narrativa, mas existe um elemento que permanece surpreendentemente consistente do início ao fim: a trilha sonora assinada por Finneas O’Connell.

E não se trata apenas de gosto ou de repertório. Trata-se de entendimento.

Finneas compreende algo essencial sobre Beef que a própria temporada, em alguns momentos, parece esquecer. Essa é uma história sobre tensão silenciosa, sobre ressentimentos que não explodem de imediato, sobre um mundo onde o desconforto é contínuo, quase estrutural. É exatamente isso que sua música traduz.

De Disclaimer a Beef: o caminho até aqui

Embora muita gente ainda associe Finneas exclusivamente ao trabalho com sua irmã, Billie Eilish, Beef 2 está longe de ser um experimento isolado.

Seu primeiro trabalho relevante como compositor para televisão foi Disclaimer (Apple TV), em 2024, uma experiência que já indicava seu interesse por atmosferas densas e psicológicas, onde o som não ilustra a cena, mas a tensiona. Antes disso, ele já havia composto para o cinema, em The Fallout, e, sempre orbitando personagens emocionalmente instáveis, relações quebradas e narrativas em que o silêncio pesa tanto quanto o diálogo.

Beef 2 surge, nesse sentido, como uma continuação natural, mas também como um salto de escala. Aqui, ele trabalha com mais tempo, mais camadas e uma exigência maior de coerência interna. O resultado são 32 faixas originais, construídas a partir de uma abordagem eletrônica, densa e fragmentada, desenvolvida ao longo de centenas de horas de experimentação.

A escolha de Finneas, aliás, não foi apenas estratégica, mas profundamente emocional. Lee Sung Jin, criador da série, chegou até ele a partir de uma relação direta com sua música, especialmente depois de ouvir What Was I Made For? em Barbie. Foi ali que identificou a capacidade de atingir o tipo de ressonância emocional que buscava, sobretudo para o desfecho da temporada.

A lógica da trilha: ansiedade como linguagem

O ponto mais interessante do trabalho de Finneas não está apenas no som, mas na lógica que organiza esse som. Ele não parte de temas bonitos, mas de ideias dramáticas.

Existe uma progressão clara ao longo da temporada. A música começa com uma espécie de otimismo ingênuo, quase deslocado, e aos poucos se contamina por tensão, ruído e instabilidade. Esse “otimismo burro”, como ele próprio descreve ao pensar no casal mais jovem, se transforma em linguagem sonora. Não é apenas o que os personagens dizem, mas o que a trilha sugere sobre eles.

Isso se materializa em escolhas muito específicas. O uso de sintetizadores imperfeitos, quase amadores, se conecta diretamente ao personagem de Oscar Isaac. Sons captados no mundo real, como sistemas de irrigação de campos de golfe, são transformados em base rítmica. Texturas que evocam enxames criam uma sensação de tensão constante, algo que nunca se resolve completamente.

Antes mesmo da temporada estar completamente escrita, Finneas já operava nesse nível de construção. A partir dos primeiros roteiros, compôs Vicious Thoughts, uma peça que não apenas acompanharia a narrativa, mas ajudaria a defini-la. Ao ouvir a música, Lee Sung Jin visualizou o momento final da temporada com uma clareza quase imediata, como se a trilha tivesse antecipado a própria imagem.

Não é uma trilha que busca elegância. É uma trilha que busca fricção.

Hot Chip, LCD Soundsystem e a curadoria emocional

Se o score original constrói a atmosfera, as músicas escolhidas fazem outro movimento, mais ligado à construção emocional dos personagens dentro de um mundo reconhecível.

A segunda temporada abandona o grunge da primeira e mergulha em um território mais contemporâneo, onde eletrônico, indie e pop coexistem com naturalidade. Hot Chip aparece como uma espécie de eixo recorrente, e isso não acontece por acaso. Dentro da narrativa, o próprio personagem de Oscar Isaac é fã da banda (assim como eu!), o que transforma essa escolha em algo diegético, não apenas curatorial.

Mas o que torna esse trabalho particularmente interessante é o modo como ele nasce integrado à própria escrita da série. Diferente de muitas produções, em que as músicas são escolhidas apenas na montagem, Beef 2 constrói seus “needle drops” desde o início. Lee Sung Jin escreve já pensando nessas canções, inserindo-as ainda no desenvolvimento dos episódios, enquanto Finneas recebe antecipadamente as faixas que encerram cada capítulo para que sua trilha dialogue diretamente com elas.

Essa lógica ajuda a explicar a sensação de unidade. LCD Soundsystem surge nos momentos de suspensão emocional, enquanto Disclosure e Zedd apontam para um universo mais polido, quase aspiracional. Billie Eilish aparece em camadas, ora íntima, ora irônica, criando um jogo meta inevitável. Father John Misty, Phoenix e Future Islands entram quando a série desacelera e permite algum tipo de contemplação.

Existe ainda uma dimensão geracional muito clara nesse conjunto. A temporada trabalha uma espécie de nostalgia recente, tratando os anos 2010 como outras gerações trataram os anos 1990. Para os personagens mais velhos, referências como LCD Soundsystem e Hot Chip não pertencem a um passado distante, mas a um tempo que parece próximo demais, o que cria um deslocamento sutil entre memória, identidade e percepção do próprio envelhecimento.

A presença de Hot Chip, nesse sentido, ultrapassa a trilha e entra na própria encenação. A banda aparece na narrativa, performando ao lado do personagem de Oscar Isaac em um momento que mistura nostalgia, excesso e colapso emocional, transformando uma escolha musical em elemento dramático.

Não é uma playlist construída para soar “cool”. É uma seleção que expõe contradições.

O detalhe mais inteligente: Billie Eilish como comentário

A presença de Billie Eilish poderia facilmente soar como excesso. Não soa, porque Finneas entende o humor e o desconforto da própria inserção.

Há um momento particularmente revelador em que ele próprio aparece na série, e a música de Billie surge de forma quase constrangedora, autoconsciente, irônica. A trilha deixa de ser apenas acompanhamento e passa a funcionar como comentário.

E talvez seja esse tipo de camada que falte à narrativa em outros momentos da temporada.

Uma trilha que entende mais do que a própria série

No fim, o que torna a trilha de Beef 2 tão eficaz é algo simples de formular e difícil de executar. Ela sabe exatamente que história está contando.

Enquanto a temporada oscila entre ambição e dispersão, a música mantém um eixo claro. Ela constrói tensão, sustenta desconforto e, sobretudo, evita explicar demais. Existe um espaço que ela preserva, e é nesse espaço que a série, em seus melhores momentos, ainda respira.

No fundo, há um movimento curioso. Enquanto a série tenta organizar suas tensões em múltiplas direções, a música opera no sentido contrário, concentrando, antecipando e, em alguns momentos, até guiando a experiência emocional.

Talvez por isso funcione tão bem. Em uma temporada que muitas vezes parece calculada demais, a trilha de Finneas soa como a única coisa verdadeiramente orgânica.

E, ironicamente, é ela que devolve à série algo que a primeira temporada tinha de forma mais natural: a sensação de que o caos não é um efeito, mas o estado permanente dessas vidas.


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