Widow’s Bay finalmente revela sua maldição

Até agora, Widow’s Bay vinha brincando com a ideia de uma cidade amaldiçoada sem necessariamente explicar o que isso significava. Havia monstros, desaparecimentos, nevoeiro, surtos coletivos, cogumelos alucinógenos, figuras grotescas surgindo do mar e uma população inteira vivendo como se o absurdo fosse apenas parte burocrática da rotina. Mas os episódios desta semana finalmente mudam o eixo da série ao confirmar algo muito mais perturbador: Widow’s Bay não é apenas um lugar onde o mal acontece. A ilha em si é o mal.

Com dois episódios liberados juntos, a narrativa abandona parcialmente a estrutura de “mistério episódico” para voltar ao século 18 e mostrar a fundação da cidade através da perspectiva de Sarah Westcott Warren. A chegada dela à ilha inicialmente parece quase uma narrativa clássica de horror gótico: uma mulher isolada, um marido estranho, moradores desconfortáveis demais para dizer claramente o que sabem. Só que Widow’s Bay rapidamente deixa claro que Richard Warren não é apenas um homem violento ou fanático religioso. Ele é o primeiro intermediário consciente entre a cidade e aquilo que habita a ilha.

A explicação dada pela série é assustadora justamente porque mistura desespero humano e horror cósmico. Durante o primeiro inverno em Widow’s Bay, os colonos estavam famintos, adoecendo e recorrendo ao canibalismo. Richard Warren então consome os cogumelos “truesight” e faz um pacto com a entidade da ilha: prosperidade em troca de sacrifícios humanos. O sino da igreja passa a funcionar como um chamado ritualístico, avisando quando a ilha exige novas vítimas. E o mais perturbador é que a série sugere que os moradores continuaram obedecendo a esse sistema por gerações inteiras, mesmo depois de esquecerem completamente sua origem.

A cidade inteira passa então a parecer construída sobre um trauma hereditário.

As regras absurdas. O medo coletivo. Os comportamentos irracionais. O modo como todos aceitam o horror como normalidade administrativa. Tudo ganha outro significado quando percebemos que Widow’s Bay não está apenas assombrada. Ela funciona como uma comunidade criada para administrar uma ferida ancestral que nunca fechou. E é aí que a série cresce enormemente.

Porque Widow’s Bay deixa de ser apenas uma produção divertida de horror estranho para se tornar uma história sobre sociedades fundadas em violência estrutural. O horror não está somente nos monstros. Está na repetição histórica. Na transmissão geracional do medo. Na ideia de que comunidades inteiras podem organizar sua identidade ao redor de algo monstruoso sem mais sequer compreender totalmente o motivo.

A sequência mais perturbadora talvez seja a revelação do porão escondido sob a casa do prefeito, que é o mesmo espaço localizado abaixo da Historical Society. Sarah encontra sangue espalhado entre uma cadeira com correias de couro e uma porta misteriosa incrustada na estrutura subterrânea da cidade. A implicação é horrível: Richard Warren amarrava vítimas naquela cadeira para que a entidade da ilha viesse buscá-las.

E Widow’s Bay é inteligente o suficiente para não mostrar completamente o que existe atrás daquela porta. Só sabemos que algo emerge.

Isso mantém a série num território quase lovecraftiano em que o medo nasce justamente da impossibilidade de compreender totalmente a entidade. A ilha parece viva e faminta, como se Widow’s Bay inteira tivesse sido construída sobre um organismo consciente enterrado sob o oceano.

Ao mesmo tempo, a história nunca abandona seu humor absurdo. E isso funciona quase exclusivamente porque Matthew Rhys está fazendo um trabalho inacreditável como Tom Loftis.

Rhys entende perfeitamente o tom impossível da série. O prefeito poderia facilmente virar um personagem caricatural, um homem neurótico reagindo exageradamente a situações sobrenaturais. Mas o ator constrói Tom como alguém permanentemente exausto, emocionalmente sobrecarregado, tentando continuar funcional enquanto o universo ao redor implode. A comicidade nasce justamente do fato de ele levar tudo extremamente a sério.

Quanto mais absurda a situação fica, mais engraçado Tom parece. E quanto mais engraçado ele fica, mais triste a série se torna. É um equilíbrio muito difícil de sustentar porque o humor de Widow’s Bay nunca interrompe o horror. Pelo contrário: ele torna o horror ainda mais desconfortável. Há cenas em que Rhys reage burocraticamente ao apocalipse como se estivesse apenas tentando resolver problemas administrativos municipais enquanto uma entidade ancestral exige sacrifícios humanos no subsolo da cidade. E funciona perfeitamente por causa dele.

Todos os atores da série estão ótimos, especialmente Hamish Linklater como Richard Warren e Betty Gilpin como Sarah, mas Rhys virou claramente o centro emocional da produção porque, com ele, Tom não parece apenas assustado, mas cansado de existir dentro daquela cidade. E talvez exista uma razão ainda maior para isso. Minha aposta agora é que Tom seja descendente direto de Richard Warren ou de Sarah.

Os episódios praticamente começam a preparar essa revelação sem verbalizá-la explicitamente. O episódio 7 termina deixando claro que o pacto da ilha está ligado à linhagem de Warren. Quando Richard acredita que seus filhos morreram tentando deixar Widow’s Bay, ele imagina que sua linhagem terminou, mas a pintura mostrada no hotel sugere que uma das crianças sobreviveu.

Isso muda tudo.

Narrativamente, faria sentido absoluto que Tom descobrisse ser a continuidade biológica do fundador da cidade porque aí o homem tentando salvar Widow’s Bay talvez seja justamente a razão da maldição continuar existindo.

E isso também reorganiza completamente a relação dele com a esposa morta.

As fotografias da Lauren com Evan continuam sendo um dos elementos mais estranhos da série porque a câmera insiste nelas como se fossem pistas escondidas. Tom olha para aquelas imagens com culpa, não apenas saudade. Existe claramente algo que ele está reprimindo, mas agora Evan descobriu as fotos e não entende como o pai disse que ficou viúvo e ainda mantém registros tão específicos da esposa com o filho.

Minha impressão é que Lauren descobriu cedo demais alguma verdade sobre a ilha, sobre o filho ou sobre a própria origem da família Loftis. Talvez tenha entendido que Widow’s Bay não estava apenas perseguindo aquela família. Talvez a família deles seja parte estrutural da própria maldição, o que tornaria Tom uma figura ainda mais trágica.

Porque o prefeito que passou a temporada inteira tentando impedir o colapso da cidade talvez seja justamente o herdeiro involuntário do homem que condenou Widow’s Bay séculos atrás.

E eu quero desesperadamente descobrir o que realmente aconteceu depois que Tom, sem perceber completamente o que estava fazendo, ajudou Richard Warren a voltar usando justamente o corpo de Wyck. Ainda há muito escondido naquela ilha.


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