Hacks, temporada 4, episódio 5 (recap): mãe e filha não competem, repetem

Depois do acerto de contas com o passado, Hacks desloca nesse episódio o foco para algo mais difícil de organizar: o presente. Deborah reluta, mas aceita participar de uma edição especial de The Amazing Race ao lado da filha, D.J., transformando uma promessa antiga em um compromisso inevitável. A ideia parece simples, mas rapidamente se revela um ambiente impossível para uma relação que nunca conseguiu se estabilizar.

Em paralelo, Ava avança na tentativa de viabilizar o reboot de Who’s Making Dinner?, o que a leva diretamente à irmã de Deborah, detentora dos direitos da série, e a coloca em um terreno que exige menos idealismo e mais estratégia.

As diferenças diante das câmeras

Colocar Deborah e D.J. em um reality competitivo não é apenas um recurso cômico ou uma escolha de formato. É uma forma de condensar uma relação que, ao longo da série, sempre apareceu de maneira fragmentada. Para Deborah, mais uma vez, o que vale não é estar com a filha ou sequer sonhar com os milhões do prêmio, mas sim, divulgar seu show no Madison Square Garden. Até o fim da temporada, nada além disso vai tirá-la de casa.

Mas, sob pressão, com regras claras e exposição constante, o que emerge não é apenas conflito. É padrão da família Vance.

D.J. entra na competição já esperando falhar. Deborah entra tentando antecipar e corrigir cada erro. Nenhuma das duas está realmente reagindo ao presente. Ambas operam a partir de um roteiro que já existia antes mesmo da corrida começar.

O que o episódio faz com precisão é tornar visível essa estrutura.

O fracasso como linguagem comum

Existe algo particularmente incômodo na forma como o episódio constrói o fracasso das duas. D.J. não falha porque não é capaz, mas porque nunca alcança o que acredita que sua mãe espere dela. Deborah, por sua vez, não consegue permitir erro porque vê nele a confirmação de algo que tenta evitar há anos: a humilhação da filha e a consequência de se sentir inadequada.

As duas, infelizmente, estão certas: Deborah é exigente e D.J., insegura. Não dá certo.

E talvez esse seja o gesto mais duro do episódio. Ao invés de criar uma ruptura dramática, ele mostra o quanto essa dinâmica já está consolidada.

Proteção como tentativa de deslocamento

O que muda, ainda que de forma sutil, é a posição de Deborah. Pela primeira vez, a tentativa não é moldar a filha à sua imagem, mas impedir que ela repita exatamente o mesmo percurso.

Esse deslocamento não vem como um grande gesto emocional, mas aparece em pequenos momentos. Na forma como Deborah começa a observar D.J., na maneira como segura o impulso de corrigir, na tentativa — ainda instável — de reconhecer ali alguém que precisa existir fora da sua lógica.

Ava e a lógica do legado

Falando em lógica, enquanto Deborah e D.J. orbitam essa relação esquisita, Ava avança de forma mais decisiva. A negociação pelos direitos de Who’s Making Dinner? exige dela algo que a série vem construindo há temporadas: a capacidade de agir sem pedir autorização moral.

Cathy, a irmã de Deborah, ficou com os direitos autorais da sitcom (que eram de Frank antes de falecer). Por Ava, antes de embarcar na aventura com a filha, a comediante tenta argumentar com sua arquiinimiga que tem um pedido estranho. Ela quer peças específicas da coleção de saleiros de que Deborah cuida com mais cuidado do que qualquer outra relação. Tanto que é uma fronteira que não cruza e se recusa a ceder.

Por causa disso, Ava não tem alternativa: mente, manipula, atravessa limites. Depois de quatro temporadas pensei, “Ai, não, isso vai separar as duas mais uma vez”. Mas Ava está mais esperta: ela falsifica as peças e negocia com Cathy, que não desconfia de nada. Mais ainda, adora pensar que Ava “tirou” de Deborah algo precioso, como ela mesma fez no passado ao seduzir Frank. Assim, concorda em ceder os direitos autorais da série.

Com isso, se o episódio anterior reorganiza o passado, este reorganiza o futuro. E esse futuro não está centrado em Deborah.

D.J., que durante boa parte da série existiu como ruído ou consequência, começa a ganhar voz própria. Ainda insegura, ainda instável, mas com algo novo: a possibilidade de existir sem precisar corresponder.

Hacks não encerra resolvendo a relação entre Deborah e D.J. com reconciliação fácil ou catarse emocional. Seria simples demais. O que a série faz é mais preciso: as duas se aceitam, mesmo com os problemas que têm.

Ou seja, Ava também, como DJ, poderá pensar em um futuro paralelo e não dependente de Deborah.


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