Hacks, temporada 05, episódio 04 (Recap): quando fazer rir deixa de ser automático

Abro o recap da semana de Hacks com um mea culpa. Sei que me queixei como um disco arranhado de como considero que as temporadas vêm se arrastando, mesmo que o talento indescritível de Jean Smart salve qualquer “falha”. Quando a série vem com algo como o episódio 4 da quinta temporada, a gente volta à raiz da qualidade de Hacks: a jornada de uma mulher complexa e sem desculpas, uma personagem a que Smart dá vida e resgata assuntos profundos, a transformando em lendária. Caros leitores, Who’s Making Dinner é o episódio do Emmy da despedida de Hacks e Jean Smart já está garantida mais uma vez como Melhor Atriz.

O episódio leva Deborah ao Paley Center para a celebração de 50 anos de Who’s Making Dinner?, a sitcom que ela criou ao lado do ex-marido Frank. Ela obviamente não quer chegar perto do grande trauma que cerca tudo, o fim de seu casamento depois que Frank a traiu com sua irmã, mas como a meta é o Madison Square Garden, mais uma vez há novas lentes para considerar o incômodo.

O fato de ainda estar impedida de falar publicamente por questões legais pode ajudá-la. Vai estar presente, mas não pode falar. No contra, atravessa o evento como uma presença silenciosa enquanto revive, em flashbacks e objetos, a construção daquele projeto que definiu sua carreira e, ao mesmo tempo, apagou seu lugar dentro dele.

Embora a parceria com Deborah esteja consolidada, Ava segue tentando emplacar seu próprio projeto. O que estava em avaliação por uma emissora é elogiado, mas descartado. A cena é realmente cômica porque resume os dois lados do negócio. A executiva, uma figura sempre ridicularizada por showrunners, explica delicadamente as razões do descarte e encomenda o que precisa: uma série de detalhes específicos para atenderem à audiência, inclusão, algoritmos e originalidade. Se você faz parte do time que sonha em trabalhar com streaming ou TV, decore a cena. Ela é mais real do que nossos risos possam sugerir.

Com isso, Ava tenta encontrar uma nova ideia viável enquanto enfrenta as limitações de um mercado que não quer originalidade, mas reconhece valor em propriedades já estabelecidas.

A cena e o sintoma

O episódio gira em torno de um deslocamento delicado. Deborah não está apenas revisitando o passado, ela está tentando reorganizar a forma como ele foi registrado. Existe uma diferença importante entre lembrar e reescrever, e Hacks trabalha exatamente nesse espaço.

A relação com Frank concentra isso de forma quase incômoda. Durante décadas, Deborah sustentou a narrativa de que foi injustiçada, apagada, subestimada. Ela era a estrela do show, e vemos que também era quem trazia as tiradas que o transformaram em icônico, mas o showrunner era Frank e foi ele que ganhou os prêmios, os créditos e, mais importante, a lenda.

Como ela tem uma ferida aberta com todos esses ressentimentos, mais uma vez a impulsividade interfere. Mesmo sem poder falar publicamente, já que a homenagem está sendo transmitida ao vivo, Deborah decide fazer a introdução ao vídeo usando a oportunidade para dizer, ainda que ironicamente, as verdades que estavam entaladas. Nenhuma das piadas encontra reação positiva na plateia. Ela soa mesquinha e deslocada.

E aí vem o que falei de Emmy anunciado. Deborah se retira para evitar ver a entrevista inédita de Frank, gravada antes de sua morte. Para sua surpresa, ele reconhece o papel central dela no sucesso da série, mas esse reconhecimento tão desejado não funciona como reparação. Ele a desarma.

O elogio chega tarde demais para cumprir a função de que Deborah precisava e, em vez de libertá-la, expõe algo mais profundo: a dependência que ainda existe em relação a essa validação específica. Ela se condena por, depois de mais de meio século, ainda precisar da aprovação de Frank, por sentir mágoa da traição, por não ter conseguido superar. É um momento emocionalmente devastador.

Quando o ressentimento ocupa todo o espaço

O episódio também confronta diretamente a relação entre dor e comédia. Deborah insiste em um material atravessado por ressentimento, sustentando a ideia de que provocar desconforto é suficiente. Não é.

Ava funciona aqui como um ponto de ancoragem quase estrutural. Ela conhece Deborah melhor do que o resto, está conectada ao que a torna única e a lembra de algo básico. A comédia precisa, antes de tudo, fazer rir. Ela não diminui a experiência de Deborah, mas recoloca o princípio que a própria Deborah perdeu de vista.

Quando o ressentimento ocupa todo o espaço, a comédia perde linguagem. E sem linguagem, não há conexão.

O retorno ao instinto

Duas coisas importantes acontecem ainda no episódio. Ava percebe que um reboot de Who’s Making Dinner? é o caminho que quer seguir, mas ainda não leva isso para Deborah. Ao mesmo tempo, quando elas deixam o evento, Deborah é presa por ter quebrado a proibição de se apresentar em público, e Ava precisa lidar com a fiança.

É fora desse ambiente controlado que algo se reorganiza. Na cadeia, longe de qualquer construção de imagem, Deborah volta a operar a partir do instinto. O humor reaparece não como estratégia, mas como reflexo. Ela é rápida, afiada e volta a ter uma plateia que responde.

O problema de Deborah nunca foi a perda da capacidade de fazer rir. O problema foi a interferência constante de tudo aquilo que ela tenta resolver enquanto performa. Quando isso desaparece, ainda que temporariamente, o que resta é a comediante que sempre esteve ali.

Ela sai detrás das grades determinada e com novo material para trabalhar na apresentação do Madison Square Garden.

Quem leva o crédito

Ao revisitar Who’s Making Dinner?, Hacks não está fazendo um movimento nostálgico. Está reorganizando o eixo da temporada. O passado deixa de ser referência e passa a ser algo que precisa ser reposicionado para que o futuro exista.

Ava percebe isso antes de Deborah ao enxergar ali uma possibilidade de reinvenção, não de repetição. O reboot surge menos como ideia criativa e mais como síntese do que a temporada propõe: legado não é preservação, é transformação.

Ao invés de oferecer fechamento, Hacks coloca Deborah em um lugar mais instável, mas também mais verdadeiro. Um lugar em que fazer rir deixa de ser automático e volta a ser necessário. Mas há muitos desafios pela frente.


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