Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL
Poucas franquias recentes conseguiram reinventar a história alternativa com a consistência de For All Mankind. Criada por Ronald D. Moore, Matt Wolpert e Ben Nedivi, a série da Apple TV partiu de uma pergunta aparentemente simples — “e se a União Soviética tivesse vencido a corrida espacial?” — para construir um dos universos mais sofisticados da ficção científica contemporânea, misturando política, tecnologia, Guerra Fria e drama humano ao longo de décadas.
Agora, Star City, que estreia no dia 29 de maio na plataforma, expande esse universo ao fazer algo ainda mais arriscado: inverter completamente o ponto de vista da narrativa. Em vez de acompanhar os americanos, como acontecia na série original, a nova produção mergulha no lado soviético da corrida espacial, acompanhando cientistas, cosmonautas, agentes da KGB e famílias vivendo dentro de um regime marcado por vigilância constante, paranoia ideológica e ausência de liberdade individual.
O resultado está muito mais próximo de um thriller político psicológico do que de uma ficção científica tradicional. A série entende que o espaço, naquele contexto, não era apenas conquista tecnológica. Era propaganda, disputa de poder e demonstração de supremacia ideológica em plena Guerra Fria.

Durante a conversa com o Blog do Amaury Jr. via Miscelana, os showrunners Matt Wolpert e Ben Nedivi explicaram como foi revisitar aquele período histórico por uma perspectiva completamente diferente e por que Star City funciona quase como um espelho humano de For All Mankind. Eles também comentaram a construção da jovem Irina Morozova, personagem que o público já conhecia em sua versão adulta na série original, e a ideia de mostrar como figuras políticas duras e aparentemente frias são moldadas por experiências traumáticas e sistemas opressivos.
Ao lado deles, Rhys Ifans — conhecido recentemente por interpretar Otto Hightower em House of the Dragon, além de filmes como Notting Hill e The Amazing Spider-Man — falou sobre interpretar um homem dividido entre orgulho nacional, melancolia e desejo de liberdade. Seu personagem em Star City vive o paradoxo de ajudar a levar outros ao espaço enquanto entende que talvez jamais possa experimentar pessoalmente aquilo que mais simboliza liberdade para ele.
A conversa acabou se transformando também em uma reflexão sobre paranoia política, identidade soviética, os perigos do nacionalismo extremo e o fato de que a corrida espacial sempre esteve profundamente ligada à necessidade de provar qual sistema político parecia mais poderoso diante do mundo.

Vocês já haviam mudado a perspectiva histórica em For All Mankind com aquele pequeno “e se?”. Agora fazem isso de novo, mas olhando tudo pela perspectiva soviética. Como é construir uma história dessa maneira?
Matt Wolpert: É sempre fascinante tentar se colocar no lugar de outra pessoa e olhar para o mundo do outro lado. Foi assim que trabalhamos em For All Mankind, contando a história pela perspectiva americana.
Mas sempre acabávamos atraídos pelas pessoas que eram “os outros” naquela narrativa. Os personagens que os americanos viam como inimigos, aqueles que acreditavam precisar derrotar.
Quanto mais aprendíamos sobre o programa espacial soviético e sobre as pessoas que trabalhavam nele, mais fascinados ficávamos.
E honestamente, nós não conhecíamos profundamente a cultura soviética antes desse processo começar. Aprender sobre as dificuldades cotidianas de viver dentro daquele regime autoritário foi extremamente interessante, mas também nos lembrou da humanidade compartilhada entre pessoas em qualquer lugar do mundo, independentemente do sistema político em que vivem.
Rhys, seu personagem é ao mesmo tempo um prisioneiro e um herói. Como ele navega isso? O que é real para ele?
Rhys Ifans: O que é real para ele, infelizmente e de maneira estranha, é justamente um lugar que ele talvez nunca possa visitar: o espaço.
O espaço representa um lugar onde dogma e ideologia deixam de existir. Existe uma tragédia muito bonita nisso para um ator interpretar. Ele envia jovens corajosos para um lugar que sabe que talvez jamais possa alcançar pessoalmente.
Imagino que, quando criança, olhar para a Lua representava liberdade para ele. Especialmente vindo da experiência traumática do gulag. Então existe sempre essa melancolia dentro do personagem. O espaço simboliza justamente aquilo que o sistema ao redor dele não permite.
E existe algo muito forte nessa ideia de não permitir sequer que as pessoas tenham um nome próprio.
Rhys Ifans: Exatamente. Ele foi reduzido a uma peça de engenharia, um componente mecânico, em vez de um ser humano.


