Young Frankenstein retorna como série enquanto Mel Brooks completa 100 anos

Existe algo quase perfeito no fato de Young Frankenstein estar voltando justamente agora. Não apenas porque Hollywood atravessa uma fase em que praticamente tudo precisa virar franquia, continuação ou reboot, mas porque o próprio filme de 1974 já era, de certa forma, uma reinvenção muito antes dessa lógica dominar a indústria.

Quando Mel Brooks lançou Young Frankenstein, ele pegou os monstros clássicos da Universal — especialmente Frankenstein e Bride of Frankenstein, dirigidos por James Whale e inspirados livremente no romance de Mary Shelley — e reconstruiu aquele universo como uma paródia afetiva, exagerada e completamente descontrolada. O horror expressionista dos anos 1930 se transformava em caos cômico, trocadilhos absurdos, humor físico e uma sexualidade caricatural que definia boa parte da comédia americana dos anos 1970.

Agora chegamos a um ponto quase metalinguístico. Very Young Frankenstein, recém-aprovada pela FX, é uma releitura de um filme que já reinterpretava outro clássico anterior. Um reboot de um reboot, conceito tão excessivo e autoconsciente que parece algo que o próprio Brooks inventaria como piada.

E talvez seja justamente isso que torna a notícia tão fascinante.

No ano em que completa 100 anos, Mel Brooks retorna como produtor executivo da nova série ao lado de Taika Waititi, Stefani Robinson e Garrett Basch, nomes diretamente ligados ao sucesso de What We Do in the Shadows. A escolha faz sentido imediato porque poucas produções recentes entenderam tão bem a combinação entre monstros clássicos, humor absurdo e referências culturais quanto a série dos vampiros da FX.

Existe uma herança muito clara entre o cinema de Brooks e o tipo de humor que Waititi e Robinson desenvolveram nos últimos anos. Ambos trabalham a ideia de monstros não apenas como criaturas assustadoras, mas como figuras ridículas, melancólicas e profundamente humanas. O absurdo nunca elimina o carinho pelo material original. Pelo contrário. Ele depende dele.

O elenco também ajuda a revelar o tom que a FX parece buscar. Zach Galifianakis lidera a produção em um papel que parece ecoar o Frederick Frankenstein eternizado por Gene Wilder, enquanto Dolly Wells, Spencer House, Kumail Nanjiani, Nikki Crawford e Cary Elwes completam o grupo principal. Só a combinação entre o humor desconfortavelmente caótico de Galifianakis e a sensibilidade absurda de Waititi já torna o projeto mais interessante do que a maioria dos reboots atuais.

O desafio da nova série, no entanto, é enorme porque Young Frankenstein não é apenas uma comédia famosa. É uma das obras mais amadas da história de Hollywood.

Lançado em 1974, o filme foi um enorme sucesso comercial e crítico. Arrecadou mais de US$ 86 milhões mundialmente, um resultado gigantesco para a época, especialmente para uma produção em preto e branco num momento em que Hollywood já havia abandonado completamente aquela estética. Também recebeu indicações ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Som, consolidando ainda mais Mel Brooks e Gene Wilder como uma das grandes duplas criativas da comédia americana.

Mas talvez o mais impressionante seja perceber como o filme atravessou décadas sem perder relevância cultural.

Gene Wilder interpretava Frederick Frankenstein — ou “Fronk-en-steen”, como insistia em corrigir —, neto do lendário Victor Frankenstein e profundamente constrangido pelo legado grotesco da própria família. Quando herda o castelo do avô na Transilvânia, acaba lentamente sendo seduzido exatamente pelo tipo de experimento que jurava rejeitar.

Ao redor dele estavam personagens que viraram parte definitiva da cultura pop americana: o Igor de Marty Feldman, eternamente roubando cenas com seu olhar desalinhado e timing absurdo; a Frau Blücher de Cloris Leachman; a Inga de Teri Garr; a noiva interpretada por Madeline Kahn; e o Monstro de Peter Boyle, cuja dança ao som de “Puttin’ on the Ritz” continua sendo uma das sequências mais icônicas da história da comédia.

O que fazia Young Frankenstein funcionar era justamente a combinação improvável entre obsessão cinéfila e humor absolutamente infantil.

Brooks recriou visualmente os filmes clássicos da Universal com uma precisão quase obsessiva, chegando a utilizar equipamentos originais dos antigos laboratórios de Frankenstein. Ao mesmo tempo, preenchia a narrativa com gritos histéricos, trocadilhos idiotas, piadas sexuais, caos físico e performances completamente exageradas.

Claro que parte desse humor envelheceu de forma desconfortável. Como acontece com muitas comédias daquela geração, existem caricaturas, exageros sexuais e piadas que provavelmente seriam escritas de maneira muito diferente hoje. Mas talvez o mais curioso seja perceber como, ainda assim, Young Frankenstein continua sendo amplamente citado como uma das maiores comédias americanas já feitas.

Porque sua força nunca esteve apenas na provocação.

Ela estava no ritmo das cenas, na entrega física do elenco, na inteligência visual de Brooks e no fato de que o filme entendia profundamente o universo que estava satirizando. Young Frankenstein zombava daqueles monstros porque os amava.

E talvez seja justamente isso que torne Very Young Frankenstein mais interessante do que parece à primeira vista.

Não apenas porque Hollywood revive mais um clássico, mas porque existe algo poeticamente adequado em Mel Brooks completar um século de vida ainda encontrando maneiras de trazer monstros de volta dos mortos.


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