Muito se escreveu sobre os homens que Marilyn Monroe amou. Joe DiMaggio continua associado à devoção silenciosa e possessiva. Arthur Miller virou símbolo da tentativa de legitimação intelectual. Os Kennedy permanecem presos à dimensão conspiratória que ainda envolve os últimos meses de sua vida. Décadas após sua morte, a narrativa em torno de Marilyn continua retornando aos romances, aos abandonos, aos casamentos fracassados e às relações que pareciam prometer algum tipo de estabilidade emocional para uma mulher que raramente a encontrou.
Mas talvez nenhum relacionamento tenha sido mais profundo, mais constante ou mais decisivo para a construção de Marilyn Monroe do que sua relação com as câmeras.
Não apenas porque ela foi fotografada obsessivamente. Hollywood estava cheia de mulheres bonitas nos anos 1950. O texto recente de Rachel Syme para a New Yorker aponta isso diretamente ao afirmar que Monroe possuía algo mais raro do que beleza: projeção. Ela compreendia a câmera de uma maneira quase intuitiva, mas também profundamente consciente. Sabia exatamente como inclinar o corpo, alongar o pescoço, mover os ombros, modular uma expressão. Entendia luz, enquadramento, silêncio e expectativa muito antes desses conceitos fazerem parte do vocabulário contemporâneo da cultura de celebridades.

Existem milhares de fotografias de Marilyn Monroe espalhadas por arquivos, coleções privadas, estúdios, revistas e museus. Só as sessões de Milton Greene renderam mais de cinco mil imagens. Bert Stern produziu cerca de 2.500 fotografias durante “The Last Sitting”, realizada poucas semanas antes de sua morte. O Getty Images sozinho cataloga quase 13 mil imagens editoriais de Marilyn. E talvez isso explique algo essencial: Monroe não foi apenas fotografada. Ela ajudou a inventar a ideia moderna de uma pessoa feita para ser fotografada.
Porque existe uma diferença entre posar e existir diante de uma lente.
Marilyn parecia entender que a câmera não era apenas um instrumento de registro. Era uma superfície de tradução. Uma maneira de reorganizar dor, desejo, abandono e fantasia em imagem pública. Em muitos sentidos, Marilyn Monroe talvez tenha sido a primeira celebridade moderna a compreender completamente que o mundo a conheceria mais através das imagens do que da própria realidade.
É impossível separar sua lenda da fotografia.
O vestido branco levantando sobre a grade do metrô em O Pecado Mora ao Lado. As fotografias dela lendo Ulysses, de James Joyce, feitas por Eve Arnold. Os retratos minimalistas de Milton Greene em “The Black Sitting”. As imagens quase espectrais de Bert Stern no Hotel Bel-Air. Até suas primeiras fotografias feitas por André de Dienes já carregavam algo que transcendia o simples universo pin-up. Existe sempre a sensação de que Marilyn habita simultaneamente dentro e fora do enquadramento. Presente e distante. Disponível e inalcançável.
E ainda assim, entre as incontáveis fotografias feitas de Marilyn Monroe, a imagem que ela própria mais amava era surpreendentemente íntima.

Sua fotografia favorita foi feita por Cecil Beaton em 1956, no Hotel Ambassador, em Nova York. O retrato, hoje pertencente à National Portrait Gallery de Londres, ficava pendurado na parede de sua casa enquanto era casada com Arthur Miller. Marilyn também carregava cópias da foto consigo pelo resto da vida para autografar para fãs. Em especial, o retrato em que segura uma única flor contra o peito tornou-se sua imagem favorita de si mesma.
Esse detalhe importa porque Marilyn era notoriamente exigente em relação à própria imagem. Rejeitava negativos, aprovava sessões e compreendia perfeitamente quando uma fotografia apenas reproduzia “Marilyn Monroe” e quando alcançava algo mais vulnerável por baixo da superfície.
Cecil Beaton já era um dos fotógrafos mais celebrados do mundo quando a fotografou. Marilyn era, naquele momento, a atriz que todos os grandes fotógrafos queriam registrar. O encontro entre os dois parecia inevitável. Se ela frequentemente sofria diante das câmeras de cinema, a fotografia estática parecia libertá-la. Poucas estrelas em Hollywood eram tão unanimemente adoradas pelos fotógrafos quanto Marilyn Monroe. Ela sabia como relaxar diante da lente, mas, mais importante do que isso, sabia criar momentos. Essa capacidade é uma das razões pelas quais sua imagem continua estranhamente viva tantas décadas depois.
Biógrafos permanecem fascinados não apenas pelas fotografias que Beaton produziu, mas pela análise que escreveu depois. Inicialmente irritado após esperar mais de uma hora pela chegada de Marilyn, Beaton rapidamente se encantou no instante em que ela entrou no quarto. Como tantos antes dele, também caiu sob o efeito de sua presença.
Especialista em construção de imagem, Beaton sabia que a persona cinematográfica de Marilyn dependia fortemente da mistura entre inocência, sensualidade e o estereótipo da “loira burra”. Inicialmente, questionava quanto disso era fabricação. O que encontrou, porém, foi algo muito mais complexo. Sua conclusão foi surpreendente: Marilyn Monroe era um gênio.
“A verdadeira maravilha está no paradoxo. De alguma forma sabemos que essa performance extraordinária é pura farsa, uma caricatura jovem de Mae West.”
E ainda assim, acrescentou ele, era “seu próprio gênio estranho que sustentava o voo”.
Em outras palavras, Marilyn tinha plena consciência do que estava vendendo e de como vendia. A performance era artificial, mas a inteligência que a construía era absolutamente real.


