A série que sempre pareceu o oposto absoluto do próprio nome finalmente termina no próximo domingo, deixando para trás exatamente aquilo que cultivou desde 2019: desconforto, divisão e fascínio mórbido. Porque Euphoria nunca foi sobre felicidade, liberdade ou juventude vivida intensamente. O título sempre soou como ironia cruel. Uma piada de mau gosto sobre personagens condenados a existir num ciclo infinito de vício, sexo, abuso, violência, humilhação e autodestruição.
E talvez isso explique por que a produção continue tão comentada mesmo depois de anos de caos nos bastidores, atrasos e uma narrativa cada vez mais excessiva. Existe algo quase impossível de ignorar em Euphoria, mesmo quando ela parece deliberadamente interessada em testar a paciência do público.

Também vale lembrar algo importante: Euphoria não nasceu da cabeça de Sam Levinson. A série é uma adaptação da produção israelense criada por Ron Leshem, Daphna Levin e Tmira Yardeni. Mas Levinson transformou essa base em algo ainda mais cruel e estilizado, quase como se cada episódio precisasse ultrapassar emocionalmente o anterior. A sensação constante era de assistir a personagens sendo esmagados não apenas pelos próprios traumas, mas pelo olhar da própria série sobre eles.
Ao longo de seis anos, acompanhamos um grupo de amigos — ou inimigos — tentando sobreviver à juventude, apenas para reencontrá-los adultos ainda mais perdidos, mais vazios e mais desesperados. Não existe amadurecimento real em Euphoria. Existe desgaste. Existe erosão emocional.
E é curioso perceber como, ao mesmo tempo em que a série ajudou a transformar Zendaya, Sydney Sweeney e Jacob Elordi em três das maiores estrelas jovens de Hollywood, ela também parecia determinada a aprisionar esses personagens dentro da pior versão possível de si mesmos. As atuações sempre foram brilhantes. A fotografia segue impressionante. A trilha sonora, o trabalho de câmera, a estética neon e febril continuam hipnóticos. Mas falta respiro. Falta humanidade. E, muitas vezes, falta sentido.
Porque sofrimento, sozinho, não é profundidade.

Euphoria frequentemente confundiu brutalidade com complexidade emocional. Toda personagem parecia condenada a atravessar uma sequência interminável de tragédias cada vez mais chocantes apenas porque a série precisava se superar na capacidade de perturbar. O resultado é que, em muitos momentos, o sofrimento deixa de revelar algo humano e passa a soar apenas manipulativo.
Nada resume isso melhor do que a morte de Nate Jacobs no penúltimo episódio.
É impossível negar que Nate merecia pagar por tudo que fez. O personagem passou anos aterrorizando mulheres, destruindo pessoas emocionalmente e reproduzindo violência como mecanismo de poder. Mas Euphoria nunca soube trabalhar punição sem transformá-la em espetáculo sádico. E o que Levinson faz aqui ultrapassa qualquer limite de tragédia psicológica para entrar quase num território de humilhação pública deliberada.
Existe algo quase agressivamente pessoal na forma como a série destrói Nate. Jacob Elordi talvez seja hoje um dos maiores astros jovens do planeta, símbolo de desejo, beleza e masculinidade contemporânea. E Levinson parece interessado justamente em desmontar isso da forma mais grotesca possível, como se houvesse prazer em humilhar aquela imagem masculina idealizada diante do público.
Naz, o traficante que cobra a dívida milionária de Nate, enterra o personagem vivo embaixo de uma construção depois de dar 72 horas para Cassie tentar salvá-lo. Nate aparece mutilado, sem o dedo anular da mão e parte do pé, preso dentro de um caixão enquanto uma cascavel entra lentamente ali. O ataque final da cobra transforma a sequência numa das mortes mais angustiantes — e absurdas — da televisão recente. Mesmo para Euphoria, sempre fascinada por excesso, parece cruel demais.

E talvez o mais desconfortável seja perceber como a própria produção parece se divertir com isso. Nos bastidores divulgados pela HBO, Jacob Elordi descreve a morte como “uma maneira legal de partir”, enquanto a equipe fala sobre aumentar a claustrofobia da cena. A cobra usada dentro do caixão era uma jiboia com chocalho falso, enquanto as imagens aproximadas mostram uma cascavel real chamada, apropriadamente, de “little bitch”. É quase impossível pensar numa metáfora melhor para Euphoria: uma série tão apaixonada pelo próprio choque que transforma até a crueldade em piada estética.
E o pior é que a violência não para nele.
Cassie mergulha numa espiral ainda mais degradante, acaba sequestrada, se prostitui e perde completamente qualquer autonomia emocional restante. Maddie, que já havia perdido Nate para a própria melhor amiga, agora perde também estabilidade, trabalho e segurança. Ainda assim, tenta ajudar o casal e acaba fazendo dívida com Alamo, o traficante que Rue alertou inúmeras vezes para evitarem.
No fim, Nate está morto. Naz também acaba assassinado. E Maddie e Cassie agora pertencem a homens ainda mais perigosos. Sabemos exatamente o que isso significa naquele universo.
Rue, claro, também termina mais uma vez encurralada. Depois de tentar colaborar com agentes federais e atuar como uma espécie de agente dupla entre Laurie e Alamo, ela descobre dezenas de identidades de jovens mulheres escondidas num cofre, num cliffhanger que sugere algo ainda mais sombrio para o último episódio. A série ainda tenta oferecer profundidade emocional através do passado de Ali, revelando em flashback os próprios anos de dependência química antes de se tornar mentor de Rue. Mas mesmo esses momentos mais humanos acabam soterrados pela necessidade constante de amplificar perigo, choque e tragédia.

Talvez seja esse o grande problema de Euphoria: ninguém aprende, ninguém escapa e ninguém realmente existe fora do sofrimento. A série transforma trauma numa prisão estética permanente. Não há possibilidade de futuro. Apenas repetição da dor em versões cada vez mais violentas.
Por isso, terminar Euphoria talvez seja um alívio.
Mas esquecer a imagem daquela cascavel entrando lentamente no caixão? Honestamente, isso será bem mais difícil.
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