Quem realmente controla a imagem de Marilyn Monroe?

Poucas figuras da cultura pop permanecem tão presentes no imaginário coletivo quanto Marilyn Monroe. Seu rosto continua estampando camisetas, perfumes, campanhas de luxo, coleções de maquiagem, exposições, pôsteres, canecas, joias e anúncios publicitários ao redor do mundo. Em muitos casos, mais do que uma atriz, Marilyn virou uma linguagem visual instantaneamente reconhecível. O problema é que, por trás dessa permanência aparentemente simples, existe uma das disputas mais complexas da história recente envolvendo imagem, memória, celebridade e propriedade intelectual.

O centenário de nascimento da atriz, celebrado em 2026, reacendeu justamente uma dúvida que parece simples, mas está longe de ser: a imagem de Marilyn Monroe finalmente entrou em domínio público?

A resposta curta é não.

E a longa é ainda mais interessante.

Porque Marilyn Monroe não existe juridicamente como uma única entidade. Sua imagem está fragmentada entre fotógrafos, espólios, estúdios, marcas registradas, contratos de publicidade e diferentes legislações internacionais. Dependendo do que se usa, de quem utiliza e em qual país isso acontece, os direitos mudam completamente.

Hoje, a maior parte da exploração comercial oficial ligada ao nome e à marca Marilyn Monroe é controlada pela Authentic Brands Group, empresa responsável também por administrar nomes como Elvis Presley, Muhammad Ali e Sports Illustrated. É ela quem licencia oficialmente produtos, campanhas e usos comerciais associados à identidade Marilyn Monroe.

Mas a história começa muito antes disso.

Quando Marilyn morreu, em 1962, grande parte de seu espólio foi deixada para Lee Strasberg, diretor do Actor’s Studio e uma das figuras mais importantes de sua vida profissional. Décadas depois, o controle passou para Anna Strasberg, viúva de Lee, justamente no momento em que a cultura pop dos anos 1980 e 1990 transformou Marilyn em uma máquina global de consumo visual.

Foi ali que sua imagem começou a deixar de ser apenas memória cinematográfica para virar uma das marcas mais lucrativas do entretenimento. Não por acaso, a gestão passou a funcionar quase como a de uma grande empresa. Licenciamentos foram organizados, contratos assinados e o rosto de Marilyn começou a aparecer em praticamente qualquer tipo de produto imaginável.

Ao mesmo tempo, porém, surgiu um problema jurídico enorme: Marilyn Monroe não era apenas uma marca. Ela também era um arquivo fotográfico gigantesco espalhado entre diferentes fotógrafos, estúdios e colecionadores.

O mesmo acontece com os filmes. Obras como Some Like It Hot, Gentlemen Prefer Blondes e The Seven Year Itch continuam pertencendo aos estúdios que as produziram. O fato de Marilyn completar 100 anos não altera automaticamente esses copyrights.

E é aí que a questão fica mais complicada.

Muitas das imagens mais famosas da atriz não pertencem ao espólio que controla seu nome. Pertencem aos fotógrafos que as produziram ou aos arquivos que herdaram esses direitos. Fotos de Milton Greene, Sam Shaw, Bert Stern e George Barris possuem proprietários específicos. Isso significa que alguém pode controlar comercialmente a marca “Marilyn Monroe”, mas não necessariamente uma determinada fotografia dela.

Existe ainda outro detalhe importante: algumas imagens promocionais antigas eventualmente podem cair em domínio público em determinados países antes da própria identidade comercial “Marilyn Monroe” deixar de ser protegida. Em outras palavras, uma fotografia específica pode teoricamente circular livremente em certos contextos, enquanto o uso comercial daquela mesma imagem ainda pode gerar disputa judicial.

Isso ajuda a explicar por que Marilyn ocupa hoje uma posição tão singular na cultura pop. Ela parece estar em todos os lugares, quase como uma figura pública universal, mas juridicamente continua cercada por camadas privadas de controle.

Existe ainda uma camada decisiva nessa história. Durante anos, o espólio tentou garantir judicialmente os chamados “direitos de publicidade” pós-morte da atriz, especialmente na Califórnia, onde esse tipo de proteção costuma ser forte para celebridades. O problema é que, após sua morte, representantes do espólio declararam oficialmente que Marilyn era residente de Nova York. E Nova York não reconhecia, naquele momento, o mesmo tipo de proteção pós-morte existente na Califórnia.

O resultado foi uma ironia brutal. A própria estratégia jurídica usada décadas antes para lidar com impostos e herança acabou enfraquecendo parte do controle posterior sobre sua imagem.

Mais do que uma disputa empresarial, isso revela algo profundamente contemporâneo sobre Marilyn Monroe. Sua imagem se tornou tão grande que já não pertence completamente a ninguém. Nem ao espólio, nem aos estúdios, nem às empresas que hoje administram sua marca.

Talvez porque Marilyn tenha deixado de existir apenas como pessoa há muito tempo.

Ela virou uma espécie de memória coletiva do século 20.

E existe algo quase melancólico nisso. Marilyn passou a vida tentando controlar a própria imagem, lutando contra o modo como Hollywood a transformava em produto, fantasia e projeção masculina. Criou sua própria produtora, brigou com estúdios, estudou atuação seriamente em Nova York e tentou romper com a caricatura da “loira burra” que o sistema insistia em vender.

Cem anos após seu nascimento, sua imagem continua sendo disputada exatamente porque permanece valiosa demais para desaparecer.

No fundo, a batalha pelos direitos de Marilyn Monroe talvez seja menos sobre propriedade intelectual e mais sobre algo muito maior: quem tem o direito de administrar um mito depois que ele deixa de pertencer à própria pessoa que o criou.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

1 comentário Adicione o seu

Deixe um comentário