Hacks, Temporada 5, Episódio 3 (Recap): o risco como performance (e como limite)

O episódio “No New Tricks”, à primeira vista, funciona como um desvio leve mesmo que o que esteja em jogo aqui seja mais profundo: Hacks desmonta, com precisão, a ideia de que Deborah Vance consegue sustentar qualquer relação que não seja mediada por cálculo.

O episódio inteiro gira em torno de encontros. Deborah com Nico Hayes, um jovem artista em ascensão e “rock star internacional”, residente do Palmetto, em Las Vegas. Ava com Eli, um trabalhador sexual. Marty com mais um casamento. Todos eles partem de uma promessa de transformação, e todos colapsam exatamente no ponto em que a intimidade exige algo que esses personagens não sabem oferecer.

Deborah entra nesse jogo já protegida. Ela decide que o encontro com Nico não é um encontro, mas uma estratégia. Um movimento de imagem. Uma extensão da lógica que organiza sua vida inteira. Quando ela aciona o paparazzo antes mesmo do primeiro jantar, não é apenas cinismo, é método.

O problema é que, pela primeira vez em muito tempo, o jogo escapa do controle.

Porque Nico não está exatamente jogando o mesmo jogo. Ele entende a lógica da fama, mas ainda acredita em alguma forma de autenticidade dentro dela. Quando descobre que Deborah encenou a própria exposição, o que se rompe não é apenas o romance, mas a possibilidade de uma relação que não fosse transacional. E a punição vem no mesmo registro: pública, cruel e absolutamente contemporânea. Ele a expulsa do carro diante dos fotógrafos.

Hacks não romantiza esse momento. Não há redenção. Há constrangimento.

E há algo mais interessante: a reação de Deborah não é de contenção, mas de descontrole. Ela envia mensagens, insiste, se expõe, um comportamento que contradiz tudo o que ela construiu como persona. Pela primeira vez, vemos não apenas a mulher que controla a narrativa, mas aquela que não suporta não ser escolhida.

Em paralelo, Ava vive uma versão espelhada desse mesmo movimento, mas em outro registro. O encontro com Eli começa como fantasia ideológica. Ela quer provar, para si mesma, que consegue viver aquilo que defende: que consegue sustentar a ideia de que trabalho sexual é trabalho, que consegue atravessar o encontro sem julgamento.

Mas o episódio vira quando ele revela que quer ser mágico.

É uma virada brilhante porque desloca completamente o eixo moral. Ava não falha quando precisa aceitar o sexo. Ela falha quando precisa aceitar o desejo. Quando o outro deixa de ser aquilo que ela pode teorizar e passa a ser algo que ela simplesmente não leva a sério.

Ela não suporta o ridículo.

E, nesse ponto, Hacks é cirúrgica: Ava não é hipócrita no campo em que ela acredita que está sendo testada. Ela é limitada em outro, que ela sequer percebe.

O rompimento entre os dois é tão inevitável quanto o de Deborah, mas por razões opostas. Deborah destrói o vínculo por excesso de controle. Ava, por incapacidade de sustentar o desejo do outro quando ele escapa à sua lógica.

No meio disso, Marty funciona como uma espécie de eixo emocional deslocado. Seu casamento termina antes de começar, em um dos momentos mais absurdos e ao mesmo tempo mais coerentes do episódio, quando a noiva é presa por fraude no altar.

É quase uma piada sobre o próprio conceito de compromisso dentro da série.

E é nesse cenário que acontece a proposta mais reveladora do episódio. Marty pede Deborah em casamento. E ela recusa, não com frieza, mas com uma lucidez rara dentro da sua trajetória.

Ela reconhece algo que o episódio inteiro vem construindo: o valor do risco não está no resultado, mas no fato de ainda ser possível sentir. Ainda é possível se expor. Ainda é possível fracassar.

Esse é o ponto de virada.

Porque, a partir daí, Deborah faz o único movimento realmente transformador do episódio: ela volta atrás na decisão sobre o Paradiso e decide investir com Marcus.

Não é apenas um movimento de negócios. É uma tentativa de reconstruir uma relação que não seja baseada em hierarquia absoluta. Um gesto que sugere, ainda que discretamente, que talvez ela consiga aprender algo com a sequência de fracassos emocionais que acabou de atravessar.

Mas Hacks não deixa isso confortável.

O episódio termina lembrando que, hoje, nenhuma narrativa é privada. Nico transforma a história em música. A versão dele circula. A imagem dela é triturada. E a resposta de Deborah não é recuar, mas contra-atacar.

Transformar dor em material.

Transformar humilhação em performance.

No fim, “No New Tricks” não é sobre encontros que deram errado. É sobre a impossibilidade, para esses personagens, de viver algo que não possa ser, em algum momento, usado, moldado ou reencenado.

E talvez por isso o título seja tão irônico.

Não há truques novos.

Só versões diferentes da mesma incapacidade de sustentar o real quando ele escapa do controle.


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