Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL
A volta de La Fille Mal Gardée ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro confirma o enorme interesse do público carioca pelos grandes balés narrativos. A obra aparece como um exemplo particularmente interessante da relação histórica da cidade com balés leves, teatrais e emocionalmente acessíveis.
Porque, ao contrário da imagem mais solene frequentemente associada ao repertório clássico, La Fille Mal Gardée pertence a uma linhagem diferente dentro da dança. É um balé cômico e profundamente ligado ao cotidiano. Obras como Coppélia, Dom Quixote e O Corsário sempre ocuparam esse espaço de enorme identificação popular no Rio, e La Fille parece ter reencontrado exatamente essa mesma conexão com a plateia contemporânea. Seu retorno recente ajudou, inclusive, a recolocar o título de forma mais consistente dentro da programação do Municipal.
Porque, em teoria, o balé não deveria sobreviver tão bem ao nosso tempo.


Criado originalmente em julho de 1789, apenas duas semanas antes da Revolução Francesa, La Fille Mal Gardée fez o impensável: quebrou paradigmas. Enquanto boa parte do repertório clássico já era associada a princesas amaldiçoadas, amores impossíveis, fantasmas e tragédias românticas, La Fille sobreviveu falando de algo muito mais simples: uma jovem camponesa tentando escapar de um casamento arranjado para ficar com o homem que ama.
A trama parece quase pequena diante da grandiosidade de títulos como Giselle ou Lago dos Cisnes, mas talvez justamente por isso continue funcionando tão bem. Era uma mudança artística silenciosa, mas profundamente ligada ao espírito daquele momento histórico, porque o público já parecia interessado em enxergar a si mesmo no palco.
Mais ainda: enquanto tantos títulos clássicos se estruturam ao redor da destruição feminina, Lise permanece uma personagem curiosamente moderna. Rebelde, irônica, apaixonada e ativa dentro da própria história, ela não enlouquece, não morre, não se sacrifica. Engana a mãe, manipula a situação a seu favor e termina ao lado de Colas, igualmente inteligente e determinado.
Em certo sentido, La Fille Mal Gardée sempre foi um anti-Giselle.
Como revoluções salvaram o balé do desaparecimento
Curiosamente, a longevidade desse que é um dos mais antigos balés clássicos ainda em produção se deu por conta de algo ainda mais improvável: revoluções políticas reais.
O balé escapou do desaparecimento porque encontrou uma segunda vida na Rússia imperial, onde foi absorvido pelo repertório russo e transmitido entre gerações de bailarinos justamente quando a França já quase havia esquecido sua existência.
E ter uma camponesa como protagonista permitiu que La Fille Mal Gardée sobrevivesse com relativa naturalidade dentro do repertório soviético. De forma quase tortuosa, isso acabaria levando o balé de volta à Inglaterra quando Frederick Ashton o redescobriu e criou a versão considerada hoje a definitiva do espetáculo.


É impossível falar de La Fille Mal Gardée sem falar de Ashton.
Sua montagem para o Royal Ballet transformou a obra em um clássico moderno ao equilibrar virtuosismo técnico e humor de maneira quase perfeita. Em 2026, além do Theatro Municipal do Rio, companhias como o próprio Royal Ballet — que levou a obra para sua turnê asiática — e o Birmingham Royal Ballet mantêm o espetáculo em cartaz, reforçando como La Fille continua ocupando um espaço raro dentro do repertório internacional.
A dificuldade invisível da leveza
Ashton compreendeu algo fundamental: a leveza do balé não diminuía sua dificuldade. Pelo contrário. Poucas obras exigem tanto controle de musicalidade, precisão corporal e capacidade de interpretação quanto La Fille. Tudo parece espontâneo, mas absolutamente nada é simples.
As danças das fitas, os jogos de mímica, os tempos cômicos, a delicadeza pastoral e até a famosa dança dos tamancos da Viúva Simone dependem de um refinamento técnico gigantesco justamente porque o espetáculo não pode parecer pesado em nenhum momento.
Talvez seja isso que faça o balé permanecer tão amado pelo público. La Fille Mal Gardée oferece uma sensação rara dentro da dança clássica: alegria genuína. Não como superficialidade, mas como construção estética sofisticada. Existe algo profundamente difícil em criar leveza convincente.
Essa naturalidade aparente talvez seja justamente o aspecto mais difícil do espetáculo. A primeira bailarina Juliana Valadão observa que La Fille exige um equilíbrio raro entre precisão técnica e espontaneidade cênica, já que os personagens precisam parecer vivos o tempo inteiro, nunca apenas executando passos.