A descrição de Beaton tornou-se tão admirada que o diretor Joshua Logan mais tarde presenteou Marilyn com um tríptico contendo a fotografia ao lado de duas páginas manuscritas com as reflexões do fotógrafo sobre ela. Em um dos trechos, Beaton a comparava às musas retratadas pelo pintor francês Jean-Baptiste Greuze no século 18, mas vagando pelo mundo contemporâneo.
O que também fascinava Beaton era sua capacidade de transformação diante da câmera. Ele descreveu Marilyn como alguém capaz de produzir milhares de “versões de si mesma”, sem inibição, sem insegurança e sem perder uma vulnerabilidade genuína. Mesmo possuindo o que ele chamou de “beleza incandescente”, Marilyn carregava uma indiferença paradoxal em relação a roupas, cabelo ou styling. Conseguia parecer simultaneamente meticulosamente construída e estranhamente livre da vaidade.
Segundo relatos de quem participou da sessão, a flor presente em seu retrato favorito foi completamente improvisada. Marilyn teria usado a flor para fingir um cigarro antes de finalmente colocá-la sobre o peito, quase protegendo-a, embalando-a como um presente.
Beaton encerrou sua descrição de Marilyn Monroe comparando-a à Ondine, o espírito mitológico das águas condenado a uma existência breve:
“Ela tem apenas quinze anos de vida, mas nunca vai morrer.”
Tragicamente, Marilyn morreria apenas seis anos depois daquelas fotografias.
Mas talvez Beaton tenha entendido algo essencial muito antes do resto do mundo: Marilyn Monroe nunca foi apenas uma mulher sendo fotografada. Ela participava ativamente da construção de um dos mitos visuais mais duradouros da história moderna.
Talvez seja justamente por isso que fotógrafos tão diferentes entre si tenham se tornado fascinados por ela.

Eve Arnold percebia a vulnerabilidade intelectual. Milton Greene via a mulher tentando controlar a própria narrativa. Richard Avedon entendia o instante em que Marilyn “desligava” o personagem e Norma Jeane surgia. E Henri Cartier-Bresson, um fotógrafo notoriamente resistente ao glamour fabricado, reconheceu algo ainda mais complexo durante as filmagens de The Misfits.
Cartier-Bresson era o fotógrafo do “momento decisivo”, da espontaneidade absoluta, do instante não encenado. Marilyn Monroe talvez tenha sido a mulher mais consciente da própria imagem em todo o século 20. Ainda assim, ele ficou profundamente impressionado por ela.
Segundo diferentes relatos, depois de recuperar sua Leica durante as filmagens no deserto de Nevada, Cartier-Bresson brincou pedindo que Marilyn “abençoasse” a câmera. Ela entrou na brincadeira, fingindo sentar sobre ela e apenas roçando o quadril na Leica enquanto sorria maliciosamente. A história é divertida, mas também profundamente reveladora. Mesmo numa brincadeira casual, Marilyn transformava o objeto técnico em parte da performance. O carisma parecia escapar dela involuntariamente.
E talvez ninguém tenha resumido melhor sua dualidade do que o próprio Cartier-Bresson ao dizer:
“No instante em que ela percebia você, começava a posar. Ao mesmo tempo, tinha um rosto tão vulnerável.”
No momento em que percebia estar sendo observada, Marilyn começava a atuar. Mas a vulnerabilidade continuava ali, impossível de esconder completamente. A pose não anulava a verdade. Em Marilyn, a performance fazia parte da verdade.
Ele também descreveu nela “a maior disciplina como atriz” e afirmou que era justamente a combinação entre beleza e inteligência que a transformava “não apenas em modelo, mas em uma mulher real se expressando”.
Isso importa porque boa parte da crítica de sua época tentou reduzir Marilyn Monroe a um acidente biológico, como se seu magnetismo fosse inteiramente físico, automático, involuntário. Mas fotógrafos pareciam entender algo que Hollywood frequentemente se recusava a admitir: Marilyn trabalhava sua imagem da mesma forma que um ator de método trabalha uma cena.
Ela controlava fotógrafos, aprovava negativos, rejeitava imagens, entendia ângulos, administrava iluminação. Sabia quando uma fotografia realmente a capturava e quando apenas reproduzia o personagem.
E talvez exista algo doloroso em tudo isso.
Porque quanto mais Marilyn dominava a própria imagem, menos controle parecia ter sobre a maneira como o mundo a consumia. Sua relação com a câmera era íntima, mas também exaustiva. A câmera lhe deu existência pública, poder financeiro, liberdade profissional e imortalidade cultural. Mas também a transformou numa superfície infinita de projeção para os desejos dos outros.


Décadas após sua morte, a obsessão continua.
A imagem de Marilyn atravessou o cinema, os tabloides, os pôsteres, a pop art de Andy Warhol, a cultura digital e agora chega à inteligência artificial. Talvez nenhuma figura do século XX tenha sido visualmente reproduzida tantas vezes quanto ela. E existe algo quase cruel nisso: quanto mais imagens de Marilyn o mundo cria, menos parece conseguir realmente alcançá-la.
Porque a câmera nunca capturou Marilyn Monroe completamente.
Capturou fragmentos. Máscaras. Gestos. Luz. Movimento. Vulnerabilidade atravessando a pose por uma fração de segundo.
Talvez seja exatamente isso que mantém sua imagem viva.
Os homens que Marilyn amou envelheceram dentro da narrativa clássica dos romances trágicos de Hollywood. Mas a câmera foi diferente. A câmera não apenas testemunhou Marilyn Monroe. Ela participou da criação dela.
E talvez tenha sido o único relacionamento de sua vida em que ela realmente conseguiu controlar parte da história.
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