Uma jovem camponesa insistir em casar por amor já foi algo profundamente revolucionário. Mais ainda às vésperas da Revolução Francesa, um balé ousou abandonar reis, fadas e tragédias aristocráticas para colocar no palco pessoas comuns, humor e desejo. Foi assim que nasceu La Fille Mal Gardée, apresentado pela primeira vez em julho de 1789, apenas dias antes da Tomada da Bastilha transformar definitivamente a História da França.
Mais de dois séculos depois, o clássico retorna ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro em nova temporada após o enorme sucesso da montagem de 2024.
Conversando com a Revista Bravo!, Clara Paulino, diretora do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, acredita que o sucesso das temporadas do balé talvez não represente exatamente um fenômeno novo, mas sim uma mudança no acesso à programação cultural, apoiada por iniciativas como ingressos mais acessíveis, projetos educacionais e a abertura do teatro para diferentes públicos.
“Talvez não seja um aumento do interesse do público, mas uma questão de como ofertar essa programação e tornar esse espaço mais democrático”, avaliou.

O desafio de fazer o difícil parecer leve
Mas existe um detalhe curioso e particular sobre La Fille Mal Gardée: apesar da atmosfera leve, pastoral e cômica, o espetáculo está longe de ser simples para seus bailarinos.
Muito pelo contrário.
A dificuldade técnica da obra é enorme e exige algo raro dentro do repertório clássico. Além da precisão corporal, os intérpretes precisam atuar, sustentar o humor da narrativa, trabalhar pantomima, expressão facial e tempo cênico enquanto executam coreografias extremamente complexas sem demonstrar esforço.
A primeira bailarina Juliana Valadão explica que justamente aí está um dos maiores desafios. “A gente ensaia muito a parte técnica e aí entra esse equilíbrio entre a dificuldade técnica, a leveza e a parte artística”, afirma. Segundo ela, esse ajuste nunca termina completamente. “Depois de cada apresentação a gente alinha coisas. É uma arte que nunca vai estar cem por cento.”
O primeiro bailarino Cícero Gomes concorda que o paradoxo central de La Fille Mal Gardée está justamente em fazer o extremamente difícil parecer natural diante do público. “Existe algo particularmente complicado em fazer um balé tão leve parecer tão natural no palco”, explica. “Você tem que parecer leve enquanto está fazendo coisas absurdamente difíceis. Mas aí também está o prazer.”

Juliana destaca que La Fille Mal Gardée exige uma combinação rara entre virtuosismo e interpretação. “Tem os equilíbrios, os passos rápidos e curtos, a fita, as mímicas, a mis en scène”, diz. “A gente está o tempo inteiro em cena e o maior desafio é vencer o cansaço, porque ele pode atrapalhar tanto a parte técnica quanto a artística.”
Para Cícero, esse desgaste físico aparece logo nos primeiros momentos no palco. “Um dos momentos mais difíceis da coreografia, sem dúvida nenhuma, é a primeira variação do Colas”, afirma. “Ele já entra em cena fazendo uma variação absolutamente técnica, que leva o corpo ao pico de exaustão logo no primeiro minuto.”
Segundo Hélio Bejani, diretor do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, esse equilíbrio entre técnica, musicalidade e interpretação também foi uma das prioridades da nova montagem assinada por Ricardo Alfonso. “A versão do Ricardo Alfonso tem um olhar na parte interpretativa para além da técnica, com uma musicalidade primorosa e um humor mais próximo da personalidade do brasileiro, até por conta de ele ser sul-americano”, explica.
Bejani destaca ainda que, por se tratar de uma comédia, o principal desafio da companhia foi encontrar naturalidade em cena sem transformar os personagens em caricaturas. “O foco principal foi trabalhar a naturalidade dos bailarinos para não se apresentarem de uma forma caricata.”
Talvez seja justamente esse contraste entre dificuldade extrema e aparência de espontaneidade que tenha transformado o balé em um dos títulos mais amados da história da dança.

O anti-Giselle
Criada originalmente por Jean Dauberval, La Fille Mal Gardée sobreviveu às revoluções políticas e às transformações do próprio balé clássico graças às versões preservadas na Rússia. Décadas depois, Frederick Ashton transformaria o espetáculo em um clássico moderno ao criar, em 1960, sua versão definitiva para o Royal Ballet de Londres.
Foi Ashton quem compreendeu que a leveza de La Fille Mal Gardée não diminuía sua sofisticação. Pelo contrário. Tudo no espetáculo precisa parecer natural, delicado e divertido mesmo sendo tecnicamente rigoroso.
Na trama, Lise é filha da viúva Simone, dona de uma fazenda que sonha casar a jovem com Alain, herdeiro de uma família rica, mas atrapalhado e infantil. O problema é que Lise ama o jovem camponês Colas. Entre encontros escondidos, confusões domésticas e cenas cômicas, o balé acompanha as tentativas da protagonista de escapar do destino planejado pela mãe.
E talvez seja justamente a humanidade desses personagens que continue aproximando o público da obra depois de mais de 230 anos.
“Lise não é uma princesa, não é uma fada, não é um ser etéreo”, explica Juliana Valadão. “Ela é uma pessoa normal, cheia de personalidade. Isso é muito gostoso porque é diferente.”
Cícero Gomes acredita que Colas também possui essa dimensão particularmente humana e aberta à interpretação individual de cada bailarino. “A diferença de La Fille em relação aos outros clássicos, além de ter sido um dos primeiros a colocar pessoas normais na narrativa, é justamente essa”, afirma. “Quanto mais naturalidade você coloca, mais vivo o personagem fica. O Colas é uma pessoa muito fácil para cada bailarino criar o seu próprio herói. Existem inúmeras possibilidades.”
Bejani acredita que essa proximidade emocional ajuda a explicar por que o balé continua encontrando novas plateias mesmo depois de mais de dois séculos ”O público vivencia a história como se fizesse parte dela,” opina.
Ao contrário de tantos grandes balés clássicos marcados por tragédias, fantasmas e amores destruídos, La Fille Mal Gardée constrói sua força justamente a partir dessa alegria. Em muitos sentidos, o espetáculo funciona quase como um anti-Giselle: evitando a todo custo o dramalhão e preferindo as risadas da plateia.

Por que La Fille Mal Gardée continua funcionando
Paulino também acredita que parte da força duradoura da obra está justamente nessa leveza narrativa e no modo como o público participa emocionalmente da história. ““Ver a Madame Simone querendo casar a filha com um rapaz rico enquanto essa menina malcriada está apaixonada por um camponês faz com que o público se envolva muito,” diz.
A escolha da obra para abrir a temporada de balé de 2026 dialoga diretamente com essa atmosfera mais luminosa. “O motivo da escolha desse título foi realmente abrir a temporada com alegria, com uma obra tão leve e tão boa.”
Essa atmosfera também transforma a experiência emocional dos próprios intérpretes. “É muito legal dançar um balé em que a gente está feliz do início ao fim”, afirma Juliana. “É diferente dos balés mais dramáticos, dos balés com sofrimento. A gente entra mais leve.”
Cícero destaca especialmente um dos momentos mais delicados e engraçados da narrativa. “Não tenho exatamente uma cena favorita porque a história toda é muito gostosa de contar”, diz. “Mas a cena em que a Lise está sozinha sonhando em casar e ter filhos enquanto o Colas fica escondido ouvindo tudo e a pega no flagra, é muito divertida.”
La Fille Mal Gardée reúne jovens destaques do Ballet do Theatro Municipal e fica em cartaz até o dia 24 de maio.
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