Como publicado em CLAUDIA
Em 2025, quando a série A Dona da Bola estreou, resgatei a história real na qual foi baseada: a de Jeanie Buss, primeira mulher proprietária controladora de um time da NBA, os Los Angeles Lakers. Se você leu minha coluna de CLAUDIA, ela continha spoilers para a segunda temporada, que de fato segue essa trajetória como inspiração. Fique tranquila: aqui não há nada que antecipe uma possível terceira temporada, ainda não confirmada pela Netflix.
O que me interessa agora é discutir Isla Gordon, personagem defendida por Kate Hudson com um timing cômico que não suaviza o que está em jogo, ao contrário, torna ainda mais nítido. Etarismo, misoginia, conflito geracional e machismo estrutural não aparecem como temas. Aparecem como rotina.


O que A Dona da Bola constrói ao longo de suas duas primeiras temporadas é mais sofisticado do que uma narrativa sobre poder no esporte ou uma comédia sobre disputas familiares. A série opera em outro nível, onde o conflito central de Isla não é apenas administrativo nem emocional, mas estrutural.
Nada do que ela enfrenta surge como episódio isolado. Tudo retorna, com pequenas variações, em diferentes espaços.
Isla segue sendo a voz ignorada quando os irmãos estão reunidos, quase sempre orbitando em torno de Cam. Eles reconhecem que ela acerta, mas resistem a confiar em seus instintos de negócio, que são, repetidamente, os mais precisos. Existe sempre um intervalo entre o que Isla vê e o que os outros aceitam ver.
Mais incômodo do que isso é o efeito desse movimento nela própria. Quando Cam a desestabiliza, quando a faz duvidar de uma leitura que sabemos correta, a série expõe algo mais profundo do que a disputa de poder. O questionamento externo se infiltra. Isla não é apenas desacreditada. Em certos momentos, ela passa a se desacreditar.
Não há uma cena única que resolva isso. Há repetição.

Entre os irmãos, a disputa nunca é apenas por decisões. É pelo direito de ser levada a sério. Eles erram com margem. Improvisam, recuam, se contradizem. Com Isla, cada escolha carrega um peso maior. O acerto não estabiliza. O erro não é absorvido.
Esse padrão se desloca para o time. Com os jogadores, o machismo não aparece como confronto direto, mas como resistência silenciosa. Há um teste constante, como se a autoridade dela ainda estivesse em avaliação. Decisões simples precisam ser reiteradas. Mudanças táticas encontram hesitação antes de adesão. O respeito, quando vem, não se acumula. Precisa ser reafirmado.
Na imprensa, esse movimento se organiza como narrativa. Isla não é analisada apenas pelo que faz, mas pela forma como ocupa o lugar que ocupa. Perguntas aparentemente neutras carregam subtexto. Vitórias não consolidam autoridade. Derrotas ampliam a desconfiança. Enquanto seus pares masculinos são discutidos em termos de estratégia, ela é enquadrada como personagem. Quando é exposta, são sempre as piores imagens. Há uma insistência em ridicularizá-la, minar sua credibilidade, corroer sua autoconfiança.
E não são apenas os homens que sustentam essa lógica. Há etarismo, há ausência de sororidade. Isla poderia estar ao lado de Christina Pagniacci em Any Given Sunday, de Rebecca Welton em Ted Lasso, de Sansa Stark, Daenerys Targaryen ou Cersei Lannister em Game of Thrones, ou de Shiv Roy em Succession. Universos distintos, mesma engrenagem. Não é inquietante perceber como esses exemplos surgem com tanta facilidade?


Com investidores, o ponto de partida nunca é neutro. Isla entra em cada negociação precisando provar que pertence àquele espaço. Não basta ter a melhor leitura. É preciso validar a própria presença antes de validar a proposta. A autoridade não é presumida. É negociada.
Nada disso é exceção. É ambiente.
E é justamente nessa normalização que a série encontra sua camada mais precisa.
Isla também falha, e isso é essencial. Não há tentativa de santificá-la. Ao contrário, Running Point permite que ela erre para expor a complexidade do sistema em que está inserida.
A relação com Ali é o primeiro ponto de ruptura. Ao perder a melhor amiga e parceira, que precisa sair do time para encontrar reconhecimento em outro lugar, Isla é confrontada com algo que ainda não havia elaborado: a necessidade de sustentar alianças femininas dentro de um ambiente que continuamente as fragiliza. Ali não sai apenas por ambição. Sai porque permanecer também tem um custo.
O mesmo se repete na forma como Isla lida, inicialmente, com as cheerleaders. A greve expõe uma cegueira que não é individual. Mulheres também reproduzem estruturas que as limitam, mesmo quando acreditam estar enfrentando-as. A série não corrige Isla. Não oferece aprendizado imediato. Apenas expõe.
Esse gesto é raro.
Na vida pessoal, o conflito se reorganiza, mas não desaparece. Isla tem ao seu lado um parceiro quase irreal de tão compreensivo, mas é em Jay que o desejo se desloca. Ele segue a vida fora de Los Angeles, enquanto ela permanece. Isla não se paralisa, mas também não avança. A escolha entre carreira e vida pessoal não se apresenta como dilema. Se impõe como impossibilidade prática.
Ali, de outra forma, atravessa o mesmo impasse.

Quando Jay retorna e parece corresponder à imagem de parceiro ideal, a série constrói com precisão o momento da ruptura. Enquanto ele está na posição de vencedor, há espaço para que Isla exista. Quando os dois passam a competir diretamente, a estrutura aparece.
Isla pede um tempo para se concentrar no trabalho. Ele aceita, mas não sem resistência. Quando ela identifica a fragilidade na estratégia dele e vence — de forma limpa, técnica, absolutamente legítima —, o que se rompe não é apenas o relacionamento.
Rompe a possibilidade de ele sustentar a igualdade.
Jay a acusa de ser competitiva, sem reconhecer o mesmo traço nele. O problema não é a competição. É ela competir e vencer.
O gesto final, ao se aliar aos arqui-inimigos de Isla, incluindo Cam, desloca o conflito para outro nível. Ele deixa de ser íntimo e se reinscreve na estrutura. Jay não se torna um antagonista excepcional. Ele se torna mais um dentro de um sistema que não consegue absorver uma mulher em posição de poder sem tensionar esse lugar.
Isso aproxima Running Point muito mais da realidade do que da ficção.
E talvez seja esse o ponto mais potente de toda a narrativa. Sob o registro da leveza e do humor, a série constrói algo extremamente preciso. Não há grandes discursos. Não há explicações. Não há resolução.
Há repetição.
O machismo não aparece como evento. Aparece como ambiente.
E Isla não está apenas tentando vencer jogos.
Ela está tentando permanecer em um sistema que, o tempo todo, a obriga a justificar por que ela ainda está ali.
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