Para mim, May the Fourth nunca foi apenas um jogo de palavras. Existe algo de muito específico no fato de que uma das maiores franquias do cinema tenha adotado como data simbólica um trocadilho que, por definição, não deveria durar. E, ainda assim, dura.
O 4 de maio se consolidou porque Star Wars sempre foi maior do que seus próprios filmes. Antes de se tornar um calendário oficial, a data já funcionava como um gesto coletivo, uma forma de pertencimento. Quando fãs começaram a transformar “May the Fourth be with you” em celebração anual, estavam menos interessados em oficializar um feriado e mais em reafirmar uma relação que nunca dependeu de validação institucional.
Ainda assim, a institucionalização veio. E ela diz muito sobre como a franquia mudou.

De um anúncio de jornal a uma data global
A origem mais citada do trocadilho não vem dos fãs, mas da política. Em 4 de maio de 1979, o London Evening News publicou um anúncio parabenizando Margaret Thatcher pela eleição com a frase “May the Fourth be with you, Maggie”. Era um gesto oportunista, mas revelador. Apenas dois anos após o lançamento de “Uma Nova Esperança”, Star Wars já tinha atravessado o cinema e entrado no imaginário popular a ponto de ser reconhecido fora dele.

Décadas depois, esse reconhecimento se organizaria como tradição. A partir dos anos 2000, comunidades de fãs passaram a celebrar o 4 de maio de forma mais sistemática, até que, em 2011, eventos organizados no Canadá ajudaram a consolidar a data como o Star Wars Day contemporâneo.
Quando a Disney adota oficialmente o 4 de maio em 2013, o que ela faz não é criar a data, mas absorvê-la. É um movimento que se tornaria padrão nos anos seguintes: identificar o que já existe, amplificar e transformar em estratégia.
2012: a venda que mudou o eixo da saga
Um ano antes dessa oficialização, em outubro de 2012, George Lucas vendeu a Lucasfilm para a Disney por aproximadamente 4,05 bilhões de dólares. Não era apenas uma transação financeira. Era a transferência de um universo que, até então, funcionava sob uma lógica autoral para dentro de uma estrutura corporativa que opera por expansão contínua.
A promessa inicial era clara: novos filmes, nova trilogia, novas histórias. E, por um momento, pareceu simples.


“O Despertar da Força”, lançado em 2015, foi recebido como um retorno seguro. Reintroduziu personagens, espelhou estruturas conhecidas e reconectou o público com a sensação de assistir a Star Wars no cinema. Mas essa segurança já carregava um limite.
Entre repetição e ruptura: os anos mais instáveis
A trilogia sequencial rapidamente se transformou em um campo de disputa. “Os Últimos Jedi” tentou romper com expectativas, propondo uma leitura mais ambígua do heroísmo e da própria mitologia da saga. A reação dividida expôs algo que até então estava diluído: Star Wars não tinha mais um centro consensual.
“A Ascensão Skywalker”, em 2019, surge como resposta a esse ruído. Ao tentar reorganizar a narrativa e acomodar diferentes demandas do público, acaba evidenciando o problema estrutural da nova fase: a dificuldade de equilibrar legado e inovação dentro de um planejamento fragmentado.
O resultado é uma trilogia que existe, mas não se sustenta como unidade da mesma forma que as anteriores.

Onde a Disney acertou: televisão e expansão de universo
Se o cinema encontrou resistência, foi na televisão que Star Wars se reorganizou.
“The Mandalorian”, lançada em 2019, não apenas ampliou o alcance da franquia, como redefiniu sua linguagem. Ao deslocar o foco dos grandes eventos para histórias periféricas, recuperou o senso de aventura e introduziu uma nova relação com o público, mais episódica, mais aberta.
“Andor” leva esse movimento ainda mais longe. Ao reduzir a presença de elementos míticos e apostar por uma construção política mais rigorosa, a série reposiciona Star Wars dentro de um registro mais adulto, sem perder sua identidade.
Esses projetos mostram algo fundamental: a expansão não precisa repetir a fórmula central para funcionar. Em muitos casos, funciona melhor quando não repete.

O que vem agora: entre o cinema e a curadoria
Depois de desacelerar a produção de filmes após 2019, a Disney tenta reorganizar o futuro da franquia com mais controle. Projetos anunciados incluem um novo filme centrado em Rey, explorando a reconstrução da ordem Jedi, além de outras narrativas que atravessam diferentes períodos da cronologia.
Ao mesmo tempo, a estratégia parece mais cautelosa. Menos quantidade, mais curadoria. Um reconhecimento tácito de que o excesso também desgasta.
Na televisão, a expansão continua, mas já sob o impacto de uma pergunta inevitável: até onde esse universo pode crescer sem perder densidade?

O 4 de maio hoje
O Star Wars Day, nesse contexto, deixa de ser apenas uma celebração nostálgica. Ele funciona como um marcador de tempo.
Olhar para o 4 de maio hoje é perceber como a franquia atravessou diferentes fases sem nunca se tornar irrelevante. De criação autoral a produto global, de trilogia fechada a universo expandido, de consenso a fragmentação.
E, ainda assim, permanece.
Talvez porque Star Wars nunca tenha dependido de uma única forma de existir. E o 4 de maio, com toda a sua simplicidade, continua sendo o melhor resumo disso: uma ideia que começou como acaso, foi apropriada pelos fãs e, no fim, acabou absorvida por uma indústria que ainda tenta acompanhar o que esse universo significa.
May the Fourth continua sendo, acima de tudo, um gesto coletivo. E é isso que nenhuma estratégia consegue fabricar completamente.
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