A série Brasil 70: A Saga do Tri, da Netflix, provavelmente despertará uma pergunta em muitos espectadores que não acompanham futebol ou que nasceram décadas depois da conquista do tricampeonato mundial: afinal, quem foi João Saldanha e por que ele continua sendo lembrado mais de cinquenta anos depois da Copa de 1970?
A dúvida é compreensível. Afinal, a seleção que venceu o Mundial no México era comandada por Mário Zagallo. Foi ele quem levantou a taça ao lado de Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivellino e Carlos Alberto Torres. Ainda assim, basta assistir à série ou mergulhar um pouco na história daquele período para perceber que Saldanha continua ocupando um espaço único na memória brasileira. Em muitos aspectos, ele é tão fascinante quanto a própria campanha que transformou o Brasil no primeiro tricampeão mundial.

E a razão para isso vai muito além do futebol.
Para entender quem foi João Saldanha, talvez seja preciso esquecer por alguns minutos a ideia tradicional de um treinador esportivo. Ele não era apenas um técnico. Era jornalista, comentarista, militante político, intelectual, polemista e uma figura pública capaz de provocar admiração e irritação com a mesma intensidade. Sua trajetória atravessa alguns dos momentos mais importantes e contraditórios do Brasil do século 20, razão pela qual sua história continua interessante mesmo para quem jamais assistiu a uma partida daquela Copa.
Nascido em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 1917, e criado no Rio de Janeiro, Saldanha construiu uma carreira que parecia improvável até para os padrões de sua época. Antes de se tornar conhecido como treinador, destacou-se como jornalista esportivo e comentarista. Era um observador atento da política, da cultura e dos acontecimentos internacionais, alguém que enxergava o futebol como parte da sociedade e não como um universo isolado.
Essa visão o diferenciava de muitos de seus contemporâneos. Enquanto grande parte da cobertura esportiva se apoiava em paixões clubísticas e frases feitas, Saldanha gostava de analisar o jogo de maneira racional, discutir estratégias e questionar consensos. Com o tempo, tornou-se uma voz respeitada justamente porque parecia enxergar o futebol de forma mais ampla do que a maioria.
Mas sua vida não se limitava ao esporte.
Saldanha era filiado ao Partido Comunista Brasileiro e nunca escondeu suas convicções políticas. Em um país que mergulharia na ditadura militar após o golpe de 1964, essa não era uma posição sem consequências. Seu nome aparecia nos arquivos dos órgãos de segurança do regime, e sua militância tornou-se parte inseparável de sua biografia.
É justamente aí que sua história começa a ganhar contornos quase cinematográficos.

Quando o Brasil fracassou na Copa de 1966, sendo eliminado ainda na primeira fase, a seleção entrou em crise. Era necessário reconstruir a equipe e recuperar a confiança dos torcedores. Em 1969, João Saldanha foi escolhido para assumir o comando técnico da seleção brasileira.
A decisão parecia arriscada. Ele não tinha o perfil diplomático que agradava aos dirigentes e tampouco era alguém conhecido por medir palavras. Ainda assim, os resultados foram imediatos.
Sob seu comando, o Brasil venceu todos os jogos das Eliminatórias para a Copa de 1970. Foram seis partidas e seis vitórias. Mais importante do que os números, porém, foi a construção de uma equipe que reunia alguns dos maiores talentos da história do futebol. Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson, Rivellino e Carlos Alberto Torres passaram a formar a espinha dorsal do time que encantaria o mundo no México.
Foi nesse período que surgiu a expressão “As Feras do Saldanha”, uma referência ao grupo de craques que ele havia reunido. Por isso, quando se fala da seleção de 1970, existe uma discussão que atravessa gerações. Embora Zagallo tenha comandado o time durante a Copa, muitos consideram que a base daquela equipe nasceu durante o trabalho de Saldanha.
Mas existe outro aspecto importante para entender por que João Saldanha se tornou uma figura tão fascinante quanto controversa.
Ele tinha fama de brigão.
E não apenas no sentido figurado. Ao longo da carreira, envolveu-se em discussões públicas, confrontos com dirigentes, embates com jornalistas e episódios que ajudaram a construir sua reputação de homem explosivo. A própria série recupera uma dessas histórias ao mostrar Saldanha saindo no tapa com um jornalista uruguaio durante a cobertura das Eliminatórias.
Hoje a cena pode parecer um exagero criado para aumentar o drama da narrativa. O problema é que ela está longe de ser incompatível com a imagem que o treinador tinha na vida real. Saldanha era conhecido por reagir de forma intensa a provocações e raramente recuava de um conflito. Sua personalidade ajudou a transformá-lo em uma figura fascinante para jornalistas e torcedores, mas também contribuiu para criar tensões constantes nos bastidores do futebol brasileiro.
Não por acaso, o dramaturgo Nelson Rodrigues ajudaria a eternizar um apelido que parecia descrevê-lo perfeitamente: “João Sem Medo”.
O paradoxo é que justamente as características que faziam dele um líder carismático e respeitado também tornavam sua permanência na seleção cada vez mais complicada. Em uma estrutura cercada por cartolas, interesses políticos e disputas de poder, Saldanha parecia incapaz de evitar confrontos.
Foi nesse contexto que surgiu uma das frases mais famosas do futebol nacional.
Segundo a versão que entrou para a memória popular, quando o presidente Emílio Garrastazu Médici tentou influenciar questões relacionadas à seleção, Saldanha respondeu:
“O presidente escala o ministério dele, eu escalo a seleção.”
Os historiadores discutem até hoje se a frase foi dita exatamente dessa forma ou se foi sendo lapidada pelo tempo. O fato é que ela sintetiza perfeitamente a imagem que ficou dele: a de um homem que não aceitava interferências e que raramente se preocupava em agradar pessoas poderosas.
A ironia histórica é que a Copa de 1970 acabaria se tornando um dos maiores símbolos da ditadura militar brasileira.

