Olha, três pensamentos cruzaram minha mente na despedida (por ora?) de Hacks: 1) Acho ofensivo que, na escola de The Bear, que Hacks destronou como “Melhor Comédia”, a série tampouco estivesse ou esteja na categoria correta nos Emmys, tirando prêmios de quem efetivamente nos faz rir e não chorar; 2) Como a televisão atual parece cada vez mais confortável em abraçar finais felizes, mesmo quando eles chegam rápido demais ou parecem improváveis demais; e 3) Eu já caí nessa antes. Quando a série parecia ter finalizado há três temporadas, o uso de “Goodbye Stranger”, do Supertramp, foi perfeitamente aplicado. Aqui, a escolha é “Get Happy/Happy Days Are Here Again”, o dueto de Barbra Streisand e Judy Garland, uma canção — e um encontro entre duas artistas — que reflete perfeitamente a relação entre Ava e Deborah.
O episódio final de Hacks começa com uma imagem que diz muito mais do que parece. Quem está no comando é Ava, no set de seu sitcom, Who’s Cooking Dinner?. Calma, tranquila, segura. Impressiona a distância daquela jovem confusa e frequentemente autossabotadora que conhecemos no início da série. Em seguida, estamos na inauguração do The Diva e Deborah está grata — publicamente — a Marcus, a quem agradece e elogia.

Bom, ainda não é uma verdade para Jimmy, que ainda precisa virar o jogo. Ele continua preso ao humilhante trabalho na sala de correspondências da Latitude, mas uma conversa aparentemente banal com a viúva de um antigo cliente abre uma trilha que o leva a descobrir algo muito maior. O pai de Kayla não apenas desviava milhões de dólares, como também vinha lucrando com a venda de vozes e imagens de artistas mortos para empresas de inteligência artificial.
A revelação conversa diretamente com um dos temas centrais desta última temporada. Ao longo dos episódios, Hacks demonstrou um interesse crescente pela forma como a indústria do entretenimento tem tratado a criatividade como um produto cada vez mais descartável. Não é por acaso que a fraude envolve justamente artistas mortos. A série está falando sobre uma indústria que tenta substituir pessoas por simulações.
Como já vimos em Jerry Maguire, sabemos que ter um trabalho mais humano é uma utopia que aquece nosso coração. Quando Jimmy e Kayla confrontam Michael diante dos funcionários da agência, a cena é construída quase como uma fantasia de justiça corporativa. Sim, parte da equipe abandona a empresa, mas os que ficam escolhem apostar numa versão menor e mais humana da Latitude. É um final otimista, talvez até idealista, mas coerente com a visão de mundo da série.
Josefina recebe uma promoção, Damien permanece ao lado da chefe e até Marty parece finalmente confortável em ocupar uma posição menos conflituosa na vida de Deborah. Mas como ainda havia um episódio para terminar, algo precisava quebrar aquela sensação de encerramento. E, óbvio, quebra. Sem risos.
Durante um almoço com Ava, Deborah a convida para uma viagem pela Europa, mas, em seguida, revela que o tumor removido anteriormente voltou e se espalhou. Ela não parece triste. Ao contrário, fala como alguém que passou tempo demais pensando naquilo e agora apenas apresenta o plano que elaborou enquanto o desespero de Ava cresce diante dela. Deborah não quer fazer quimioterapia nem passar seus últimos meses em hospitais. Ela não tem planos de voltar da viagem. A etapa final será uma clínica de eutanásia. Isso coloca a dupla novamente naquele lugar que conhece tão bem: a discórdia total.
Ava tenta tudo. Tenta ser racional, tenta negociar, tenta apelar para a emoção, tenta fazê-la enxergar um futuro possível. Nada colabora para Deborah mudar de opinião, nem mesmo o fato de que, naquele momento, Ava não consegue imaginar sua vida sem a comediante nela. Mesmo assim, Deborah permanece irredutível.
A revolta de Ava também inclui Jimmy, que sabia de tudo e parece conformado. Ele é contra, mas respeita a decisão dela. Assim, a viagem para Paris acontece sob essa sombra.


À primeira vista, a cidade parece funcionar como um presente de despedida. Deborah finalmente leva Ava para conhecer os lugares que passou anos descrevendo. Elas visitam o Louvre, passeiam pelas ruas, exploram mercados, tiram fotos e passam as noites dançando, mas a tristeza permeia cada momento. Ava está tentando registrar cada segundo porque sabe que talvez sejam os últimos.
Mas, mesmo assim, o sarcasmo continua entre elas. Piadas sobre arte, envelhecimento, morte e até câncer atravessam praticamente todos os momentos da viagem. Deborah está tão leve e feliz que Ava faz mais um apelo para que mude de ideia. Em vão.
Para Deborah, é importante que sua memória não seja consumida pela doença. Sua decisão não nasce exatamente da coragem, mas do pânico da dor antes da morte, da possibilidade de perder a autonomia e de ser lembrada apenas pelo fim. Exausta, Ava finalmente faz o que Jimmy já havia feito antes dela. Não concorda, mas aceita. E se compromete a estar ao lado da amiga nas horas finais.
Antes de embarcarem no trem, continuam criando piadas sobre câncer. Mas, desta vez, Deborah para. Algumas são tão boas que se torna difícil imaginar que não viverá para contá-las. Existe material. Existe uma nova piada. Existe uma observação melhor. E, para alguém que passou a vida inteira transformando a própria existência em comédia, talvez isso seja mais poderoso do que o medo da morte.
Ava fica confusa, aliviada e, quase imediatamente, volta a fazer aquilo que sempre fez melhor ao lado de Deborah: lapidar a piada. Não existe discussão, ressentimento ou negociação. Existe apenas uma sintonia construída ao longo de cinco temporadas. Deborah admite que talvez não tenha mais trinta anos, mas, se ainda tem uma hora, então ainda há o que fazer.

De volta a Las Vegas, as duas andam pelas ruas rindo. Deborah inicia o tratamento, Ava permanece ao seu lado e as duas voltam a fazer aquilo que sempre fizeram melhor do que qualquer outra coisa: conversar sobre piadas.
Um final que ainda deixa a porta aberta. Depois de cinco temporadas falando sobre fama, fracasso, envelhecimento, misoginia, televisão e legado, a série termina da mesma forma que começou: com duas mulheres sentadas lado a lado tentando descobrir como transformar a vida em uma história melhor para contar.
O episódio deve garantir a Jean Smart e Hannah Einbinder mais uma forte campanha ao Emmy de 2026. E mesmo eu, que reclamei da série mais vezes do que consigo contar, fiquei, mais uma vez, emocionada. Ao som de “Get Happy/Happy Days Are Here Again”, ouvimos Judy e Barbra cantarem: Happy days are here again. E, pela primeira vez em muito tempo, parece difícil discordar delas.
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