Em 25 de junho de 1946, poucos imaginavam que um balé de apenas um ato, ambientado em um quarto miserável de Paris e protagonizado por um jovem pintor desesperado, se tornaria uma das obras mais influentes da história da dança. O mundo ainda tentava se reconstruir após a Segunda Guerra Mundial quando Le Jeune Homme et la Mort estreou no Théâtre des Champs-Élysées. O espetáculo durava pouco mais de quinze minutos, mas seu impacto atravessaria décadas.
Oitenta anos depois, a obra criada por Roland Petit a partir de um libreto de Jean Cocteau continua parecendo estranhamente contemporânea. Talvez porque não fale sobre príncipes, castelos ou mundos encantados. Fale sobre obsessão. Sobre desejo. Sobre solidão. Sobre a incapacidade de imaginar um futuro após a perda. Em outras palavras, fale sobre emoções humanas que permanecem tão reconhecíveis em 2026 quanto eram em 1946.

Como nasceu Le Jeune Homme et la Mort
A criação do balé aconteceu em um momento extraordinário da cultura francesa. Paris saía da ocupação nazista e uma nova geração de artistas buscava romper com as convenções do passado. Entre eles estava Roland Petit, então com apenas 22 anos.
Filho de Rose Repetto, fundadora da marca que se tornaria uma referência mundial em sapatilhas de dança, Petit havia recebido formação clássica na Ópera de Paris, mas não demonstrava interesse em repetir fórmulas. Seu objetivo era aproximar o balé do teatro, do cinema, da literatura e da vida contemporânea.
A parceria com Jean Cocteau foi decisiva.
Poeta, dramaturgo, cineasta e uma das figuras centrais da cultura francesa do século 20, Cocteau imaginou uma história simples e devastadora. Um jovem artista espera a mulher que ama. Quando ela finalmente aparece, ela o rejeita cruelmente. Incapaz de suportar a perda, ele se enforca. Na cena final, já morto, encontra a própria Morte usando o rosto da mulher amada.
A trama pode ser resumida em poucas linhas, mas seu significado é muito mais complexo.
Cocteau enxergava a dança como uma linguagem capaz de substituir as palavras. Em seus escritos sobre a obra, descreveu o movimento como uma tradução física da fala, uma forma universal de comunicação. Não por acaso, muitos críticos enxergam em Le Jeune Homme et la Mort um ponto de convergência de toda sua produção artística.
A relação entre desejo e destruição já aparecia em obras como Orfeu e O Sangue de um Poeta. Em todas elas surge a figura do artista fascinado por uma presença que é simultaneamente musa e ameaça, inspiração e ruína, amor e morte.

O balé que mudou a história da dança
O que torna Le Jeune Homme et la Mort tão revolucionário não é apenas sua história. O balé representou uma ruptura profunda com o que o público estava acostumado a ver nos palcos.
Enquanto grande parte do repertório clássico ainda era dominada por princesas, sílfides e personagens aristocráticos, Roland Petit colocou em cena um jovem artista pobre vivendo em um apartamento decadente sob os telhados de Paris.
O cenário criado por Georges Wakhévitch parecia saído de um filme. Os personagens fumavam, discutiam, tropeçavam, se empurravam e demonstravam emoções reconhecíveis. Os movimentos incorporavam gestos cotidianos e aproximavam a dança da realidade urbana do pós-guerra.
O protagonista usava macacão de trabalhador coberto de tinta em vez dos figurinos nobres tradicionalmente associados aos heróis do balé. Em muitos aspectos, Petit fazia com a dança o que o neorrealismo italiano realizava naquele mesmo período no cinema.
A consequência foi imediata. O público reconheceu naquele palco um mundo que se parecia com o seu.

