Estou com dificuldade de avaliar Half Man. Não porque a série seja ruim, vazia ou irrelevante. Muito pelo contrário. Richard Gadd continua sendo um dos showrunners mais interessantes surgidos na televisão britânica nos últimos anos justamente porque insiste em olhar para zonas emocionais que quase ninguém quer tocar. O problema talvez seja outro: Baby Reindeer foi tão extraordinária, tão precisa e tão emocionalmente devastadora que qualquer obra posterior inevitavelmente entra em diálogo com ela, mesmo quando talvez não devesse.
E eu ainda não consegui escapar completamente dessa armadilha.


A história de Half Man é, no fundo, relativamente simples. Dois garotos crescem em um ambiente atravessado por violência, repressão emocional, masculinidade tóxica e homofobia. Existem atração, medo, ressentimento, desejo transformado em agressividade e uma dificuldade quase insuportável de existir fora dos códigos masculinos que os cercam. O que Gadd parece querer investigar aqui não é apenas a homofobia “externa”, mas também aquela que permanece dentro da própria comunidade queer, inclusive entre homens gays ou bissexuais incapazes de aceitar plenamente a própria sexualidade.
E talvez esse seja justamente o aspecto mais desconfortável — e mais interessante — da série.
Assim como aconteceu recentemente em produções como The Beast in Me e Pluribus, Gadd parece rejeitar completamente a ideia de personagens LGBTQIA+ construídos para serem “representativos”, simpáticos ou pedagogicamente organizados. Seus personagens são contraditórios, ressentidos, às vezes profundamente cruéis uns com os outros. Existe algo bastante corajoso nessa decisão de mostrar pessoas queer que não necessariamente encontraram comunidade, pertencimento ou paz emocional apenas porque saíram do armário.



O problema é que, embora os elementos sejam realistas, eles também podem soar distantes para quem nunca viveu esse tipo específico de experiência emocional. E acho que Baby Reindeer conseguia superar exatamente essa barreira.
Mesmo quando falava sobre stalking, abuso sexual, vergonha ou sexualidade reprimida, a série encontrava uma maneira de transformar tudo aquilo em algo universalmente reconhecível. A humilhação. A necessidade de aprovação. O autoengano. O desejo de ser amado mesmo dentro de relações destrutivas. Existia uma precisão emocional tão grande que a experiência deixava de pertencer apenas ao trauma específico de Richard Gadd.
Em Half Man, essa ponte nem sempre acontece.
Existe uma sensação constante de construção. De atmosfera. De mecanismo narrativo. Os slow motions, os olhares ameaçadores, os silêncios carregados, a tensão permanente de violência iminente. É como se a série sublinhasse continuamente algo que o espectador já entendeu muito antes dela. O “mistério” emocional raramente parece realmente misterioso.
E talvez isso fique ainda mais evidente na estrutura não linear.


Não é segredo que eu não sou particularmente fã desse uso excessivo de fragmentação temporal que domina a televisão contemporânea. Não porque eu queira narrativas cartesianas ou lineares por obrigação, mas porque o embaralhamento cronológico passou a funcionar quase como sinônimo automático de profundidade psicológica. E, para mim, quando o recurso é usado o tempo inteiro, ele começa justamente a perder sua força.
Em Half Man, isso pesa bastante. Ruben morreu? Sim? Não? Por que Niall e Ruben ainda estão brigando se pareciam reconciliados? A tensão sexual entre os dois ainda existe? Vai voltar? Em muitos momentos, a série parece menos interessada em aprofundar emocionalmente essas perguntas do que em mantê-las suspensas para produzir sensação de mistério.
E talvez seja aí que ela mais se distancie de Baby Reindeer. A série anterior escondia informações, mas nunca parecia construída ao redor do suspense. O impacto vinha da exposição emocional brutal. Da sensação desconfortável de que Gadd estava disposto a desmontar a si mesmo diante do espectador.
Half Man é mais opaca. Mais estilizada. Mais consciente da própria construção.
Ainda assim, existe algo muito valioso nela. Porque Richard Gadd continua sendo um autor raríssimo ao mostrar homens emocionalmente destruídos sem transformá-los necessariamente em mártires, vítimas perfeitas ou figuras heroicas. Ele entende algo que poucas séries contemporâneas conseguem captar: sair do armário não significa automaticamente resolver a vergonha, o ressentimento ou a violência internalizada.

E muito disso funciona graças à interpretação densa, forte e quase implacável de Jamie Bell. Há anos Bell merecia um personagem tão controverso, emocionalmente ambíguo e desafiador quanto Niall. Existe algo profundamente desconfortável na maneira como ele interpreta repressão, desejo, medo e violência sem jamais transformar o personagem em alguém facilmente decifrável ou simpático. Mesmo nos momentos em que a estrutura narrativa parece excessivamente calculada, Bell mantém a série emocionalmente viva. Seu Niall nunca soa como arquétipo ou tese; ele permanece humano demais para isso.
Talvez seja justamente isso que torne Half Man tão desconfortável. E talvez também explique por que ela parece menos imediata emocionalmente do que Baby Reindeer. A primeira série parecia um sangramento aberto. Half Man, em comparação, às vezes soa como uma cicatriz sendo analisada com distância demais.
Mas continuo me perguntando se a série realmente é menor ou se eu apenas ainda não consegui parar de assistir a tudo que Richard Gadd faz esperando sentir novamente o impacto quase irrepetível de Baby Reindeer.
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