O governo Médici utilizou amplamente a conquista do tricampeonato como demonstração de força nacional. Em um período marcado por censura, repressão e perseguições políticas, as imagens de Pelé e seus companheiros levantando a Taça Jules Rimet foram incorporadas à narrativa oficial de um Brasil vencedor e unido.
Mas o homem que havia montado boa parte daquela equipe era justamente um comunista declarado.
Essa contradição ajuda a explicar por que João Saldanha continua despertando tanto interesse décadas depois. Ele ocupava uma posição desconfortável para todos os lados. Não era um herói perfeito, tampouco um mártir político. Era um personagem complexo, muitas vezes difícil, frequentemente teimoso, mas impossível de ignorar.
Após a demissão, acompanhou a Copa como comentarista. E é justamente esse período que a série da Netflix transforma em um de seus elementos mais interessantes. Interpretado por Rodrigo Santoro, Saldanha observa à distância uma seleção que já não era oficialmente sua, mas que carregava muitas de suas escolhas.
A produção o apresenta quase como uma consciência paralela daquele torneio. Enquanto milhões de brasileiros celebram as vitórias em campo, ele comenta, analisa, ironiza e observa um time que ajudou a construir.
A série também recupera outro aspecto fundamental de sua personalidade: o humor afiado.
Ao longo da carreira, Saldanha produziu algumas das frases mais lembradas do jornalismo esportivo brasileiro. Quando criticava a obsessão pela concentração dos jogadores, dizia que “se a concentração ganhasse o jogo, o time da penitenciária seria campeão”. Ao debochar das superstições que cercavam o futebol, afirmava que “se macumba ganhasse jogo, o Campeonato Baiano terminava empatado”.
Mais do que piadas, essas observações revelavam uma característica central de sua visão de mundo. Saldanha acreditava em talento, preparação e inteligência. Desconfiava de mitos, fórmulas mágicas e discursos vazios.

Talvez seja justamente por isso que sua história continua relevante para leitores que não sabem escalar uma seleção, que nunca assistiram à final de uma Copa do Mundo e que não acompanham futebol regularmente.
João Saldanha não é lembrado apenas porque participou de uma das maiores conquistas esportivas do país. Ele continua fascinante porque representa algo maior. Sua trajetória reúne política, jornalismo, poder, cultura, ditadura, mídia e esporte em uma única narrativa. Ao olhar para sua vida, vemos também um retrato das contradições do Brasil dos anos 1960 e 1970.
Mais de meio século depois do tricampeonato, a pergunta sobre quem merece mais crédito pela conquista — Saldanha ou Zagallo — provavelmente jamais será respondida de forma definitiva. O que parece muito mais interessante é perceber que, em uma história povoada por craques lendários e partidas inesquecíveis, um dos personagens mais intrigantes continua sendo justamente o homem que assistiu à Copa do lado de fora do banco de reservas.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

1 comentário Adicione o seu