Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL
Ao longo dos anos, fosse em junho ou não, voltei mais de uma vez à história de Marilyn Monroe, entrevistando curadores, autores e fãs em diferentes ocasiões. Chegar ao marco centenário de seu nascimento é um pouco emocionante porque, embora tenha sido retratada, analisada e revisitada quase à exaustão, tanto Marilyn Monroe quanto Norma Jeane continuam sendo um mistério para todas as gerações de admiradores.
Sempre achei curioso ter me tornado admiradora de uma atriz que já era ídolo das minhas avós. Mais curioso ainda é perceber que millennials e até gerações mais novas continuam fascinados por ela. Isso me faz pensar que talvez exista uma ironia inevitável em Marilyn: justamente a artista desprezada por parte da crítica de sua época, manipulada pelos estúdios, subestimada intelectualmente, abusada em suas relações e encontrada morta, sozinha, aos 36 anos, tenha se tornado uma das únicas estrelas verdadeiramente eternas do cinema mundial. Vou dizer sem exagero: não vejo nenhuma outra sobrevivendo como ela. O rosto de Marilyn Monroe talvez seja o símbolo máximo de Hollywood.

E isso não aconteceu porque ela viveu uma trajetória triunfante. Pelo contrário. Marilyn sabia que tinha o amor incondicional do público, mas o que desejava desesperadamente era o respeito de colegas, diretores e colaboradores, algo que nunca encontrou plenamente em vida. Quando morreu, em agosto de 1962, era tratada por parte da indústria como problemática, instável, atrasada e ultrapassada. Tinha poucos amigos próximos e atravessava uma encruzilhada pessoal e profissional extremamente dolorosa. Sim, existem inúmeras teorias conspiratórias sobre sua morte repentina, mas qualquer pessoa que conheça minimamente sua biografia entende que sua vida foi marcada por abandono, solidão e sofrimento desde muito antes da fama. Em alguns momentos, é difícil não pensar que Norma Jeane talvez estivesse apenas cansada.
Porque, quando falamos de Marilyn Monroe em 2026, no ano em que completaria 100 anos, estamos inevitavelmente falando também de Norma Jeane Mortenson: a menina que nunca soube exatamente quem era seu pai, que mal conviveu com a mãe — internada em instituições psiquiátricas e diagnosticada na época como esquizofrênica —, que passou por orfanatos, famílias adotivas abusivas, casamentos fracassados e relações amorosas frequentemente atravessadas por dor, dependência emocional e abandono.
Em 2010, escrevi uma matéria sobre Fragmentos, livro lançado com poemas, cartas, anotações e materiais íntimos deixados pela atriz. A obra nasceu de um acaso quase cinematográfico: após a morte de Marilyn, em 1962, boa parte de seus pertences pessoais ficou guardada em caixas trancadas por Lee Strasberg, mentor da atriz no Actors Studio. Décadas depois, quando Anna Strasberg encontrou esse material, percebeu imediatamente que havia algo muito mais profundo ali do que simples memorabilia de Hollywood.
Na época, conversei com Bernard Comment, escritor suíço responsável pela edição europeia do projeto, que me disse algo que nunca esqueci: “Até hoje, sempre vimos Marilyn de fora para dentro, sob a percepção do público ou dos amigos. Com este livro, podemos vê-la ao contrário: como ela se via e como via os outros.” E talvez fosse exatamente isso que tornasse Fragmentos tão sensível e fascinante. O livro desmontava a caricatura da “loira ingênua” porque permitia ouvir, pela primeira vez para muitos leitores, a própria voz de Norma Jeane, insegura, inteligente, melancólica, frequentemente solitária e muito mais consciente de si mesma do que Hollywood permitiu enxergar.


Talvez por isso seja tão emocionante conversar agora, em 2026, com a curadora da mostra Marilyn Monroe: Hollywood Icon, do Academy Museum, em Los Angeles, aquela que considero a principal homenagem já feita à atriz. Existe algo profundamente simbólico no fato de Marilyn — que compareceu a apenas uma cerimônia do Oscar em toda sua vida, e apenas como apresentadora — finalmente receber uma grande celebração institucional da própria indústria que tantas vezes a rejeitou. Ela nunca foi indicada ao Oscar. Nunca recebeu uma homenagem póstuma da Academia. E, ainda assim, segue sendo um dos rostos mais reconhecidos do planeta mais de seis décadas após sua morte.
A exposição do Academy Museum tenta justamente corrigir parte dessa distorção histórica ao destacar Marilyn não apenas como mito, mas como artista. Em vez de reduzir sua trajetória ao vestido branco esvoaçante ou à persona sensual construída pelos estúdios, a mostra enfatiza seu rigor profissional, sua obsessão por aperfeiçoamento, sua consciência sobre a imagem e o esforço constante para ser levada a sério em uma indústria que frequentemente lucrava com sua vulnerabilidade enquanto ridicularizava suas inseguranças.
“Acho importante que as pessoas entendam Marilyn como alguém que estava profundamente envolvida na construção da própria carreira”, explica a curadora da exposição. “Ela estudava atuação, observava enquadramentos, discutia figurino, iluminação, fotografia. Existia uma artista extremamente consciente ali.”
Talvez seja justamente isso que continue fascinando tantas gerações. Marilyn Monroe nunca foi apenas uma estrela. Ela foi uma mulher tentando sobreviver à própria transformação em símbolo. E talvez nenhum outro rosto da cultura pop represente tão bem o encontro entre fantasia e tragédia que Hollywood vendeu ao mundo ao longo do século 20.
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