Enquanto aguardamos a volta de The Gilded Age, vale revisitar a despedida de Downton Abbey e cruzar os temas em comum, em especial o divórcio. Julian Fellowes nunca tratou o casamento apenas como romance. Em toda a sua obra, especialmente em Downton Abbey e agora em The Gilded Age, o matrimônio aparece como contrato social, mecanismo econômico e instrumento de sobrevivência dentro de sistemas rigidamente hierárquicos. Mas quando se trata do tema do divórcio, o interesse raramente está apenas no fim de uma relação. O que realmente o fascina é o que acontece depois: quem perde status, quem perde dinheiro, quem consegue reconstruir uma imagem pública e quem descobre que, naquela sociedade, o casamento era a única forma de existência social minimamente protegida.
Isso ajuda a entender por que o tema começa a ganhar um peso tão importante no universo de The Gilded Age, especialmente após Downton Abbey: O Grande Final. Fellowes parece cada vez mais interessado em observar o momento em que estruturas tradicionais começam a falhar, mas ainda não desapareceram completamente. E poucas experiências expõem isso de forma tão brutal quanto o divórcio entre elites aristocráticas e milionárias.

Em Downton Abbey, o tema apareceu durante anos de maneira indireta, quase sempre cercado de vergonha, escândalo e medo de exclusão social. Lady Edith viveu o estigma da maternidade fora do casamento. Rose enfrentou resistência por seu casamento interracial. Mas foi Mary Crawley que atravessou temporadas inteiras tentando equilibrar desejo pessoal e obrigação aristocrática. O universo da série ainda operava dentro de um modelo inglês profundamente conservador, no qual o divórcio era possível legalmente, mas socialmente devastador.
Em O Grande Final, Fellowes finalmente radicalizou um pouco mais essa discussão ao mostrar personagens percebendo que certas estruturas não podem mais ser mantidas apenas pela aparência. A aristocracia britânica do pós-guerra já não possui o mesmo poder financeiro nem moral. O filme inteiro é atravessado por despedidas simbólicas, reorganizações familiares e a sensação de que a velha ordem perdeu o controle absoluto sobre o futuro. A posição de Lady Mary é ameaçada depois que seu marido, já praticamente ausente nos filmes anteriores, pede o divórcio. Excluída socialmente, passamos o filme que encerra a saga dos Crawley vendo as reviravoltas para driblar preconceito e tabu em uma sociedade hierárquica e conservadora.
A sombra do divórcio ameaça The Gilded Age desde a terceira temporada, mas promete ser central na próxima. Fellowes entra em um território muito mais explosivo porque a Nova York dos milionários americanos do fim do século XIX era obcecada por aparência, mesmo que menos presa às formalidades aristocráticas inglesas. Quer dizer, esse é o discurso que ouvimos em Downton Abbey sobre os americanos. Mas não é exatamente o que The Gilded Age mostrou até aqui. Sim, o dinheiro novo mudava as regras constantemente e criava um ambiente em que casamentos eram simultaneamente instrumentos de ascensão e armadilhas públicas, mas vimos como Aurora Fane, assim como Lady Mary, foi quem pagou pelo desejo do marido de deixá-la por outra mulher. Em outras palavras, o exílio social.