“Estamos o tempo inteiro em cena e o maior desafio é vencer o cansaço, porque ele pode atrapalhar tanto a parte técnica quanto a artística”, comentou a bailarina para o Blog do Amaury Jr. via Miscelana, em meio aos ensaios finais.
Ao seu lado, o primeiro bailarino Cícero Gomes, intérprete de Colas, concorda que o desafio também está na construção do humor sem exageros.
“Existe algo particularmente complicado em fazer um ballet tão leve parecer tão natural no palco. É extremamente desafiador, mas também muito prazeroso”, reflete.
E a verdade é que o espetáculo só funciona quando os personagens permanecem humanos e emocionalmente reconhecíveis.
“Por se tratar de uma obra cômica, o foco principal foi trabalhar a naturalidade dos bailarinos para não se apresentarem de uma forma caricata”, afirma Hélio Bejani, diretor do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Isso faz sentido. La Fille Mal Gardée exige bailarinos que saibam tanto atuar quanto dançar. O humor do espetáculo depende menos da caricatura e mais da capacidade de tornar seus personagens humanamente reconhecíveis. A Viúva Simone, Alain e a própria Lise só funcionam quando parecem humanos o suficiente para que o público ria deles e também se identifique com eles.

A versão carioca e o reencontro com o público
No Rio, a montagem atual é assinada por Ricardo Alfonso, bailarino e coreógrafo cubano radicado no Brasil, responsável por adaptar a tradição inglesa da obra ao perfil dramatúrgico e interpretativo da companhia carioca.
“A versão do Ricardo Alfonso tem um olhar na parte interpretativa para além da técnica, com uma musicalidade primorosa e um humor mais próximo à personalidade do brasileiro, até por conta de ele ser sul-americano”, elogia Bejani.
Com pequenas mudanças dramatúrgicas e adaptações cênicas, a produção dialoga diretamente com a tradição inglesa, mas encontra um caminho próprio ao enfatizar o aspecto teatral da narrativa.
Existe ainda outro detalhe interessante nessa retomada do Municipal: o próprio histórico da obra dentro do teatro. Não é à toa que, durante décadas, La Fille Mal Gardée se manteve como um dos títulos mais queridos do repertório carioca, mesmo tendo ficado fora dos palcos por muitos anos. Seu retorno em 2024 não parece apenas uma recuperação de repertório, mas parte de um movimento maior do Municipal de reconectar o público às grandes produções clássicas.
“São versões diferenciadas, com características específicas tanto técnica quanto artisticamente, mas o equilíbrio está na qualidade apresentada nas duas versões”, observa Bejani sobre as diferentes leituras da obra ao longo das décadas.

E talvez as últimas temporadas do Ballet do Theatro Municipal do Rio tenham mostrado algo importante sobre o perfil dessa plateia contemporânea.
Durante muito tempo existiu uma ideia quase automática de que o balé clássico sobreviveria apenas como tradição institucional ou nicho cultural. Mas a resposta do público carioca parece apontar outra coisa: ainda existe enorme demanda por espetáculos visualmente grandiosos, emocionalmente acessíveis e artisticamente sofisticados.
Num momento em que grande parte do entretenimento contemporâneo se organiza pela fragmentação e velocidade, o sucesso dessas temporadas talvez revele também um desejo contrário: o de voltar a experienciar narrativas construídas com tempo, música, corpo, presença e ritual coletivo.
Nesse sentido, o sucesso contínuo de La Fille Mal Gardée deixa de parecer improvável.
Depois de 237 anos, o balé segue lembrando algo que o repertório clássico às vezes esquece: leveza também exige sofisticação. E talvez seja justamente por isso que a obra continue encontrando novas plateias.

“Acredito que, acima de tudo, por se tratar de um ballet que trata de pessoas comuns e não de seres alados e etéreos. Este fato aproxima o público que vivencia a história como se fizesse parte dela”, resume Bejani.
Em um momento histórico dominado pela velocidade, pela fragmentação e pelo excesso de estímulo, ainda existe algo profundamente poderoso na experiência de ver corpos ocupando o palco para contar uma história simples, humana e musicalmente construída diante do público.
Serviço
La Fille Mal Gardée — Ballet e Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Local: Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Temporada: de 13 a 24 de maio de 2026
Horários: apresentações às 19h; matinês aos sábados e domingos, às 17h
Projeto Escola: apresentação especial no dia 19 de maio, às 14h
Equipe artística
• Coreografia e concepção: Ricardo Alfonso
• Regência: Jésus Figueiredo
• Supervisão artística: Hélio Bejani e Jorge Teixeira
Ingressos
Ingressos disponíveis na bilheteria do Theatro Municipal.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
