Há uma frase dita por Eva Libertad durante nossa conversa que talvez explique por que Surda emocionou tantas mulheres, inclusive mulheres ouvintes, muito além da discussão sobre deficiência. “Muitas mães me escreveram dizendo: eu não sou surda, mas eu sou a Angela.”
O filme espanhol, vencedor de três prêmios Goya e um dos fenômenos recentes do cinema europeu, acompanha Angela, uma mulher surda que enfrenta a maternidade enquanto tenta sobreviver ao medo de não conseguir se comunicar com a própria filha. Mas reduzir Surda apenas à experiência da surdez talvez seja não perceber a profundidade emocional do que o longa realmente discute.
O filme fala sobre algo que atravessa muitas mulheres: culpa, solidão, inadequação, exaustão emocional e o medo íntimo de não conseguir estabelecer vínculo com quem mais se ama.
E talvez por isso a experiência seja tão devastadora.
Ao longo da conversa com a diretora Eva Libertad e com a atriz Miriam Garlo, irmãs também na vida real, ficou claro que o longa nasceu justamente dessa tentativa de traduzir sentimentos que muitas vezes permanecem escondidos até mesmo dentro da maternidade.

“Em 2021, ela dividiu comigo as minhas dúvidas e inseguranças, quando ela se pensava e se enxergava como a mais surda no mundo ouvinte”, contou Eva sobre a origem do projeto.
Antes do longa, as duas haviam realizado um curta-metragem sobre o tema. Mas Eva percebeu que ainda existia algo mais profundo ali.
“Eu queria saber o que ia acontecer no casal se, de repente, ela engravidasse, se a criança fosse ouvinte ou surda, como seria o relacionamento da Angela com o filho.”
A maternidade em Surda aparece muito distante da imagem idealizada que costuma dominar o cinema. Não existe perfeição emocional. Não existe iluminação romântica da figura materna. Existe medo, exaustão, irritação, culpa e uma sensação constante de desencontro.
E isso conversa profundamente com autoras da psicanálise que há décadas tentam desmontar a ideia da maternidade como experiência naturalmente harmoniosa.
Melanie Klein falava sobre a ambivalência materna, sobre como amor e angústia coexistem desde o início da relação entre mãe e bebê. Já Françoise Dolto defendia que o vínculo entre mãe e filho não depende apenas da oralidade, mas da presença, do corpo, do olhar e da maneira como aquele bebê é reconhecido subjetivamente.
Em Surda, tudo isso ganha uma camada ainda mais delicada porque Angela já vive em um mundo onde a comunicação exige esforço constante.
“Aquele medo de não saber ou não se poder vincular, não saber como se comunicar com sua própria filha”, explicou Eva durante a entrevista.
Talvez o aspecto mais impressionante do filme seja justamente mostrar como isolamento e maternidade podem caminhar juntos. E não apenas para mulheres surdas.
“Eu acho que a gente sempre viu a maternidade de maneira muito romantizada, porque ela é abordada na arte sempre de uma perspectiva masculina. Mas agora as mulheres já também estão começando a contar a nossa vivência”, disse Miriam Garlo.
Ela continua:
“Não significa que todas as maternidades sejam assim, cada uma é diferente, mas, claro, se fala de depressão pós-parto, se fala de ansiedade, se fala de não se acreditar capaz de se vincular com seu bebê.”
O filme também impressiona porque se recusa a transformar Angela em símbolo inspiracional. Ela erra, se irrita, falha, se fecha emocionalmente. E isso foi uma decisão consciente.

“A gente quis essa opção de visibilizar uma mulher surda, autêntica, real, que não tinha que ser perfeita, que está passando por uma crise, uma depressão pós-parto muito forte, tem problemas na relação com a sua família, como somos as mulheres surdas.”
Miriam reforça:
“Então, é um ser humano sobrevivendo.”
Existe também uma inversão muito interessante nas dinâmicas tradicionais do cinema. Em Surda, é o homem quem ocupa o lugar do cuidado contínuo.
“Em geral, o personagem feminino é quem cuida, quem acompanha o protagonista. Então, isso também está começando a mudar. A gente quis trazer um personagem masculino cuidador.”
Segundo Miriam, isso também faz parte de uma transformação social mais ampla.
“Há muitos homens que estão percebendo isso, que estão desconstruindo a masculinidade tóxica, digamos assim, mas a gente não vê isso muito nas telas.”
A cena do parto talvez seja o momento mais angustiante do longa. Eva contou que toda a sequência foi construída a partir de relatos reais de mulheres surdas.
“Era muito importante poder transmitir aquele isolamento, aquela incomunicação e aquele medo onde ela está sozinha, sem poder entender, que ela fica muito vulnerável.”
A diretora revelou ainda que os profissionais que aparecem na sequência não eram atores.
“O time médico, eles não são atores, eles são médicos reais.”
Talvez por isso o filme tenha uma sensação tão brutal de verdade. Surda nunca parece interessado em construir grandes discursos. Ele observa pequenas fraturas emocionais do cotidiano. O desconforto de precisar pedir ajuda o tempo inteiro. O medo de não compreender. A culpa de sentir distância emocional do próprio bebê. A sensação de inadequação dentro da própria casa.
E isso talvez explique por que tantas mulheres se reconhecem em Angela mesmo sem compartilhar sua experiência da surdez.
“No fundo, a gente está mais perto do que a gente acha”, disse Eva.

Quando Miriam Garlo venceu o Goya de atriz de revelação, tornando-se a primeira atriz surda a conquistar o prêmio, o momento teve peso histórico para além do cinema.
“Estou orgulhosa, mas também estou prestando muita atenção, porque tem muitas outras companheiras e companheiros, atrizes e atores, surdas e surdos, não só atrizes, mas roteiristas, equipes técnicas.”
Mas talvez o maior mérito de Surda seja outro.
O filme consegue lembrar algo profundamente humano e desconfortável: muitas vezes o maior medo não é não ouvir o mundo, mas não conseguir se sentir reconhecida dentro dele.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
