A série Brasil 70: A Saga do Tri tinha tudo para ser apenas mais uma produção nostálgica aproveitando a proximidade da Copa do Mundo. A história é conhecida, o resultado também. Sabemos que o Brasil será campeão, sabemos que Pelé levantará a Taça Jules Rimet e sabemos que aquele time entrará para a história como uma das maiores equipes que o futebol já produziu.
Ainda assim, a série consegue algo raro: transformar uma história cujo final todos conhecem em uma experiência genuinamente emocionante.
Talvez porque a saga do tricampeonato tenha um significado diferente para os brasileiros. Ela aconteceu há 56 anos, mas continua ocupando um lugar que nem o tetra de 1994 nem o penta de 2002 conseguiram alcançar. Não porque essas conquistas sejam menores, mas porque a seleção de 1970 permanece como uma espécie de ideal coletivo. É o time dos sonhos. A equipe que até hoje aparece em listas internacionais das maiores de todos os tempos. O Brasil que encantou o mundo quando o mundo inteiro assistia.

Lançar a série às vésperas de uma nova Copa do Mundo parece uma decisão óbvia, mas também é uma decisão brilhante. Poucas histórias esportivas possuem tamanho poder de mobilização emocional. E poucas são tão universais. Mesmo quem não gosta de futebol reconhece nomes como Pelé, Jairzinho ou Tostão. Mesmo quem nunca assistiu a uma partida entende que existe algo quase mítico naquela conquista.
Talvez por isso a produção funcione tão bem.
Eu sou irmã de um narrador esportivo. Fui casada com um jornalista esportivo. Cresci ouvindo histórias sobre aquela seleção, sobre João Saldanha, sobre Zagallo, sobre os bastidores da Copa e sobre os personagens que cercavam o time. Quando era estagiária, conheci e trabalhei com Gerson. Muitas das situações retratadas na série me eram familiares antes mesmo do primeiro episódio. Ainda assim, me vi emocionada diversas vezes como se estivesse descobrindo tudo pela primeira vez.
Isso acontece porque a produção entende algo fundamental: a Copa de 1970 não é apenas uma sequência de jogos. É uma história sobre pessoas.
É sobre Pelé chegando ao México carregando críticas, dúvidas e o peso de ser considerado o maior jogador do planeta. É sobre João Saldanha vendo de longe uma equipe que ajudou a construir. É sobre famílias tentando entender a pressão que aqueles homens enfrentavam. É sobre um país vivendo sob ditadura militar enquanto encontrava no futebol uma forma de projetar uma imagem de grandeza para o mundo.
A série acerta ao não transformar seus personagens em monumentos.
O maior exemplo disso talvez seja Pelé. Interpretado com enorme sensibilidade por Lucas Agrícola, ele surge como um homem brilhante, mas também vulnerável. A produção não ignora sua genialidade, mas tampouco o reduz a ela. Existe insegurança, existe desgaste físico, existe pressão psicológica. Pela primeira vez em muito tempo vemos uma dramatização interessada em retratar Pelé como ser humano e não apenas como mito.

O outro grande acerto atende pelo nome de Rodrigo Santoro.
Seu João Saldanha é extraordinário.
Santoro encontra um equilíbrio difícil entre carisma, inteligência, arrogância, senso de humor e explosividade. O personagem poderia facilmente cair na caricatura do comunista rebelde ou do técnico injustiçado pela história. Em vez disso, surge como alguém muito mais complexo. Um homem brilhante, mas também difícil. Capaz de enxergar o jogo antes dos outros, mas igualmente capaz de transformar qualquer discussão em uma guerra.
A série entende que a história da Copa de 1970 não pode ser contada sem ele.
A reconstituição de época também impressiona. Figurinos, ambientações, transmissões televisivas, hotéis, centros de treinamento e até a fotografia ajudam a criar a sensação de que estamos observando um Brasil que parece distante e familiar ao mesmo tempo. O elenco, de maneira geral, funciona muito bem, especialmente considerando a dificuldade de interpretar figuras tão conhecidas do imaginário nacional.
Talvez o aspecto mais surpreendente seja justamente perceber que finalmente encontramos uma forma de contar nossas próprias histórias esportivas.


Os britânicos fazem isso há décadas. Produziram grandes filmes sobre futebol, corridas, boxe e Olimpíadas. Os americanos transformaram esporte em gênero cinematográfico há muito tempo. O Brasil, país que construiu uma das tradições futebolísticas mais admiradas do planeta, parecia incapaz de fazer o mesmo.
Até agora.
Brasil 70 responde uma pergunta que muitos de nós fizemos durante anos: por que demoramos tanto para perceber que nossas histórias esportivas eram boas o suficiente para o cinema e para a televisão?
Isso não significa que a série seja perfeita.
Quando a narrativa deixa a concentração da seleção e o universo dos jogadores para mostrar as ruas, os torcedores e a reação popular, ela frequentemente se aproxima mais da comédia do que da realidade. Existe algo difícil de explicar para quem não viveu ou nunca experimentou uma Copa do Mundo no Brasil. O país muda. O ritmo muda. As conversas mudam. O futebol se transforma em uma espécie de idioma nacional temporário. A série tenta reproduzir essa atmosfera, mas nem sempre consegue transmitir a intensidade quase religiosa que acompanha o torneio por aqui.
Ainda assim, trata-se de uma limitação pequena diante do conjunto.

Porque o que permanece ao final é a sensação de que a produção compreendeu a dimensão humana daquela conquista. Ela não fala apenas sobre futebol. Fala sobre memória. Sobre identidade nacional. Sobre política. Sobre família. Sobre amizade. Sobre rivalidade. Sobre a construção de uma lenda, talvez seja justamente por isso que emocione tanto.
A Copa de 1970 continua sendo uma das histórias favoritas do futebol mundial. Mas, para os brasileiros, ela é algo ainda maior. É uma memória coletiva. Um capítulo da nossa história que passa de geração em geração.
Brasil 70 entende isso perfeitamente e transforma essa memória em uma das melhores séries brasileiras dos últimos anos.
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