Tina Turner no teatro: musical em SP ganha força com Analu Pimenta no papel principal

Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL

A história de Tina Turner já foi contada em diferentes formatos, do cinema ao documentário, mas o teatro impõe outra camada: ele exige presença, desgaste, corpo. E é exatamente nesse território que Tina – Tina Turner, o Musical, em cartaz no Teatro Santander, em São Paulo, encontra seu eixo mais potente. Porque, aqui, não se trata apenas de revisitar uma trajetória conhecida. Trata-se de atravessá-la.

Antes de chegar ao Brasil, o espetáculo construiu sua força internacionalmente. Estreou no West End em 2018, com produção assinada pela própria Tina Turner ao lado de Phyllida Lloyd, e rapidamente se tornou um sucesso de público. No ano seguinte, cruzou o Atlântico e chegou à Broadway, consolidando-se como uma das grandes biografias musicais recentes. Tina acompanhou de perto a construção do projeto e chegou a assistir às primeiras montagens, garantindo que a história contada ali preservasse não apenas os fatos, mas o espírito de quem ela foi.

Esse mesmo percurso já havia sido fixado, de outra maneira, no cinema com What’s Love Got to Do with It, que ajudou a transformar sua vida em narrativa global. O musical parte desse material conhecido, mas amplia o olhar, especialmente ao colocar no centro não apenas a artista, mas a mulher que precisou reconstruir a própria existência depois de romper com Ike Turner, enfrentando violência, racismo e um mercado que a considerava “tarde demais”.

É nesse ponto que a montagem brasileira ganha outra camada e onde a conversa exclusiva com Analu Pimenta encontra seu lugar.

Atriz com mais de 15 anos de trajetória no teatro musical, Analu assume aqui seu primeiro grande protagonismo. E não por acaso. Aos 39 anos, ela se encontra em um momento que ecoa diretamente a própria história de Tina: o de uma virada que não chega no tempo esperado, mas que, quando chega, reorganiza tudo. Ao interpretar Tina, Analu não busca apenas reproduzir gestos ou timbres reconhecíveis. O que ela constrói em cena é um equilíbrio delicado entre fidelidade e distância, entre memória e presença, entre mito e experiência.

E talvez seja justamente por isso que esse encontro funcione. Porque Tina Turner nunca foi apenas uma voz. Foi uma sobrevivente que transformou ruptura em linguagem. E essa dimensão, no palco, não pode ser simulada, ela precisa ser sentida.

Tina Turner é uma figura muito presente no imaginário coletivo. Como equilibrar fidelidade e liberdade criativa?
Eu acho que essa é a parte mais difícil do meu trabalho, que é conseguir chegar numa fidelidade que as pessoas consigam acessar a memória afetiva e entrem dentro da história, mergulhem nessa história e acreditem. Mas, ao mesmo tempo, ter a liberdade criativa de, como atriz, poder entender que eu não sou ela. Que eu não sou a Tina Turner. Que eu sou a Analu e nunca serei a Tina, mas que a gente precisa achar um equilíbrio de contar a história, humanizar a história para que as pessoas possam se ver nessas histórias também. E aí, em alguns momentos, realmente buscar ser fiel ao que ela era, na voz, no corpo, na imagem, para que as pessoas se emocionem.

Você já passou por musicais muito diferentes entre si. Onde Tina ocupa um lugar especial na sua trajetória?
Bom, a Tina ocupa um lugar especial na minha história. Primeiro, porque é minha primeira protagonista, depois de mais de 15 anos de teatro musical. E pela história que a gente está contando. Eu tenho muitos traços da Tina na minha história e isso me aproxima muito da personagem. Faz com que eu consiga humanizá-la, porque tem muita da minha verdade ali.

Ela foi uma mulher que teve a virada da carreira dela depois dos 40 anos. Eu acabei de fazer 39 e estou fazendo a minha primeira protagonista. Então tem um lugar especial, porque eu tenho muito da história da Tina na minha história. E contar essa história de uma mulher tão forte, que sofreu tanta violência, com uma vitória, é muito especial.

O que mais te surpreendeu quando mergulhou na história dela além da imagem pública que todos conhecem?
O que mais me impressionou foi a certeza dela, a segurança de seguir em frente, a decisão de sempre seguir em frente. A gente sabe que a vida artística não é tão fácil e que a gente quer desistir muitas vezes. E ela sempre teve uma certeza de que ela tinha que seguir em frente. Isso fez ela chegar onde ela chegou. Então isso foi o que mais me surpreendeu na história. Nos momentos mais difíceis, ela escolheu olhar para frente.

