Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL
Todo o hype em torno da biografia de Michael Jackson, há anos esperada para chegar aos cinemas, faz de Michael um evento. O filme funciona e funciona bem em um nível muito específico, como uma obra pensada tanto para apresentar Michael Jackson a novas gerações quanto para resgatar a emoção de quem cresceu com ele sendo a maior estrela pop do mundo.
E, nesse sentido, há algo de absolutamente verdadeiro no que está na tela.
Michael Jackson ainda é único em termos artísticos, mesmo quase vinte anos após sua morte. A afinação perfeita, o carisma no palco, a precisão quase obsessiva dos movimentos, a inteligência nas escolhas musicais, a construção visual de cada era, tudo isso aparece com força suficiente para lembrar que não se trata apenas de nostalgia, mas de um artista que operava em um patamar raro mesmo dentro da indústria que ajudou a moldar. Ele sempre foi gigantesco.

Mas é justamente aí que o filme começa a revelar seus limites.
Michael é um filme chapa branca em um grau que vai além da polêmica. Não se trata apenas do que ele escolhe não mostrar, mas do quanto simplifica inclusive aspectos que não estão diretamente ligados às controvérsias. A passagem da pobreza em Indiana até o sucesso dos Jackson 5 acontece de forma acelerada, quase comprimida, como se a trajetória inicial pudesse ser resolvida em poucos minutos. A narrativa recorre constantemente a montagens musicais porque a tentação de incluir os grandes sucessos se impõe sobre a construção dramática, transformando momentos que poderiam ser densos em uma sequência eficiente, porém superficial, de clipes.
Claro, é um filme dramatizado e não um documentário investigativo, e com isso as expectativas deveriam estar alinhadas. Ainda assim, mesmo dentro da proposta de homenagem, figuras fundamentais acabam esvaziadas. A irmã caçula de Michael, Janet, sequer é citada em cena. Diana Ross, que foi uma inspiração e madrinha dos Jackson 5, aparece em um piscar de olhos, quase decorativa, como se não houvesse espaço para desenvolver relações que ajudariam a complexificar a história.

O filme escolhe um eixo claro para se organizar e esse eixo é o pai. Joseph Jackson surge como o grande antagonista, e a narrativa se estrutura em torno da tentativa de Michael de romper esse domínio. É um recorte legítimo, mas limitado, porque ao concentrar o conflito apenas nesse ponto, o roteiro deixa de explorar outras dimensões igualmente importantes da vida e da carreira do artista, reduzindo uma trajetória complexa a uma dinâmica mais previsível.
Tecnicamente, o filme impressiona. A reconstituição de época é cuidadosa e envolvente, e as performances sustentam muito do que o roteiro não alcança. Nia Long, Colman Domingo e principalmente Jaafar Jackson, sobrinho de Michael na vida real, entregam trabalhos fortes. No caso de Jaafar, há momentos em que a transformação ultrapassa a imitação e alcança algo mais próximo de incorporação. Colman Domingo, por sua vez, já surge como um nome possível na próxima temporada de prêmios.
Ainda assim, há uma sensação de contenção que atravessa todos esses elementos, como se faltasse ao filme a disposição de ir além do que já se conhece, de exigir mais de seus atores e de si mesmo como narrativa.
Mas nada disso impede que Michael funcione exatamente como o filme que decide ser. Antoine Fuqua prometeu uma biografia definitiva, sem evitar os pontos delicados, mas o que chega à tela é o movimento oposto. O filme atende ao desejo da família do cantor, com exceção de Janet e da filha Paris, que não aprovam o resultado, e se assume como uma declaração de amor a Michael Jackson. Isso se torna evidente na decisão de encerrar a história exatamente antes da virada mais complexa de sua vida, quando surgem as primeiras acusações de abuso, evitando qualquer tentativa de enfrentar ou elaborar esse momento.


Por isso, se a proposta for encontrar um retrato completo, complexo e definitivo, Michael não é esse filme. Talvez essa versão nunca exista. Mas se a intenção for revisitar a arte, a potência e a relevância de um artista que redefiniu o que significa ser uma estrela pop, então ele cumpre seu papel com eficiência.
E talvez seja por isso que a sensação final seja inevitavelmente ambígua, porque apesar das ausências e das escolhas que limitam sua força, ainda é difícil sair da sessão sem cantar, sem lembrar e sem sentir novamente o impacto de alguém que, por muito tempo, pareceu maior do que qualquer narrativa conseguiria conter.
Dito tudo isso, como fã, se você ama a música de Michael Jackson, vai adorar.
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