E é curioso porque você está vivendo outro personagem extremamente político em House of the Dragon. (Matt e Ben riem e concordam comigo, mas Rhys se ajusta na cadeira) São personagens muito diferentes, mas ambos presos em sistemas de poder.
Rhys Ifans: (rindo, mas defendendo o Chief Designer) Eles são completamente diferentes como pessoas! Mas, sim, as circunstâncias em que vivem talvez sejam parecidas.
Existe uma importância enorme em “ser o primeiro” nessa corrida espacial. Quanto isso pesa emocionalmente sobre esses personagens?
Rhys Ifans: Acho que, para aventureiros, a ideia de ser o primeiro é o que inicialmente os leva até aquele lugar. Mas quando finalmente chegam lá, percebem que existe algo muito maior do que eles mesmos.
Ben Nedivi: Eu adorei isso.
Porque “ser o primeiro” nasce muito mais de uma lógica geopolítica do que humana. As pessoas que realmente fazem aquilo — os engenheiros, os astronautas, os cientistas — quando olham para a Terra lá de cima, percebem como é ridícula a ideia de quem chegou primeiro.
Aquilo não pertence a ninguém e pertence a todos ao mesmo tempo.
Mas infelizmente o programa espacial sempre esteve ligado à competição. Era uma batalha ideológica. A lógica era: “Se fomos os primeiros, isso prova que nosso sistema é superior.”
Foi isso que a Guerra Fria representou durante décadas.
E é interessante perceber como isso continua existindo hoje. Basta olhar para o novo interesse global pela corrida espacial conforme outros países passam a disputar poder tecnológico.
Existe algo profundamente cínico nisso, mas também paradoxalmente humano. Assim como guerras acabam acelerando avanços tecnológicos, a corrida espacial também produziu descobertas extraordinárias, mesmo tendo nascido de uma lógica de conflito.

E existe também uma guerra dentro da própria guerra. Como se vidas humanas se tornassem secundárias diante da ideologia. Rhys, seu personagem tenta realizar um sonho enquanto sobrevive dentro do sistema. Ele acredita naquele sistema?
Rhys Ifans: Acho que ele é um russo orgulhoso. Mas não um soviético orgulhoso.Existe uma diferença.
Isso é muito interessante porque, quando aprendíamos sobre a União Soviética na escola, tudo parecia um grande bloco homogêneo. A série mostra que existiam identidades muito diferentes dentro daquela estrutura. E para vocês como roteiristas, quão difícil foi voltar no tempo e reconstruir personagens que já conhecíamos mais velhos em For All Mankind?
Matt Wolpert: Honestamente, isso libertou nossa criatividade de certa forma.
Nos deu a chance de fazer algo diferente e nos afastar um pouco dos padrões da série original para mergulhar em algo completamente novo.
E isso foi maravilhoso.
Ben Nedivi: Como escritor — ou qualquer artista — a pior coisa é ficar confortável.
Nós queríamos um desafio, e esse projeto foi exatamente isso: pegar o DNA de For All Mankind e ao mesmo tempo criar uma série completamente diferente.
E ajudou o fato de o cenário, o tom, as pessoas e o mundo serem tão diferentes. Porque se isso fosse apenas mais uma temporada de For All Mankind, provavelmente não estaríamos interessados.
O desafio foi justamente o que tornou tudo tão empolgante.
Matt Wolpert: E a personagem da Irina Morozova talvez seja o melhor exemplo do potencial dessas duas séries dialogando entre si.
Em For All Mankind, conhecemos uma mulher mais velha, poderosa e intimidadora. Agora estamos acompanhando o começo da vida dela, o início daquela transformação.
E isso é profundamente humano, porque ninguém nasce frio ou cruel. As pessoas são moldadas pelas experiências que vivem.
Sim! Eu fiquei até irritada comigo mesma por torcer pela Irina em vários momentos.
Ben Nedivi (comemorando o que disse): Era exatamente isso que queríamos provocar.
(Risos)

Existe também algo muito atual em revisitar esse período histórico agora. Como se a série funcionasse quase como um alerta.
Ben Nedivi: Existe aquela frase famosa: “Aqueles que esquecem o passado estão condenados a repeti-lo.”
Como escritores, precisamos tomar cuidado para não transformar isso em sermão. Nosso objetivo é contar uma boa história com bons personagens.
Mas obviamente é impossível ignorar certas conexões com o presente.
O que estamos vivendo hoje nos Estados Unidos e em várias partes do mundo é assustador em muitos sentidos, mas talvez não seja surpreendente. Acho que o problema dos seres humanos é que somos inerentemente otimistas e, muitas vezes, acreditamos que certos ciclos não voltarão a acontecer.
Mas a história pode se repetir.
Ao mesmo tempo, acredito que a série também fala sobre resiliência. Mesmo nos períodos mais sombrios e nos sistemas mais opressivos, as pessoas ainda conseguem encontrar maneiras de preservar a própria humanidade.
E essa talvez seja a história central de Star City.
Rhys, para terminar: o que fez você querer participar desse projeto?
Rhys Ifans: Na verdade, Ben acabou de responder isso.
O que me atraiu foi justamente essa ideia de personagens resilientes, pessoas tentando preservar algum tipo de moralidade e humanidade mesmo vivendo dentro de sistemas extremamente opressivos.
Mesmo quando fazem escolhas erradas, ainda sabem, no fundo, o que significa ser uma boa pessoa.
Eles reconhecem isso dentro de si.
E acho isso muito bonito.
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