East of Eden, Florence Pugh e o risco de transformar Cathy Ames em outra personagem

Desde que a Netflix anunciou uma nova adaptação de East of Eden, havia uma curiosidade inevitável em torno de Cathy Ames, não apenas porque ela permanece como uma das personagens femininas mais controversas da literatura americana, mas também porque Florence Pugh parecia uma escolha quase perfeita para interpretá-la, justamente por possuir essa capacidade rara de unir vulnerabilidade, magnetismo, sensualidade e ameaça dentro da mesma cena, algo essencial para uma personagem que atravessa o romance de John Steinbeck como uma presença quase impossível de domesticar.

Mas o primeiro teaser da série também provoca uma sensação estranha para quem conhece profundamente o livro publicado em 1952, porque tudo indica que a adaptação escrita por Zoe Kazan fará algo muito específico com Cathy: revisitar sua trajetória não mais como a encarnação absoluta do Mal, mas como uma personagem cuja monstruosidade talvez precise ser reinterpretada à luz de um olhar contemporâneo, e essa mudança altera profundamente a natureza de East of Eden.

No romance original, Cathy não funciona apenas como uma mulher cruel, manipuladora ou emocionalmente destrutiva, já que Steinbeck a escreve quase como uma entidade metafísica, alguém frequentemente descrito como incapaz de empatia, incapaz de amar e incapaz até mesmo de existir plenamente dentro da lógica humana comum, fazendo com que o livro abandone diversas vezes qualquer tentativa real de compreendê-la psicologicamente, como se Cathy representasse menos uma pessoa e mais uma espécie de serpente infiltrada dentro do paraíso americano construído pela família Trask.

Esse aspecto sempre tornou a personagem simultaneamente fascinante e profundamente desconfortável, porque Cathy Ames nunca pede desculpas ao leitor, nunca busca absolvição moral e nunca tenta se encaixar dentro de uma lógica emocional tranquilizadora, existindo quase como uma força de destruição atravessando aquela família enquanto Steinbeck insiste em tratá-la como algo próximo do inumano.

O teaser da Netflix, no entanto, desloca completamente essa perspectiva logo em seus primeiros segundos, porque a primeira voz da série não pertence a um narrador masculino observando Cathy de fora, nem a Adam, Cal ou qualquer outro personagem associado à estrutura bíblica clássica do romance, mas à própria Cathy, que surge dizendo:

“Quando eu era uma garotinha, imaginava que poderia ficar cada vez menor… porque o mundo é tão cheio de maldade.”

A frase altera imediatamente a relação do espectador com a personagem, porque, enquanto no livro original o mal parece emanar dela própria, a adaptação sugere que o mundo já existia como um espaço corrompido antes mesmo de Cathy ocupar esse lugar simbólico dentro da narrativa, fazendo com que a violência deixe de ser apenas algo produzido por ela e passe também a existir no ambiente que a cerca.

A própria descrição oficial da Netflix praticamente confirma essa mudança ao definir Cathy Ames como uma “antihero”, termo particularmente revelador porque Cathy nunca pertenceu exatamente ao universo das anti-heroínas contemporâneas, já que figuras modernas desse tipo costumam ser construídas a partir de trauma, repressão, misoginia estrutural, violência social ou mecanismos psicológicos de sobrevivência, enquanto Cathy pertence muito mais a uma tradição bíblica, alegórica e quase gótica, funcionando dentro do romance como uma ruptura radical da própria ideia de humanidade.

Talvez seja justamente isso que Zoe Kazan queira questionar, especialmente porque a adaptação parece menos interessada em negar a monstruosidade de Cathy e mais empenhada em investigar como determinadas mulheres foram historicamente transformadas em símbolos absolutos do mal dentro de narrativas profundamente masculinas.

Críticos estranharam também que o teaser funciona praticamente como um “tributo a Florence Pugh”, uma percepção que faz sentido porque toda a construção visual da prévia parece obcecada pela presença da atriz, criando uma atmosfera de glamour sombrio em torno de Cathy enquanto ela surge vestida de preto em um funeral, usando óculos escuros e casacos pesados, quase como uma estrela de cinema clássico atravessando um melodrama gótico americano.

Sim, elementos da história estão lá: o relacionamento sem amor com Adam Trask, a troca de olhares com Charles Trask na noite do casamento; os filhos Cal e Aaron, sua aversão à maternidade, o prostíbulo que Cathy gerencia… mas claramente teremos uma “justificativa” para tudo de mal que ela faz e quem conhece a história sabe que ela é muito, mas muito mesmo, má.

Vai causar estranhamento aos adeptos ao original de Steinbeck, que passou o romance inteiro tentando tornar Cathy quase incompreensível, inacessível e emocionalmente indecifrável, enquanto a série parece interessada justamente em expandi-la, aprofundá-la e transformá-la em uma presença subjetivamente maior, mais complexa e talvez até humana demais.

E é exatamente nesse ponto que mora a tensão mais delicada da adaptação, porque existe hoje uma dificuldade cultural muito maior em aceitar personagens femininas tratadas simplesmente como más, fazendo com que o público contemporâneo frequentemente exija contexto psicológico, origem traumática e explicações emocionais para figuras femininas violentas ou destrutivas, ao mesmo tempo em que demonstra muito menos tolerância para mulheres escritas como mistério maligno absoluto.

Só que Cathy Ames funciona justamente porque ela assusta, já que Steinbeck nunca tenta suavizá-la ou organizá-la dentro de uma narrativa confortável de vítima ou produto social, recusando qualquer tentativa de oferecer ao leitor segurança moral diante dela, o que transforma a personagem em uma das figuras mais radicais da literatura americana do século 20.

Se a adaptação transformar Cathy apenas em uma mulher traumatizada por um mundo cruel, parte da força original da personagem inevitavelmente desaparece, embora também seja possível que Zoe Kazan esteja buscando algo mais complexo do que uma simples humanização, especialmente porque a série parece interessada em discutir como o olhar masculino ajudou historicamente a fabricar determinadas figuras femininas monstruosas.

Existe ainda um elemento quase metalinguístico em tudo isso, já que o filme clássico de East of Eden, lançado em 1955, foi dirigido justamente por Elia Kazan, avô de Zoe, em uma adaptação eternamente associada ao sofrimento de Cal Trask e à presença de James Dean, enquanto agora a neta retorna à mesma obra deslocando o foco para Cathy Ames, quase como se estivesse revisitando criticamente não apenas o romance de Steinbeck, mas também a tradição cultural que ajudou a consolidar aquela personagem como símbolo absoluto do mal feminino.

A pergunta central deixa então de ser apenas “quem é Cathy Ames?” para se transformar também em “quem contou sua história antes?”, e talvez seja exatamente isso que esteja causando estranhamento já no teaser, porque mexer em Cathy significa mexer no próprio eixo filosófico de East of Eden, fazendo com que a obra deixe parcialmente o terreno bíblico do pecado, do livre-arbítrio e da herança moral para entrar em uma discussão muito mais contemporânea sobre gênero, narrativa, trauma e construção do monstruoso feminino.


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