A Dona da Bola (Temporada 2): o anti-Succession que aposta no clássico

Existe algo quase contraintuitivo na forma como A Dona da Bola se organiza na sua segunda temporada. Em um primeiro olhar, ela parece apenas mais uma variação de uma fórmula já conhecida: uma família, um negócio, irmãos disputando espaço, alianças frágeis e jogos de poder que nunca se estabilizam. Mas, à medida que a narrativa avança, a comparação que se percebe não é com outras comédias, e sim com Succession.

Os elementos estruturais são praticamente os mesmos. A diferença está no modo como são trabalhados. Onde Succession constrói um ambiente de tensão permanente, marcado por silêncios desconfortáveis e agressões, A Dona da Bola desloca esse mesmo material para o campo do humor. O conflito continua existindo, mas ele é filtrado por outra lógica. Não se trata de suavizar o que está em jogo, mas de reorganizar a forma como isso chega ao espectador.

E talvez seja justamente essa escolha que define a série.

A recusa da inovação como gesto

Em um cenário em que grande parte das produções parece empenhada em provar originalidade a qualquer custo, seja por meio de estruturas fragmentadas, múltiplas temporalidades ou narrativas que exigem constante decodificação, A Dona da Bola faz um movimento oposto. A série não tenta reinventar a linguagem nem subverter expectativas formais. Ela se ancora em uma construção clássica, quase transparente.

Os arcos são claros, os conflitos são reconhecíveis, a progressão é linear. Existe uma confiança na ideia de que a história pode se sustentar sem precisar demonstrar complexidade o tempo todo. Essa escolha, que poderia ser lida como conservadora, aparece aqui como um posicionamento.

A segunda temporada reforça essa identidade. Mesmo quando a crítica geral aponta repetição ou falta de risco, há um reconhecimento implícito de que a série sabe exatamente o que está fazendo. Ela encontrou seu formato e decidiu permanecer nele. Há muita qualidade no conforto.

Depois da conquista, começa a disputa

Inspirada em uma história real, a primeira temporada de A Dona da Bola acompanha Isla Gordon, que assume inesperadamente o comando do time de basquete da família, o LA Waves, após o afastamento do irmão. Subestimada desde o início, ela precisa provar sua competência em um ambiente dominado por homens, lidando com a desconfiança dos irmãos, a pressão da imprensa, investidores e os conflitos internos do time. Ao longo da temporada, Isla começa a se afirmar como líder, tomando decisões estratégicas e conquistando espaço, mas o percurso é instável: a equipe não chega ao título, sua vida pessoal se desorganiza e, no momento em que ela parece finalmente consolidada, o irmão retorna, recolocando tudo em risco.

A segunda temporada de A Dona da Bola começa exatamente do ponto em que a primeira termina: Isla até conseguiu se afirmar no comando do LA Waves, mas a sensação de conquista dura pouco. A derrota nos playoffs, a vida pessoal em crise e, sobretudo, o retorno de Cam criam um cenário em que ela não apenas precisa provar que merece o cargo, mas defendê-lo o tempo todo.

A série muda de eixo sem anunciar: deixa de ser uma história de ascensão para se tornar uma narrativa sobre manutenção de poder, que é sempre mais instável e mais violenta. Isla passa a ser observada por todos como uma líder provisória, alguém que ainda pode ser removida, enquanto Cam, mesmo sem assumir diretamente o controle, começa a operar nos bastidores para enfraquecê-la.

Ao longo da temporada, o time deixa de ser apenas pano de fundo e se torna o campo concreto dessa disputa. Conflitos entre jogadores, decisões difíceis de gestão e pressões externas colocam Isla em uma posição em que cada escolha cobra um preço alto, especialmente porque sua vida pessoal continua atravessando o trabalho. A série insiste em um ponto que você já destacou: não existe versão de Isla que seja plenamente aceita, e qualquer movimento dela é reinterpretado sob um viés que expõe o machismo estrutural ao redor. Mesmo quando ela acerta, há sempre uma leitura que a deslegitima.

No arco geral, Isla consegue levar o Waves ao topo e cumprir a promessa esportiva que a primeira temporada deixou em aberto, mas essa vitória não resolve nada — pelo contrário, reorganiza o conflito. Cam deixa de ser apenas uma ameaça interna e amplia o jogo, criando um novo campo de disputa. O resultado é quase irônico: Isla vence, mas o custo dessa vitória é entrar em uma guerra ainda maior, em que permanecer no poder passa a ser mais difícil do que conquistá-lo.

O humor como forma de leitura do poder

Se a base narrativa é semelhante à de Succession, o humor funciona como elemento de deslocamento. Ele altera a experiência do conflito sem eliminá-lo. As disputas por controle, reconhecimento e pertencimento continuam presentes, mas são atravessadas por um tom que impede que a narrativa se torne opressiva.

Isso produz um efeito específico. A série não exige um investimento emocional exaustivo. Ela permite que o espectador acompanhe os movimentos de poder sem ser constantemente colocado em estado de tensão. Há uma espécie de respiro que reorganiza a relação com a história.

Nesse contexto, Kate Hudson segue como eixo central. Sua presença cria uma unidade que impede que a narrativa se disperse, mesmo quando o roteiro recorre a soluções mais previsíveis. Existe um tipo de controle de tom que passa por ela e que sustenta o equilíbrio entre conflito e leveza.

O lugar do conforto

A segunda temporada consolida a série como uma experiência que não depende de esforço interpretativo para funcionar. Não há necessidade de reconstruir sentidos ocultos ou acompanhar múltiplas camadas simultaneamente. A narrativa se apresenta de forma direta, ainda que não simplificada.

Isso ajuda a explicar por que a recepção do público tende a ser mais calorosa do que parte da crítica. Existe um reconhecimento imediato do que está sendo oferecido: uma história consistente, com ritmo, personagens bem definidos e conflitos que, mesmo conhecidos, continuam operando.

Em um ambiente saturado por produções que exigem atenção constante, essa clareza se torna um diferencial. Sim, há participações especiais como a de Ray Romano, Octavia Spencer e Scott Speedman, entre outros, reforçando um elenco que está afinado.

Nem tudo precisa ser “criativo”

Embora a terceira temporada ainda não tenha sido anunciada, é difícil imaginar que a Netflix não avance nesse sentido. A própria conclusão aponta para um jogo ainda mais competitivo, com conflitos reposicionados e relações que se reorganizam (spoiler: Cam mais uma vez surpreende, e Jay confirma um padrão que a série vinha insinuando). Nesse contexto, questionar a previsibilidade ou a aparente facilidade de resolução de alguns conflitos perde relevância. Se Emily in Paris chega à sexta temporada sustentada por um fio narrativo cada vez mais tênue, A Dona da Bola tem fôlego para ir mais longe.

Uma vez estabelecido que nem toda narrativa precisa ser disruptiva para ser eficaz, e que há um espaço legítimo para histórias que operam dentro de estruturas conhecidas, a segunda temporada de A Dona da Bola encontra sua força justamente nessa escolha. Ao apostar na leveza, evidencia algo que muitas vezes se perde na discussão contemporânea sobre televisão: funcionar já é, por si só, um acerto. Reencontrar Isla Gordon deixa de ser apenas uma continuidade e passa a ser um convite ao qual é fácil dizer sim.


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