“Surda”: o filme espanhol que emocionou o Goya ao mostrar a maternidade pelo olhar de uma mulher surda

Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL

Poucos filmes recentes conseguiram provocar uma reação tão emocional no cinema espanhol quanto Surda. Vencedor de três prêmios Goya, incluindo atriz-revelação para Miriam Garlo, o longa dirigido por Eva Libertad se tornou um dos títulos mais comentados do ano justamente porque fala sobre maternidade, culpa, isolamento e comunicação de uma maneira raramente vista nas telas.

A história acompanha Angela, uma mulher surda que vive com Héctor, seu companheiro ouvinte. Quando ela engravida da primeira filha do casal, o medo de não conseguir estabelecer vínculo com a criança começa lentamente a crescer. A insegurança aumenta especialmente diante da possibilidade da bebê ser ouvinte e viver em um universo de comunicação que Angela nem sempre consegue acessar da mesma forma.

Mas o grande diferencial de Surda é que o filme nunca transforma sua protagonista em uma figura idealizada ou inspiracional. Angela erra, se irrita, entra em crise, se fecha emocionalmente e enfrenta uma forte depressão pós-parto.

“A gente quis visibilizar uma mulher surda autêntica, real, que não tinha que ser perfeita”, explicou Miriam Garlo durante nossa conversa.

O projeto nasceu de uma experiência íntima entre as duas irmãs. Antes do longa, Eva Libertad e Miriam haviam realizado um curta sobre o mesmo tema. Na época, Miriam refletia sobre a possibilidade de ser mãe e compartilhou inseguranças que acabaram dando origem à história.

“Ela dividiu comigo as dúvidas e inseguranças que sentia quando se pensava como a mais surda em um mundo ouvinte”, contou Eva.

O sucesso do curta fez as duas perceberem que existia algo ainda mais profundo para explorar.

“Eu queria saber o que aconteceria se ela engravidasse, se a criança fosse ouvinte ou surda e como seria o relacionamento dela com o filho”, disse a diretora.

O resultado é um filme que vai muito além da discussão sobre deficiência. Surda fala sobre algo universal: o medo de não conseguir se sentir compreendida dentro das relações mais íntimas.

Eva Libertad contou que ficou surpresa com a reação de muitas mulheres ouvintes após as exibições.

“Muitas mães me escreveram dizendo: eu não sou surda, mas eu sou Angela.”

Parte da força do filme também está na maneira como ele trabalha o som. Em diversos momentos, o espectador passa a experimentar o ambiente como Angela percebe, com mudanças bruscas de áudio, silêncios repentinos e fragmentos sonoros abafados.

“Eu precisava colocar o público ouvinte dentro da pele da Angela”, explicou Eva.

A sequência do parto se tornou uma das cenas mais comentadas do longa. Segundo a diretora, ela foi construída a partir de relatos reais de mulheres surdas.

“Era muito importante transmitir aquele isolamento, aquela incomunicação e aquele medo em que ela está sozinha, sem conseguir entender, ficando muito vulnerável”, contou.

Eva também revelou que os profissionais médicos vistos na cena não eram atores, mas médicos reais.

Outro aspecto importante do filme é a discussão sobre representação no cinema. Miriam Garlo destacou que pessoas surdas ainda enfrentam resistência para serem vistas como atrizes capazes de interpretar personagens ficcionais complexos.

“Existe um estigma de que, se você é surda, o público acha que você está apenas sendo você mesma diante da câmera”, disse a atriz.

Ela reforça que Angela não é um retrato autobiográfico.

“Tudo o que acontece no filme é ficção.”

Quando Miriam venceu o Goya de atriz de revelação, tornando-se a primeira atriz surda a conquistar o prêmio, o momento teve enorme impacto para a comunidade surda espanhola.

“Foi algo simbólico e muito importante”, disse Eva.

Para Miriam, no entanto, o prêmio representa apenas um começo.

“Tem muitas outras atrizes, atores, roteiristas e equipes técnicas surdas que também precisam ter espaço.”

Talvez o maior mérito de Surda seja justamente esse: mostrar que histórias sobre deficiência não precisam existir apenas como lições de superação. Elas também podem ser complexas, contraditórias, íntimas e profundamente humanas.


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