Jean Babilée: o sobrevivente que se tornou lenda
É impossível contar a história de Le Jeune Homme et la Mort sem falar de Jean Babilée.
Nascido Jean Gutmann em Paris, filho de um médico judeu, ele estudou na Escola de Dança da Ópera de Paris antes de ter a juventude interrompida pela guerra. Durante a ocupação nazista, escapou por pouco das deportações que levaram milhares de judeus franceses para Auschwitz. Adotou profissionalmente o sobrenome da mãe e passou anos lutando na Resistência Francesa junto ao Maquis.
Quando voltou aos palcos após a libertação da França, não era apenas um bailarino promissor. Era um sobrevivente. Essa experiência ajudaria a definir sua interpretação histórica do jovem pintor criado por Cocteau.
A crítica frequentemente descrevia Babilée como o primeiro grande bailarino masculino da geração do pós-guerra. Dotado de uma capacidade atlética extraordinária, seus saltos eram comparados aos de Vaslav Nijinsky, e sua presença de palco possuía uma intensidade que poucos conseguiram igualar.

Na estreia de Le Jeune Homme et la Mort, ele realizou a cena do suicídio de maneira tão realista que precisou permanecer suspenso na corda por quase um minuto diante do público. Mais tarde admitiria que a experiência o aterrorizava.
Mas era justamente esse senso de risco que tornava sua interpretação tão poderosa, porque Babilée não parecia representar o desespero: parecia vivê-lo.
Décadas depois, nomes como Rudolf Nureyev, Mikhail Baryshnikov e Roberto Bolle assumiriam o papel. Ainda assim, muitos historiadores da dança continuam considerando a criação original de Babilée insuperável.
Zizi Jeanmaire: a musa que mudou o papel da bailarina
A história de Le Jeune Homme et la Mort também não pode ser separada de Zizi Jeanmaire.
Nascida Renée Jeanmaire, ela conheceu Roland Petit quando ambos tinham apenas nove anos e estudavam na Ópera de Paris. A parceria artística e amorosa entre os dois duraria o resto da vida.
Curiosamente, Petit concebeu originalmente o balé pensando nela, mas Zizi não participou da estreia. O papel feminino acabou entregue a Nathalie Philippart. Ainda assim, Jeanmaire se tornaria inseparável da obra.
Ao longo das décadas, especialmente na célebre filmagem de 1966 ao lado de Rudolf Nureyev, ela transformou a personagem em algo muito mais complexo do que uma simples amante cruel. Sua presença sugeria simultaneamente desejo, sedução e ameaça.

A mulher que surge na história não destrói o protagonista diretamente. Ela apenas aponta o caminho para sua destruição. Essa ambiguidade tornou-se uma das marcas registradas da interpretação de Zizi.
Mais tarde, ela revolucionaria a própria imagem da bailarina com obras como Carmen, também criada por Petit, tornando-se uma estrela internacional da dança, da música e da cultura popular francesa.
Por que o balé continua tão moderno 80 anos depois
Talvez a melhor maneira de entender a permanência de Le Jeune Homme et la Mort seja observar sua influência.
Desde a estreia, o balé entrou para o repertório das maiores companhias do mundo, incluindo a Ópera de Paris, o Bolshoi, o Mariinsky, o American Ballet Theatre e o English National Ballet. Mas sua importância vai além da dança.
A obra antecipou discussões que continuam extremamente atuais. Fala sobre dependência emocional, obsessão amorosa, masculinidade, sofrimento psíquico e a relação entre criação artística e autodestruição.


Ao mesmo tempo, permanece visualmente moderna. Seu cenário continua parecendo cinematográfico. Seus personagens continuam reconhecíveis. Seus conflitos continuam humanos.
O jovem homem criado por Cocteau e Petit não é um príncipe distante, mas alguém que poderíamos encontrar hoje e talvez seja essa a razão de sua sobrevivência.
O mundo mudou radicalmente desde 1946. Impérios desapareceram, tecnologias transformaram a vida cotidiana e novas gerações ocuparam os palcos, mas o desejo, a solidão, o amor obsessivo e a dificuldade de lidar com a perda permanecem exatamente os mesmos.
Oitenta anos depois, Le Jeune Homme et la Mort continua nos lembrando disso. E poucos balés podem dizer o mesmo.
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