Wolf Alice: a banda que transformou desconforto emocional em identidade no rock britânico

Depois de passagens anteriores pelo Brasil, o Wolf Alice finalmente estreia no Rio de Janeiro em um show ao lado de Lykke Li, ampliando uma relação que cresceu silenciosamente entre a banda britânica e o público brasileiro ao longo da última década. A apresentação acontece durante a passagem do grupo pelo C6 Fest e acaba reunindo dois projetos que, cada um à sua maneira, construíram carreiras atravessadas por melancolia, vulnerabilidade e intensidade emocional sem transformar fragilidade em estética vazia.

Poucas bandas britânicas surgidas nos anos 2010 envelheceram tão bem quanto o Wolf Alice. Talvez porque, desde o início, eles nunca tenham parecido interessados em seguir exatamente o que o indie rock daquela geração esperava deles. Enquanto muitos grupos orbitavam uma sonoridade excessivamente polida, nostálgica ou desenhada para algoritmos e playlists, o Wolf Alice construía músicas emocionalmente instáveis de propósito, alternando delicadeza, ruído, desejo, violência emocional e vulnerabilidade dentro de uma mesma faixa.

Isso ajudou a transformar a banda em algo raro no rock contemporâneo: um grupo capaz de soar grande sem perder estranheza.

O Wolf Alice nasceu em Londres, em 2010, inicialmente como um projeto folk acústico formado por Ellie Rowsell e Joff Oddie. A entrada do baixista Theo Ellis e do baterista Joel Amey mudou completamente a direção sonora da banda, que passou a incorporar shoegaze, grunge, noise rock, dream pop e um indie britânico muito mais denso emocionalmente do que o que dominava aquele momento.

A origem do nome “Wolf Alice” ajuda a entender bastante dessa identidade. O nome vem de um conto da escritora Angela Carter, autora britânica conhecida por reinterpretar contos de fadas de maneira sombria, feminista e psicológica. Em “Wolf-Alice”, Carter cria uma personagem criada por lobos que vive entre o humano e o animal, entre civilização e instinto, pertencendo completamente a nenhum dos dois mundos. Não é difícil perceber por que Ellie Rowsell se identificou com essa imagem. Existe algo profundamente deslocado na música da banda, como se ela estivesse sempre tentando traduzir emoções contraditórias ao mesmo tempo.

E isso aparece especialmente em Ellie. Desde o começo, ela nunca performou a persona clássica da vocalista de rock inalcançável ou hipercontrolada. Pelo contrário. Seu trabalho como compositora sempre pareceu interessado em expor rachaduras, ansiedade, obsessão, insegurança, desejo e desconforto social sem transformar essas emoções em romantização. Muitas músicas do Wolf Alice soam como alguém tentando sobreviver ao excesso emocional da vida contemporânea em tempo real.

O primeiro álbum, My Love Is Cool (2015), já mostrava isso com clareza. “Bros”, uma das músicas mais importantes da carreira da banda, transformava amizade feminina e nostalgia adolescente em algo melancólico e quase fantasmagórico, enquanto faixas como “Moaning Lisa Smile” mergulhavam em uma agressividade grunge que lembrava os anos 90 sem parecer simples revivalismo.

Mas foi em Visions of a Life (2017) que o Wolf Alice realmente encontrou sua identidade artística. O disco é emocionalmente caótico e estilisticamente imprevisível, passando de explosões barulhentas para baladas delicadas quase sem aviso. Em vez de buscar coerência sonora absoluta, a banda abraçou a sensação de confusão e instabilidade. E talvez seja justamente isso que tenha feito o álbum funcionar tão bem. O Wolf Alice compreendeu cedo algo que muitas bandas evitam admitir: crescer é uma experiência emocionalmente desorganizada.

Com Blue Weekend (2021), eles atingiram um novo patamar. O disco ampliou o lado cinematográfico da banda sem perder peso ou intimidade, transformando paranoia, amor, obsessão, fama e exaustão emocional em paisagens sonoras enormes. “The Last Man on Earth” acabou se tornando uma das músicas definitivas daquele momento pós-pandemia porque capturava algo muito específico sobre ego, fragilidade e performance social. Era uma canção sobre homens, fama e vazio, mas também sobre a necessidade universal de parecer maior do que realmente se sente.

Ao longo da carreira, o Wolf Alice desenvolveu uma relação bastante sólida com o público brasileiro, ainda que menos frequente do que muitos fãs gostariam. A banda veio ao país pela primeira vez em 2016, no Lollapalooza Brasil, ainda na fase de ascensão internacional após My Love Is Cool. Depois retornou em 2018 para shows ligados ao ciclo de Visions of a Life e voltou novamente em 2022 durante a turnê de Blue Weekend. Mas o Rio permanecia fora dessa trajetória até agora.

Talvez exista algo simbólico nisso. O Wolf Alice sempre pareceu uma banda difícil de encaixar completamente em qualquer cena específica. Indie demais para o mainstream, emocional demais para o rock mais cínico, pesada demais para o pop alternativo tradicional, vulnerável demais para o distanciamento irônico que dominou parte da música britânica nos anos 2010.

E talvez seja justamente por isso que eles continuem relevantes enquanto tantas bandas da mesma geração desapareceram rapidamente. O Wolf Alice nunca dependeu apenas de tendência. Existe verdade emocional ali. E normalmente é isso que permanece.


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