Existe alguma fase da Tina, antes, durante ou depois de Ike, com a qual você se conectou mais profundamente?
Eu me conectei profundamente com a parte da história em que ela se separa do Ike, que é quando ela volta para o zero e precisa recomeçar a carreira dela sendo uma mulher preta com 40 anos naquela época. Então foi uma trajetória de muitos nãos. E ela já era a Tina Turner. E mesmo assim foram muitos nãos, porque para o mercado ela era velha. Esse foi um lugar com que eu me conectei muito profundamente.

Existe alguma música que te desafia mais emocionalmente do que tecnicamente?
Sim. A música que mais me emociona e que mais me desafia emocionalmente é a que mais me desafia tecnicamente, que é River Deep Mountain High. Essa música me emociona muito, porque ela é como se fosse uma transformação. E, para mim, como atriz, é um lugar em que eu pego força para ela começar a ter a virada de largar o Ike. E tecnicamente ela é muito difícil de cantar. Então segurar a emoção para pensar na técnica é um momento bem desafiador.

O espetáculo reforça a ideia de resistência de uma mulher preta diante da violência e do racismo. Como isso atravessa a sua atuação?
Foi muito difícil. A gente passou por momentos de construção mesmo. O nosso corpo, o nosso cérebro, não entende que a gente está brincando de fazer teatro. A gente manda para ele uma informação de agressão. Então foi muito difícil o processo, tanto para mim quanto para o César, porque também envolve criança. Então apanhar na frente das crianças, ele me agredir na frente das crianças, mesmo que tecnicamente, foi muito difícil.

Mas a gente teve um processo muito cuidadoso e respeitoso por parte da direção e da produção. E nos momentos em que a gente precisava se resguardar, se recompor, a gente tinha esses espaços. Então foi difícil, mas foi engrandecedor. Isso me atravessa de uma maneira muito forte. Principalmente nesse momento em que a gente está no Brasil, com tantas histórias de feminicídio, de estupro, de violência doméstica, de tanta coisa acontecendo, é muito forte a gente poder retratar isso com tanta realidade no palco. E o racismo me atravessa todos os dias.

Então, fazer a peça, tem dias em que a gente consegue fazer tecnicamente, mas todo dia é uma emoção diferente, assim como o racismo. Cada dia que a gente sofre alguma situação, a gente reage de uma maneira diferente. Tem dia que a gente devolve. Tem dia que a gente guarda, tem dia que a gente chora, tem dia que entra por um ouvido e sai pelo outro. Então é assim também no espetáculo. Cada dia a gente se sente de uma maneira diferente.

Você já disse que a ideia é fazer o público sentir que está em um show da própria Tina. Em que momento da apresentação você percebe que isso acontece?
Eu acho que o primeiro momento em que o público sente que está num show da Tina, num show mesmo, é quando tem a primeira transformação com a peruca icônica, que é quando eu canto What’s Love Got To Do It.

Nessa hora, eu consigo escutar da plateia os “uau”, sabe? Que realmente é a primeira vez que está como se fosse um show. O primeiro ato é muito a história da vida dela. Então acho que no “River Deep” é a primeira vez que as pessoas reconhecem uma proximidade com a Tina. Porque antes daquilo, ela, jovem, não está muito na memória afetiva do público. E a voz ainda não está com aquela característica da Tina, mas, a primeira vez que eles reconhecem um show da Tina é no “What’s Love Got To Do It”.

Como é a sua rotina durante a temporada, considerando a exigência física e emocional do papel?
A minha rotina durante a temporada é bem disciplinada. Eu preciso cuidar muito da minha voz. Eu faço vapor, vaporização, academia, nebulização, fono. Tudo o que está ao meu alcance para conseguir estar com o corpo e a voz em dia. E lá, durante o espetáculo, a gente também tem a preparação, com aquecimentos vocais e corporais. E eu preciso descansar. Estou realmente num momento em que a vida social não está sendo muito permitida, porque eu preciso de descanso acima de tudo isso.

Depois de viver Tina Turner tão intensamente, o que você leva dela para a sua vida pessoal?
O que eu levo dela para a minha vida é a resiliência. Essa coisa de seguir em frente, olhar para frente e continuar seguindo, acreditando que lá na frente vai ter algo. Que as coisas difíceis passam e viram uma coisa pequenininha lá atrás da nossa história.

Se pudesse resumir Tina em uma única palavra, não a artista, mas a mulher, qual seria?
Se eu pudesse resumir ela em uma palavra, seria força da natureza. Força.

O que você espera que o público leve consigo ao sair do teatro?
Eu espero que o público saia preenchido de muitos sentimentos. Sentimento de esperança, de que histórias difíceis podem ser vitoriosas. O sentimento de emoção de ter assistido a uma história tão bonita e tão forte. E o sentimento de adrenalina, de energia, de furacão, como termina o espetáculo. Que essas pessoas saiam arrebatadas e com essa energia boa.


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