Bertha Russell defendeu as divorciadas e talvez mais do que qualquer personagem criada por Fellowes nos últimos anos entenda que a alternativa para burlar a hipocrisia está no dinheiro. O casamento dela com George Russell não é construído apenas como relação amorosa, mas como parceria estratégica de poder. Os dois funcionam quase como uma empresa familiar. Existe afeto genuíno entre eles, algo raro nas elites retratadas pela série, mas existe também uma consciência absoluta de que o casal opera como unidade política dentro daquela sociedade.
É justamente por isso que muitos espectadores começaram a especular se Fellowes poderá aproximar Bertha de trajetórias inspiradas em figuras reais da elite americana, especialmente dos Vanderbilt. Porque a história daquela família foi marcada por uniões arranjadas, disputas financeiras, infidelidades públicas e divórcios capazes de destruir reputações inteiras.
O casamento de Gladys ecoa inevitavelmente o de Consuelo Vanderbilt. Assim como a herdeira real, ela foi pressionada a se casar com um duque em um dos acordos sociais mais famosos daquela elite transatlântica. O casamento unia dinheiro americano e título aristocrático britânico, exatamente como tantas famílias daquele período desejavam. Mas enquanto a relação de Consuelo era profundamente infeliz, uma espécie de aprisionamento emocional cuidadosamente encenado para a sociedade, o casamento de Gladys acabou sendo retratado como respeitoso e afetuoso.
O detalhe importante é que Alva Vanderbilt, a própria mãe que forçou o casamento da filha, acabou se divorciando do marido, William Kissam Vanderbilt, em 1895. E esse divórcio se transformou em um terremoto social. Não porque infidelidades fossem raras naquela elite, mas porque mulheres ainda eram julgadas de maneira infinitamente mais severa quando decidiam romper publicamente uma união. Os fãs de Bertha estão apavorados com a possibilidade de que seu casamento com George esteja fadado ao fracasso.
Alva sobreviveu socialmente porque possuía dinheiro, inteligência estratégica e uma capacidade extraordinária de reorganizar sua imagem pública. Depois do divórcio, ela se reinventou como figura ligada ao movimento sufragista e ao ativismo feminino. Fellowes claramente conhece esse material histórico profundamente. E The Gilded Age parece caminhar justamente para esse ponto: o momento em que mulheres começam a perceber que casamento e sobrevivência social já não precisam ser exatamente a mesma coisa.
A diferença entre Downton Abbey e The Gilded Age está justamente na forma como cada universo encara a modernidade. Na cronologia, Downton vem depois de The Gilded Age e vemos no filme americanos se gabando de “ligar menos” para o divórcio, mas isso nunca foi exatamente verdade.
O fato é que, em Downton Abbey, a aristocracia tenta preservar um sistema em decadência. Em The Gilded Age, ninguém sabe exatamente quais serão as novas regras. Tudo está sendo negociado ao mesmo tempo: dinheiro, sobrenomes, poder político, influência cultural e liberdade feminina.
Por isso o divórcio possui potencial tão dramático dentro da série americana. Não apenas como escândalo romântico, mas como mecanismo capaz de alterar alianças econômicas inteiras. Uma mulher divorciada podia perder convites, posição social e segurança financeira. Mas também podia descobrir uma forma inédita de autonomia. Fellowes entende perfeitamente essa ambiguidade.

Isso aparece inclusive na maneira como ele escreve mulheres socialmente inteligentes. Cora, em Downton Abbey, frequentemente atuava como mediadora entre tradição e mudança. Bertha Russell faz algo diferente. Ela não tenta suavizar o sistema. Ela quer vencê-lo. E isso aproxima muito mais a personagem das grandes figuras da vida real da Era Dourada americana.
O mais interessante é que Fellowes raramente escreve revoluções completas. Seus personagens avançam lentamente, negociando espaço dentro das estruturas existentes. Em vez de destruir o sistema, tentam aprender como sobreviver dentro dele sem desaparecer. É exatamente isso que torna o tema do divórcio tão fértil em suas narrativas. Porque ele representa o instante em que o verniz social deixa de esconder a fragilidade real das relações.
Mas há algo que sempre suaviza parte desses medos: Julian Fellowes continua sendo um autor profundamente apaixonado por finais felizes. Mesmo quando seus personagens atravessam humilhação pública, perda financeira ou exclusão social, existe quase sempre a tentativa de reorganizar emocionalmente aquele universo. Talvez seja justamente aí que esteja seu tema favorito: personagens tentando manter elegância, controle e relevância enquanto as regras sociais mudam rápido demais ao redor deles.
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